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segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Familia Moderna

A Família moderna Novas constituições e valores redesenham a estrutura familiar contemporânea e trazem para os divãs toda a complexidade dessas inovações Lar, doce lar pós-moderno Partindo do ponto de vista da Psicanálise de Família e de suas abordagens clínicoteóricas, especialistas abordam a complexidade no seio familiar contemporâneo Tempos modernos A nova estrutura familiar e a noção de casal servem de enlaces para o debate sobre a existência da família, agora livre das amarras da heterossexualidade e das exigências socioeconômicas que lhe serviu de alicerce por tantos séculos Programados para arrasar Das triviais aulas de artes e músicas às sofisticadas aulas de etiqueta, passando, claro, pelos diversos cursos de idiomas, a "fórmula da agenda lotada" já se consagrou entre os pequenos, mas será que isso já é o sucesso refletindo em suas vidas? É com grande satisfação que iniciamos este dossiê para abordar o tema das famílias contemporâneas. Sabemos das inúmeras alterações ocorridas no conceito e na estruturação da família, ocorridas no último século. Entramos no século XXI tendo de encontrar novas formas de lidar com os problemas gerados no seio dessas novas famílias e é esse o enfoque central que buscamos dar a esse material. Sergio Eduardo Nick é psiquiatra e psicanalista, secretário geral da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) e chair do Comitê de Informação Pública da International Psychoanalytical Association (IPA) É importante destacar que todos os que hoje intervêm na clínica psicanalítica contemporânea têm nos alertado para a enorme gama de questões que demandam um olhar atento e cuidadoso, conforme ficou explicitado recentemente no 46º Congresso da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), em Chicago. Em primeiro lugar, cabe lembrar que a partir das enormes mudanças oriundas do capitalismo avançado, entre elas o consumismo e comunicação de massa; questionamento da autoridade paterna e do Estado; individualismo e narcisismo; Psicologismo; avanço técnico-científico com as fertilizações in vitro, barrigas de aluguel, células-tronco, globalização; entre outros fatores, o sujeito se viu envolvido em fortes transformações que atingem sua forma de estar no mundo. Novas patologias como as bulimias, anorexias, obesidade, compulsões, drogadição, suicídios e a violência mostram que o sujeito contemporâneo está muito mais para o "borderline" do que o neurótico descrito por Freud. Isso não só denota uma alteração na estruturação do sujeito, como também nos faz mirar de forma diferente a família pós-moderna, com suas idiossincrasias e transformações. Assim, não é só o capitalismo avançado que demanda esse sujeito "borderline"; é a família atual que tende a construí-lo! Senão vejamos: vivemos numa era em que o tempo é escasso, os níveis de afetividade no seio da família sofrem diversos constrangimentos (divórcios, famílias ampliadas, redução do número de filhos), a tríplice jornada da mulher e do homem reduz enormemente sua disponibilidade para cuidar da prole, redundando em uma família em que as relações de parentesco se tornaram bastante complexas. A nós, psicanalistas, só resta entender toda essa transfiguração e buscar dar aos que sofrem apoio para se adaptar a essa nova ordem. Tentamos oferecer um acolhimento que permita a construção de uma mente capaz de abrigar minimamente a torrente de emoções, pensamentos e fantasias próprias do ser humano. Nesse sentido, buscamos, com os trabalhos apresentados aqui, mostrar o que vem surgindo em nossos consultórios, nas escolas, e no dia a dia de cada criança. Pensamos que a partir desse diálogo com outros ramos do saber é que poderemos encontrar novas formulações teóricas, novas propostas terapêuticas, e assim ajudar o homem pós-moderno em suas crises no viver. A nova estrutura familiar e a noção de casal servem de enlaces para o debate sobre a existência da família, agora livre das amarras da heterossexualidade e das exigências socioeconômicas que lhe serviu de alicerce por tantos séculos Podemos definir a noção de casal de acordo com a separação de sexos, que ainda hoje é encontrada nos dicionários e na maioria das representações que fazemos de um casal. Em seguida, refletimos pela noção de família, tendo como polo original as diferentes nuances com que se pode olhar para o casal familiar: marido e mulher; pai e mãe; avô e avó. Nesse modelo familiar dito tradicional, a presença obrigatória de um genitor do sexo masculino e um do sexo feminino, na formação de uma família, permitiu a criação de um modelo de identificação sexual triangular, que Freud traduziu ao mundo tão bem, pelo mito de Édipo. Por meio dele, meninos e meninas são levados a se identificar com o genitor do sexo oposto, por força do complexo de Édipo, cuja resolução deságua na identidade masculina e feminina. A transição gradual, mas segura, da importância da heterossexualidade como meio de subjetivação e introjeção do masculino/feminino, agora em fase de substituição pela noção de gênero, tem mudado radicalmente a qualidade da vincularidade familiar e, com isso, os processos de subjetivação mediadores do humano no homem. Assim, questiona-se como a ideia de família pode sobreviver sem Édipo e sem "inveja do pênis"? Maria Aparecida Quesado Nicoletti é psiquiatra, psicanalista, membro efetivo da Sociedade de Brasileira de Psicanálise de São Paulo e secretária científica da Federação Brasileira de Psicanálise - E-mail: aparecidanicoletti@cboo.com.br Independente da forma da construção do núcleo familiar, seja ele heterossexual ou homossexual, permanece firma o ideal do ser humano. A família continua sendo a base para o desenvolvimento mental de seus membros Em busca do significado de todas as mudanças e do impacto que elas produzem sobre a sexualidade, Ernst Cassirer (1997), ao descrever a função da atividade simbólica, nos ajuda a superar a ideia do sexo biológico como determinante da sexualidade humana, para adentrar no mundo das possibilidades de um modo de viver mais equalitário, baseado na noção de gênero. Diz ele: "o homem pode construir seu mundo simbólico com base apenas nos materiais mais pobres e escassos. A coisa de importância vital não são os tijolos e as pedras individuais, mas a sua função geral, como forma arquitetônica". Na atualidade, não é mais possível contar apenas com o modelo familiar nuclear como ambiente de formação da subjetivação humana, porque as mudanças sociais que marcaram nossa época levaram a um apagamento dos símbolos que marcavam os espaços familiares tradicionais, esmaecidos pela ausência da mulher na casa; pela terceirização da educação inicial da criança, agora partilhaEsse novo conceito muda também a relação do indivíduo com o mundo. Mães e pais sentem-se cada vez mais pressionados pela pós-modernidade e refletem esse anseio para a vida em grupo, no seio familiar. É cada vez mais comum filhos acumularem atividades extraescolares (cursos de inglês, futebol, balé, escoteiro) enquanto os pais acumulam horas de trabalho. A falta de contato, de diálogo, de interação é preocupante. O jantar com a família é constantemente adiado e a falta de tempo (ícone dos tempos modernos) deixa a mesa cada vez mais vazia. É nesse contexto que se observa, de forma nítida, o fenômeno que denomino "terceirização da família". Trata-se de um deslocamento do conceito econômico contempo-râneo "terceirização de serviços e de produção", adotado por empresas que buscavam racionalizar custos e aumentar sua eficiência. Para poder se dedicar às atividades momentaneamente mais impor-tantes, essas empresas delegam para outras determinadas operações de sua produção ou do serviço que prestam. De maneira similar, a família atual, para se manter no compasso das exigências sociais e econômicas de nossa sociedade, parece terceirizar algumas de suas funções, dentre elas a da educação dos filhos... Seja como for, observa-se hoje que a revisão do modelo tradicional de família tem provocado mudanças nas funções familiares, das quais, uma das principais parece ser representada pelo fato da interdição e limites não serem mais consideradas funções ligadas ao sexo paterno. Novo núcleo multidimensional Viver na era atual não nos permite o distanciamento suficiente para sequer esboçar respostas para as questões que permeiam a família moderna, tão carregadas de significado e de aflições, entre os psicanalistas. A família de nosso tempo pode ser vista de forma multidimensional, como mundo de relações, como grupo de indivíduos e mesmo, sob o vértice da Psicanálise de família, como paciente. "Na nova construção simbólica da família, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios do gênero" Assim, podemos pensar o casal e seus dependentes como um grupo de indivíduos interligados por um mundo de relações simbólicas que, no tempo e no espaço, constroem uma história sobre si própria, seus próprios mitos no qual eu, você, as crianças, são ideias com valores e forças diferentes, na linha do tempo e nos diferentes arranjos familiares: carregam a força do sangue no arranjo heterossexual e tão somente a força do afeto nos casais homoparentais. Pais do mesmo sexo Nessa nova construção simbólica da família, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios do gênero, criando as condições psicossociais para a aceitação e o reconhecimento oficial da família homoparental e das diversas outras configurações familiares discutidas na atualidade. Isso trás para o primeiro plano da psicanálise de família, a questão dos organizadores familiares trazida por Eiguer, na medida em que eles parecem constituir uma heurística capaz de nos ajudar a pensar as bases psíquicas com que as novas famílias estão se constituindo Podemos pensá-la também com a ajuda de Eiguer que a vê como um grupo de indivíduos entrelaçados por vínculos, no qual as relações de objetos e as transferências são ordenadas por organizadores familiares, de forma que as diferenças da estrutura individual se apagam diante da importância atribuída à teia de relações, continuamente estabelecidas e reconstituídas pelo grupo familiar. Educação compartilhada com a escola Na atualidade não é mais possível contar apenas com o modelo familiar nuclear como ambiente de formação da subjetivação humana, porque as mudanças sociais que marcaram nossa época levaram a um apagamento dos símbolos que marcavam os espaços familiares tradicionais, esmaecidos pela ausência da mulher na casa; pela terceirização da educação inicial da criança, agora partilhada com a pré-escola pelas mães que trabalham fora; pelas mudanças no mercado de trabalho, que vêm abalando a imagem do pai provedor do sustento/ mãe provedora de afeto, que a dupla de genitores tradicionais mantinha. Nessa nova construção simbólica da família, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios do gênero, criando as condições psicossociais para a aceitação e o reconhecimento oficial da família homoparental e das diversas outras configurações familiares discutidas na atualidade. Isso traz para o primeiro plano da Psicanálise de família a questão dos organizadores familiares trazida por Eiguer, na medida em que eles parecem constituir uma heurística capaz de nos ajudar a pensar as bases psíquicas com que as novas famílias estão se constituindo. Apesar disso tudo, o conceito de família, - seja ela estruturada pelo casal heterossexual ou homossexual, matriarcal, tradicional ou constituída por meio-irmãos -, permanece firme no ideal do ser humano. A família traz os limites do espaço mediado por relações afetivas, capazes de propiciar a seus membros o espaço mental necessário para o desenvolvimento do pensamento, capacidade para delimitar fronteiras adequadas, entre a falta e o excesso, de forma que exista a possibilidade de manter trocas afetivas que contenham funções de ouvir, discernir e acompanhar, sem ceder à ânsia de eliminar conflitos. Para assistir No filme Shelter, a irmã deixa seu filho a maior parte do tempo com o protagonista, para curtir a farra. Cansado dessa situação, e ainda apaixonado pelo irmão do seu amigo, o jovem resolve adotar o sobrinho com o seu amor e construir uma família. Referências FREUD S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade - 1905. Rio de Janeiro: Imago,1989 CASSIRER E. Ensaio sobre o Homem. São Paulo: Martins Fontes, 1997 SARTI C. A. A família como ordem simbólica. São Paulo: Psicologia da USP. Vol. 15/3, 2004 EIGUER A. Um divã para a família. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985 BERENSTEIN I. Psicoanalizar una família. Buenos Aires: Paidós, 1996 (2ª reimpressão) BOX S., COPLEY B., MAGAGNA J., MOUSTAKI E. Psicoterapia com famílias: Uma abordagem psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994

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