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sábado, 3 de março de 2012

O Ser Criança e o Brincar


“Lápis, caderno, chiclete, pião
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria, tambor, gritaria, jardim, confusão

Bola, pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar, pula cela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia, pirata, baleia, manteiga no pão

Giz, merthiolate, band-aid, sabão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca, botão, pega-pega, papel, papelão..”



Assim começa uma das canções mais conhecidas do grupo Palavra Cantada - uma referência às brincadeiras comuns entre crianças do mundo inteiro. Todos fomos criança um dia! E recordar esses momentos de brincadeira que faziam parte de nossas infâncias nos ajuda hoje, como adultos, a compreender o valor que a brincadeira tem para as crianças. Não importa em que parte do mundo elas estejam, as crianças estão sempre motivadas a brincar com o que há a sua volta. O brincar aqui é entendido não apenas como um momento ocioso dentro da rotina de nossas crianças, mas como uma atividade fundamental no desenvolvimento infantil. É através do brincar que elas aprendem acerca dos valores humanos e culturais do mundo a sua volta, valores esses que terão um papel central para sua constituição enquanto indivíduo pertencente a um grupo social.

O conceito de criança e infância não existe desde sempre. Estes conceitos foram sendo elaborados ao longo do tempo, simultaneamente com mudanças na composição familiar, nas noções de maternidade e paternidade, e no cotidiano e na vida das crianças. Atualmente, percebe-se a criança como um sujeito social, atuante, que ocupa um papel ativo na constituição da suas relações, dos seus próprios papéis e identidade.

O “ser criança” costuma ser entendido em contraposição às responsabilidades do mundo adulto, o que explicita uma cisão entre essas duas experiências. Cabe ressaltar que a diferença ente crianças e adultos não é quantitativa, mas qualitativa, a criança não sabe menos, ela sabe outra coisa. A criança formula um sentido ao mundo que a rodeia, e é importante que abordemos este universo tentando entender o que há nele, e não o que esperamos que nos ofereçam. A verdade é que o universo infantil pode surpreender muitos adultos! O brincar, então, se apresenta como um convite para conhecermos e compartilharmos deste universo infantil.

Participar com as crianças dos seus momentos de brincadeira nos permite entende-las melhor, identificando os seus valores, as suas preocupações e sentimentos em relação a situações específicas da sua vida. Além disso, o brincar promove o desenvolvimento de habilidades como a coordenação motora, a criatividade e a inteligência. É importante promover oportunidades para o brincar, e isto inclui todas as possibilidades imagináveis – Inventar histórias, brincar de ateliê, dançar e cantar, jogos de tabuleiro, quebra-cabeça, dominó, cozinhar juntos, brincar de pega-pega, ver os bichos do jardim, ler livros, brincar de faz-de-conta. Esses momentos garantem um desenvolvimento saudável e progressivo de repertórios comportamentais essenciais para uma vida feliz. Ou seja, esses momentos de brincadeira também podem ser importantes para se ensinar comportamentos adequados e potencialmente úteis nas interações que a criança estabelece com seus pares - como a empatia, a auto-confiança e estratégias para resolução de problemas.

Em uma situação normal de jogo, a criança passa a entender as regras e aprende a respeitá-las, e aprende também a lidar com suas próprias frustrações quando perde uma partida, e com o tempo percebe que isso não significa o fim do mundo, que na próxima partida ela terá chances de ganhar. Entretanto, mais importante que ganhar ou perder, é imprescindível ensinar as nossas crianças que o mais gostoso é a diversão que o jogo e a interação com os pares durante a brincadeira proporcionam a ela. É importante que os pais também vinculem o brincar a um momento de prazer, de modo que eles se engajem nessas atividades e preservem a qualidade dos momentos com suas crianças. Os adultos também brincam! Existem aqueles que se sentem desconfortáveis e acham que não sabem brincar, neste caso, é importante resgatar este prazer que o brincar proporciona e para isso é necessário que eles se coloquem disponíveis para vivenciar estes momentos lúdicos com seus filhos.

É emocionante imaginar que estes momentos entre pais e filhos podem ser recheados de afagos, longos abraços, brincadeiras inventadas e brincadas junto, histórias contadas ao pé da cama. Assim, sob a luz de uma feliz doação de tempo e cuidado. Estes momentos de leveza permitem, sem dúvida, resgatar o significado do brincar no processo de desenvolvimento geral do ser humano, estimulando e fortalecendo a integração físico-psicossocial.

O conceito de criança como sujeito social e produtor de cultura nos permite observar a existência de culturas infantis. As brincadeiras aprendidas, não apenas com adultos, mas com outras crianças, têm papel fundamental na transmissão cultural entre crianças. Isto justifica a relevância de preservar e estimular o brincar. Garantir o direito da criança à brincadeira é papel de todos aqueles que de algum modo desempenham atividades que se relacionem com a infância.

A mais importante lição nesta reflexão sobre o ser criança e sobre o brincar é que devemos atentar não apenas para a diferença, mas para as semelhanças entre adultos e crianças. Encontrar pontos em comum entre esses dois mundos através do brincar é encontrar, também, um espaço onde as relações entre pais e filhos se afinam, em um compartilhar bonito e alegre de sentimentos, experiências e afeto. O brincar nos ensina o hábito de ser feliz. Quando valorizamos o brincar, estamos valorizando o ser criança

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