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segunda-feira, 30 de abril de 2012
Na companhia dos bichos
Na companhia dos bichos
Animais de estimação podem contribuir para melhorar a saúde física e mental de seus donos, mas a duração desses efeitos sobre a saúde psíquica das pessoas causa polêmica entre pesquisadores
por Scott O. lLlienfeld e Hal Arkowitz
Em 1857, o escritor britânico George Eliot escreveu: “Os animais são amigos muito agradáveis. Não fazem perguntas nem manifestam desaprovação”. Essa natureza afável de cães, gatos, peixes e outros bichos intriga pesquisadores que buscam descobrir quais seriam os seus poderes terapêuticos ainda inexplorados. Uma das questões a serem esclarecidas é se os benefícios que eles trazem para a saúde – segundo muitos garantem -– são obtidos apenas pela diversão que proporcionam ou se a presença dos bichos pode, de fato, ser considerada terapêutica – a ponto de ser indicada por médicos e psicólogos para auxiliar no tratamento de seus pacientes.
O fato é que cada vez mais os bichinhos têm ocupado lugar de destaque na vida das pessoas – e, não raro, recebem a “responsabilidade” de suprir carências afetivas profundas de seus donos. Basta dizer que, no ano passado, o chamado “pet business” – negócios envolvendo animais de estimação e produtos destinados a eles – movimentou uma cifra recorde no Brasil: cerca de US$ 3,3 bilhões, com um crescimento de 17% em relação ao faturamento de 2006. Nos Estados Unidos, aproximadamente 63% dos lares abrigam mascotes, segundo dados da Associação Americana de Fabricantes de Produtos para Animais de Estimação. Embora controversos, diversos estudos sugerem que os moradores desses lares tendem a ser mais felizes do que as demais pessoas. Além disso, uma pesquisa coordenada por Erika Friedmann, da Escola de Enfermagem da Universidade de Maryland, em Baltimore, mostra que ter um bicho de estimação eleva as taxas de sobrevida em um ano entre vítimas de enfarte. Embora investigações como essa sejam de difícil interpretação (porque os donos de animais podem ter, eventualmente, menos fatores de risco cardíacos, se alimentem com dietas mais saudáveis e experimentem níveis mais baixos de hostilidade).
Esses trabalhos podem ser mais eficazes se os pesquisadores fizerem experiências em que selecionem ao acaso algumas pessoas para conviver com um animal – em laboratório ou em casa. Estudos feitos pelos psicólogos Karen Allen, da Universidade de Buffalo, e James Blascovich, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, demonstram que a proximidade de um bichinho querido durante uma tarefa estressante – como resolver exercícios difíceis de aritmética, por exemplo – evita que aqueles que executam a atividade tenham picos de pressão arterial. O mesmo, porém, não ocorre na presença de um amigo.
O levantamento feito por Allen mostra também que corretores estressados e hipertensos da bolsa de valores, escolhidos ao acaso para adotar um cachorro ou um gato, registraram índices de pressão arterial mais baixos do que os de voluntários do grupo de controle que não tinham animais. Os resultados sugerem que a presença de bichos pode reduzir os níveis de stress, embora não apontem quais as razões para esse efeito. As conclusões também não informam se seria possível obter resultados similares com outros estímulos, como a presença de amuletos da sorte ou de outro objeto no qual fosse investido afeto, como uma planta ou um boneco de pelúcia, por exemplo.
Poucas pessoas contestariam a afirmação de que os animais de estimação são capazes de nos dar conforto, em especial em épocas de dificuldade ou solidão. Uma questão muito mais controversa diz respeito à eficácia das terapias assistidas por animais (AATs, na sigla em inglês), usadas no tratamento em si ou como complemento para uma psicoterapia. A escolha inclui desde cavalos, cachorros, gatos, coelhos, pássaros, peixes e porquinhos-da-índia até os golfinhos. Os problemas psicológicos para os quais se usa a AAT incluem esquizofrenia, depressão, transtornos de ansiedade, transtornos de alimentação, transtorno de hiperatividade/déficit de atenção e autismo, além de uma série de deficiências do desenvolvimento.
Popularizadas pelo psicólogo Boris Levinson, da Universidade Yeshiva, na década de 60, as AATs parecem ser surpreendentemente comuns nos Estados Unidos: uma pesquisa de 1973 coordenada pela psicóloga Susan S. Rice, da Universidade Estadual de Oklahoma, revelou que 21% dos terapeutas da divisão de Psicoterapia da Associação Americana de Psicologia incorporavam de alguma forma animais em seu tratamento. Não se sabe, porém, se essa porcentagem se modificou em 35 anos.
LAZER OU TERAPIA?
Porém, ainda persiste a questão: as AATs funcionam? Para responder a essa pergunta, é preciso fazer a distinção entre dois usos diferentes dos animais: recreação e psicoterapia. Alguns contatos são puramente recreativos: o objetivo é permitir que as pessoas se divirtam. Não há muita discussão sobre o alcance dessa interação amigável, porque atividades como essas em geral tornam os participantes mais satisfeitos, pelo menos por algum tempo. Mas para comprovar que as terapias assistidas por animais funcionam, os pesquisadores precisam demonstrar que os bichos produzem efeitos duradouros sobre a saúde psicológica das pessoas, e não apenas mudanças de curto prazo no humor – como prazer, relaxamento ou entusiasmo.
Provavelmente a AAT sobre a qual mais se pesquisou até hoje é a terapia assistida por golfinhos (DAT, na sigla em inglês), utilizada com freqüência para crianças com autismo ou outras deficiências do desenvolvimento. A DAT é praticada regularmente em países como Estados Unidos (em especial na Flórida e no Havaí), no México, em Israel, na Rússia, no Japão e na China. Durante as sessões, as crianças interagem com um golfinho cativo enquanto executam tarefas manuais rudimentares, como colocar anéis em um gancho. Em muitos casos, golfinhos servem como “reforçadores” de comportamentos apropriados da criança. Muitos sites sobre as DATs publicam afirmações enfáticas sobre a eficácia do tratamento; um deles diz que “esse campo da medicina tem mostrado efeitos extraordinários da terapia e um grande progresso nos resultados, quando comparado aos tratamentos convencionais, incluindo medicamentos e terapia (ver www.dolphinassis
Ao examinarmos com a psicóloga Lori Marinho, da Universidade Emory, dados de pesquisa sobre a DAT em duas revisões, uma publicada em 1998 e a segunda em 2007, descobrimos que faltam evidências para a eficácia dessa prática. Em muitos casos, os pesquisadores mostraram apenas que crianças que fizeram esse tipo de terapia apresentavam melhoras em alguns indicadores psicológicos quando comparadas a outras que não tiveram a mesma experiência com os mamíferos aquáticos. Mesmo assim, os resultados não excluíam a possibilidade de que essas mudanças tivessem ocorrido pela simples passagem do tempo. Em outras situações, os pesquisadores não descartaram a possibilidade de que os avanços relatados fossem apenas efeitos de curto prazo sobre o humor – e não indicadores de mudanças duradouras sobre os sintomas. Por fim, nenhum estudioso excluiu de forma apropriada a possibilidade de se chegar ao mesmo efeito por meio do convívio regular com qualquer animal ou do uso de outro estímulo bastante agradável. A literatura sobre pesquisas a respeito de AATs não parece ser mais definitiva.
Por que deveríamos nos importar se as terapias com animais funcionam, se as crianças parecem se divertir com elas e os pais estão dispostos a pagar? Há ao menos três motivos. Primeiro, as AATs são capazes de produzir o que os economistas chamam de “custos de oportunidade” – o dinheiro, o tempo e o esforço são empregados em alternativas ineficazes. Ao fazerem essa escolha, pais e crianças podem ser privados da oportunidade de buscar tratamentos realmente eficazes.
Em segundo lugar, algumas AATs podem apresentar algum tipo de risco. Por exemplo, a lei não exige que os golfinhos sejam testados para doenças infecciosas. Além do mais, há alguns relatos de crianças feridas pelos animais. Em terceiro lugar, algumas AATs resultam em custos para os próprios animais. Por exemplo, transferir os golfinhos do mar para instalações particulares não apenas separa os animais de suas famílias, como pode provocar a morte de muitos deles.
Portanto, voltamos ao ponto inicial: são necessários mais estudos para a avaliação dos benefícios dos animais sobre a nossa saúde física e psicológica. Sem dúvida, muitos podem ser companhias estimadas e fornecer apoio social. Eles também são capazes de nos fazer sentir melhor em curto prazo, é incontestável. É possível que os bichos de estimação ajudem em especial pessoas com depressão ou crianças que foram muito negligenciadas – para quem solidão e ausência de apoio emocional são, em geral, problemas freqüentes. Ainda assim, é preciso ir mais a fundo nessa investigação. E uma outra questão é saber se os animais – incluindo os golfinhos – favorecem mudanças de longo prazo e alívio dos sintomas psicológicas de patologias como autismo, deficiências do desenvolvimento ou transtornos de ansiedade. Para essa questão, precisamos reservar o veredicto por vezes anunciado nos tribunais escoceses: “não comprovado”.
ACASO E DESCOBERTA
Os animais ganharam um espaço importante no tratamento de pacientes esquizofrênicos com o trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira (1906-1999). Contrária às técnicas agressivas de tratamento, a médica percebeu por acaso o potencial terapêutico dos animais. Era o início da década de 50 e ela observou as mudanças de comportamento de um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadelinha abandonada em hospital do Rio de Janeiro. A partir daí, desenvolveu uma pesquisa sobre as relações emocionais entre pacientes e animais, que costumava chamar de co-terapeutas. Nise descobriu que os bichos reúnem qualidades que os transformam em ponto de referência estável, a partir do qual o doente pode se organizar psiquicamente. Um exemplo disso é o caso de uma paciente que retomou a capacidade criativa como pianista por meio da relação com bichos.
PARA CONHECER MAIS
Afeto que cura. Sabine Althausen, em Mente & Cérebro 169, págs 48-55, fevereiro de 2007
Handbook on animal-assisted therapy: teoretical foundations and guidelines for practice. Segunda edição. Editado por A.H. Fine. Academic Press, 2006.
Scott O. lLlienfeld e Hal Arkowitz Scott é professor de psicologia da Universidade Emory; Hal é professor de psicologia da Universidade do Arizona. Ambos participam do conselho consultivo da Scientific American Mind, nos Estados Unidos.
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