ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA OBESIDADE
MÓRBIDA
Falar em "aspectos psicológicos" de
uma dada moléstia não tem relação alguma com o estabelecimento de um "perfil
psicológico", mesmo porque, o perfil é apenas uma parcela do indivíduo em
questão. Todavia, ao considerarmos o indivíduo obeso mórbido que nos procura
para a resolução de sua doença, não podemos nos furtar de observar nas
entrevistas de candidatos à cirurgia bariátrica, semelhanças em questões
reflexivas ligadas ao sofrimento de ser obeso.
A obesidade mórbida é assim
descrita devido às complicações físicas, e porque também não incluir as
psíquicas, decorrentes do excesso elevado de peso. De acordo com o Índice de
Quetelet, é obeso mórbido o indivíduo que tiver 40 ou mais na pontuação que nos
fornece a massa corporal em Kg/m2. Existem casos de indivíduos em que o IMC é
inferior a 40, mas que já apresentam complicações que reduzem tempo e/ou
qualidade de vida. Quase a totalidade dos pacientes que buscam a cirurgia
bariátrica traz seqüelas psicológicas e orgânicas decorrentes do uso de
anorexígenos, numa busca circular de emagrecimento. Depressões são
desencadeadas, processos ansiosos se intensificam, compulsões alimentares se
manifestam e até mesmo o transtorno do pânico marca presença.
O psiquiatra José Carlos
Appolinário, Doutor em Psiquiatria pela UFRJ, faz um levantamento de estudos
comparados e conclui que não se pode afirmar que os obesos tenham problemas
emocionais graves como determinantes da obesidade. Estatisticamente, obesos e
não obesos não apresentam diferenças quanto à morbidade psiquiátrica.
Numa outra perspectiva porém, nos
perguntamos sobre esse corpo que se enche exageradamente, aumentando sua forma
em dimensões inimagináveis e se não haveria ai um vazio de outra ordem, que não
o do estômago. E se o vazio não é deste órgão, porque reduzí-lo ? Como conseguir
acompanhar essa imagem de crescimento literal que faz com que uma mulher
percorra desde a marca dos 60 até os 200 kg? E como compreender que apenas pelo
limite também imposto literal e concretamente, a psique desses indivíduos obesos
mórbidos, tenham a contenção necessária para abrir mão de seu recurso de
equilíbrio: o comer desenfreado que não conhece a saciedade?
A cirurgia cumpre seu papel:
possibilita que o controle da ingestão alimentar mude de sede; da vontade egóica
para o volume do estômago. De algum modo, a energia psíquica dispendida no
estabelecimento do limite do ato alimentar, fica à disposição da psique, podendo
tomar forma construtiva ou destrutiva. O conflito em relação ao comer se desfaz.
Quebra-se o ciclo ( vontade de comer, ansiedade, ato alimentar, culpa, ganho de
peso, arrependimento, perda progressiva da auto-estima, isolamento, depressão )
e a energia fica livre para outro alvo. Mas que alvo?
Dos 72 pacientes avaliados até
abril/99, apenas 11 permaneceram em psicoterapia. Uma parcela pequena se põe
para operar uma transformação além do corpo. As informações médicas, contudo,
nos relatam uma grande porcentagem de indivíduos que se refere a um aumento na
qualidade de vida pelo resgate da auto-estima.
Em decorrência da restrição do
volume alimentar ingerido e do impedimento da absorção dos alimentos, o
indivíduo emagrece sem muitos esforços mentais e sem o sentimento de privação. O
vazio se preenche com pouca quantidade de comida e as restricões típicas de
dietas hipocalóricas são abandonadas. A ansiedade ligada à possibilidade de
recuperar o peso perdido se desfaz mediante a experiência concreta da medida
radical que é a cirurgia. A experiência do limite imposto pelo corpo dá à alma
um sabor de liberdade.
Mas a vida não se totaliza pela forma que um corpo adquire ou pelo conceito que cada um tem de si enquanto Kg/m. As questões humanas permanecem, ou até têm a possibilidade de surgir em busca de resolução depois que o "bode expiatório" sai de cena.
Mas a vida não se totaliza pela forma que um corpo adquire ou pelo conceito que cada um tem de si enquanto Kg/m. As questões humanas permanecem, ou até têm a possibilidade de surgir em busca de resolução depois que o "bode expiatório" sai de cena.
Temos duas categorias de obesos
mórbidos: os sempre obesos e aqueles que já se experimentaram como magros. Para
aqueles que não conhecem um corpo de dimensões menores, a construção de uma nova
identidade física com o auxílio de uma psicoterapia se faz indispensável. Os que
já vestiram manequins bem menores que os atuais, falam de uma insatisfação com o
corpo presente e uma busca incessante na tentativa de recuperar o corpo que lhes
dava identidade. Os pacientes jovens ( entre 16 e 25 anos ) têm encontro marcado
com a sexualidade encoberta e mal definida pela gordura. Os já estabelecidos em
relações familiares, experimentam mudanças no sistema familiar e em seus modelos
relacionais.
Jung expressou muito bem a unidade
psicossomática do ser humano e suas palavras têm justificado a continuidade do
trabalho psicológico junto à equipe de profissionais cuja intervenção se dá de
forma concreta sobre o corpo:
" Um funcionamento inadequado da
psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que,
inversamente um sofrimento corporal pode afetar a psique, pois a psique e o
corpo não estão separados, mas são animados por uma mesma vida. Assim sendo, é
rara a doença corporal que não revele complicações psíquicas, mesmo quando não
seja psiquicamente causada."
A resolução da obesidade enquanto
doença crônica que diminui a qualidade de vida de um indivíduo, pode também ser
vista como uma possibilidade de recomeço, e de abertura para uma nova dimensão
existencial.
Das 54 mulheres e 18 homens (
abril/99 ) que nos foram encaminhados para avaliação, obtivemos os seguintes
fatores etiológicos atribuídos pelos próprios pacientes:
Compulsão Alimentar: 35
Ansiedade: 33
Depressão: 26
Obesidade infantil: 19
Prazer em comer: 16
Genética: 7
Puberdade/adolescência: 6
Raiva: 3
TPM: 2
Fome: 1
1 caso: "Como para chamar a atenção e me vingar."
Ansiedade: 33
Depressão: 26
Obesidade infantil: 19
Prazer em comer: 16
Genética: 7
Puberdade/adolescência: 6
Raiva: 3
TPM: 2
Fome: 1
1 caso: "Como para chamar a atenção e me vingar."
2 caso: "Minha obesidade é meu
freio sexual."
O entrevistado de maior peso foi um
homem de 38 anos que se referia ao limite sexual imposto pelo corpo obeso. Seu
peso na cirurgia era de 178 Kg, mas seu histórico de peso já havia atingido a
marca dos 260Kg. O maior diferencial entre pesos mínimo e máximo foi o de uma
paciente do sexo feminino de 34 anos: 151Kg ( mín:61-máx:222 ). A causa por ela
atribuída ao ganho de peso foi a fome.
Tomando como início uma questão
acerca da natureza dessa fome, percebemos que a literatura sobre obesidade não
está longe de acertar quando nos diz que no obeso, não há a percepção
discriminada das necessidades corporais: fome, sede, sono, frio, ansiedade,
tristeza, dor, todos recebem como alívio a comida. A voracidade traz à baila um
núcleo de insatisfação e a dificuldade em experimentar limites. Em todos os
indivíduos entrevistados ( abril/99 ) o corpo aparece como inimigo. Ele é o
depósito de tudo que há de mau e sombrio. Mas o que detectamos é um excessivo
controle no plano racional, uma cabeça enorme que só poderia repercutir num
corpo grandioso. Ao comer compulsivamente o controle sai de cena, a cabeça tem
condições de relaxar via dissociação e o espírito só volta à matéria quando a
"orgia alimentar "tem fim por um desconforto gástrico que evoca a consciência do
ato de comer.
Corpo é matéria e Mater é mãe. É
condizente pensar na boca como veículo de construção das noções de Eu e Não-Eu.
Ingerir, digerir e eliminar fazem parte do trajeto alimentar, bem como as noções
de cheio e vazio a ele pertencem. A mãe é o primeiro alimento; ela rege o
período pré-verbal em que a linguagem do corpo estabelece as relações. De algum
modo, os obesos estão amarrados neste período de desenvolvimento, o que os faz
permanecer infantis na alma mesmo que em corpos exageradamente
crescidos.
A dissociação descrita por
indivíduos que se reconhecem como compulsivos alimentares evoca a imagem de
nossa festa tipicamente matriarcal: o carnaval. Nela, a euforia do prazer da
carne é vivida para depois haver a experiência das "cinzas". O Rei Momo e a ala
das baianas são imagens que ilustram bem o valor do corpo e do alimento. Em
termos sociais sabemos bem da função de consolo que o nosso carnaval representa
para o povo brasileiro. Há todo um movimento de compensação desde a inversão do
reinado ( o magro pelo gordo, o rico pelo pobre, o negro pelo branco ) até a
quebra de regras e uso de substâncias que relaxam uma cultura que cultua o
ego.
Também pela boca entram os
"comprimidos para emagrecer", drogas socialmente valorizadas e vendidas sem
grandes critérios ou controle. Tanto as drogas anorexígenas quanto a cirurgia
bariátrica, de certo modo mantêm os indivíduos passivos em relação ao processo
de resolução de sua obesidade, mas as chamadas "boletas", comprometem
declaradamente a evolução da vida. Dos 72 pacientes com os quais foi feito um
contato ao mínimo, 28 fizeram ou fazem uso de psicofármacos; apenas 2 nunca
haviam feito uso de medicações inibidoram de apetite; 3 relataram tentativa de
suicídio com internamento em clínica psiquiátrica.
Se por uma vertente podemos ver a
carapaça de banha como determinante de um isolamento defensivo que encobre
sentimentos de fraqueza e fragilidade, por outra podemos perceber nas dimensões
exageradas do corpo um desejo de poder e de conquista de espaço que se
materializa. O evitamento social pela hipersensibilidade à rejeição e as
atitudes do tipo "tudo ou nada" que em si já predispõem a frustrações, encontram
na comida um prazer imediato e de fácil acesso que exerce a função de
tranqüilizante moralmente aceito.
É de regra que, como parte da
sociedade preconceituosa, o próprio obeso se considere intimamente um ser humano
de categoria inferior. Suas expectativas de perfeição o condenam aos sentimentos
de impotência e incapacidade quanto à resolução de seu problema. Pertinentes a
esses conceitos que fazem de si próprios, sua auto-estima apresenta-se reduzida
e por vezes, sobrevém uma agressividade intensa que faz do morder e mastigar
constantes seu ato de expressão. Via de regra porém, os obesos não procuram
psicoterapia para buscar um sentido em seu ato alimentar desenfreado e sua
relação distorcida com o corpo, pois em sua grande maioria consideram o
emocional secundário à obesidade.
Dos transtornos psiquiátricos
descritos pelo DSM-IV, é maior a freqüência do TCP ( transtorno de compulsão
periódica ), cuja descrição traz os seguintes critérios:
ataques de hiperfagia num período
de tempo limitado sem comportamentos compensatórios ( exercícios físicos
exagerados; aut0-indução de vômitos; abuso de laxantes e diuréticos )
sentimento de falta de controle sobre o comportamento alimentar
presença de 3 ou mais dos seguintes critérios:
comer rapidamente
comer até sentir-se incomodamente repleto
comer grandes quantidades de alimento sem fome
comer sozinho
sentir repulsa por si mesmo
depressão
culpa
angústia em relação à compulsão
2 episódios compulsivos semanais por um período mínimo de 6 meses
Em casos em que o paciente no pós-cirúrgico evolui com sintomas que indicam a preponderância de humor deprimido e irritabilidade, são usados recursos medicamentosos até que haja uma adaptação à nova realidade. Esses recursos se fazem necessários principalmente pela falta de engajamento desses pacientes operados a um processo de psicoterapia que os envolva intimamente com suas próprias insatisfações. Há sempre a tendência de permanecerem passivos, na esperança de serem emagrecidos sem ônus algum.
sentimento de falta de controle sobre o comportamento alimentar
presença de 3 ou mais dos seguintes critérios:
comer rapidamente
comer até sentir-se incomodamente repleto
comer grandes quantidades de alimento sem fome
comer sozinho
sentir repulsa por si mesmo
depressão
culpa
angústia em relação à compulsão
2 episódios compulsivos semanais por um período mínimo de 6 meses
Em casos em que o paciente no pós-cirúrgico evolui com sintomas que indicam a preponderância de humor deprimido e irritabilidade, são usados recursos medicamentosos até que haja uma adaptação à nova realidade. Esses recursos se fazem necessários principalmente pela falta de engajamento desses pacientes operados a um processo de psicoterapia que os envolva intimamente com suas próprias insatisfações. Há sempre a tendência de permanecerem passivos, na esperança de serem emagrecidos sem ônus algum.
A cirurgia bariátrica tem então,
como objetivo, libertar o indivíduo de uma doença fatal e comprometedora de sua
qualidade existencial, abrindo o campo para que haja tempo para o confronto com
questões mais intrínsecas que estarão sempre se fazendo presentes, e não
necessariamente ligadas à obesidade, mas vinculadas à condição de ser
humano.
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