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sexta-feira, 27 de abril de 2012
Psicanálise e instabilidade financeira
Psicanálise e instabilidade financeira
Estados mentais dominados pela excitação, que separam as chances de recompensa do risco potencial, impedem investidores de dizer 'não', ou 'basta'
Por David Tuckett
Desde agosto de 2007, os mercados financeiros mergulharam numa extraordinária, quase inimaginável sequência de acontecimentos. Eles culminaram no meio de outubro de 2008, depois de quedas acentuadas no valor das ações e das quotas de capital, em anúncios ao redor do mundo sobre uma recapitalização do sistema bancário. Para simplificar: os governos tiveram que assumir o controle do sistema financeiro antes que ele fosse à falência.
O que realmente provocou tais acontecimentos? Podemos fazer algo para evitar que aconteçam novamente? Uma maneira para responder isso seria desenvolver melhores teorias, baseadas numa visão interdisciplinar sobre os mercados financeiros, que incluam insights psicanalíticos.
Como o economista John Ray escreveu, quando se trata de entender os mercados financeiros é óbvio: não é sensato aceitar as teorias convencionais como literalmente verdadeiras.
O problema dessas teorias não se origina no fato de que os agentes econômicos cometem erros comportamentais, e nem que elas devam ser consideradas irracionais. Junto com outros pensadores, Freud e, mais tarde, os psicanalistas em geral, mostraram que virtualmente todo comportamento humano adquire um sentido razoável, depois que se compreende o ponto de vista do indivíduo em questão.
"No estado EP, investidores separam a avaliação do risco da expectativa de ganho e deixam de pensar de forma 'realista'"
Sensação de Incerteza
Aqueles que tomam decisões financeiras são bombardeados com informações, mas nunca têm dados suficientes para calcular as probabilidades subjetivas da forma onisciente adotada na Ciência Econômica. Aqueles que tomam as decisões nunca conseguem eliminar a sua própria sensação de incerteza. Fatores desconhecidos não podem ser matematicamente avaliados e, devido ao potencial que gera ansiedade, causam também impacto emocional. A maioria dos fatos relevantes que acontecem nos mercados envolvem suposições sobre um futuro incerto e potencialmente perigoso.
De forma semelhante, ignorar o fato de que o comportamento econômico está sempre situado institucionalmente, é ignorar sua importante influência sobre a motivação e o comportamento pessoal. Instituições financeiras, assim como outras instituições, estabelecem práticas normativas e atitudes convencionais. Em especial aqueles que trabalham dentro dessas instituições desenvolvem formas de pensamento coletivo.
Uma teoria interdisciplinar mais ampla sobre os mercados financeiros poderia levar em conta ambos os elementos. Num artigo sucinto no Financial Times de setembro de 2007 elaborado a partir de outro artigo, mais extenso, publicado no International Journal of Psychoanalysis, Richard Taffler e eu tentamos mostrar como a psicanálise, no que tange à compreensão do papel das emoções e das fantasias inconscientes no processo decisório, é especialmente indicada para explorar o comportamento humano no mercado financeiro.
Conceitos Psicanalíticos
Nós enfatizamos que a incerteza e, portanto, a ansiedade sustentaram todos os investimentos financeiros. E que nos parecia provável que, para fazer tal trabalho com sucesso a qualquer período de tempo, seria necessário conseguir lidar com as emoções - em particular com a excitação, a ansiedade, a incerteza e a perda.
A situação subjacente pode se tornar clara ao considerarmos a diferença na relação estabelecida na mente de um indivíduo ao comprar um bem durável de consumo, como por exemplo uma televisão, em vez de comprar ações.
Ao escolher comprar uma televisão, um consumidor "racional" pode consultar uma gama de informações quanto ao preço e à qualidade do produto e, sob tais bases, tomar sua decisão. Depois de levar a televisão para casa, ele pode então desfrutar dela. Depois disso os preços podem subir ou baixar, modelos mais sofisticados podem ser lançados. Tais acontecimentos podem provocar arrependimento nas semanas e meses subsequentes, mas a televisão estará lá para ser usada. Se o comprador ficar realmente muito chateado ele pode até vendê-la no mercado de usados, mesmo com algum prejuízo e comprar um modelo mais moderno.
A situação com ativos financeiros é diferente. As decisões financeiras começam e terminam numa relação de dependência, incerta e ambivalente, que se estende por meses. Com o tempo, esse ativo pode recompensar ou decepcionar, ou até mesmo não valer nada.
Uma maneira de mostrar como os conceitos psicanalíticos podem desempenhar papel importante em qualquer nova teoria mais integrada e completa dos mercados financeiros, é recorrer às ideias desenvolvidas pelos psicanalistas ingleses Melanie Klein e Wilfrid Bion. Eles descreveram dois estados da mente: a posição "depressiva" (D) e a posição "esquizoparanoide" (EP).
Espera-se que ideias de investimento que parecem boas excitem, enquanto as que parecem ruins, normalmente, criariam ansiedade - dando início a mecanismos de fuga biologicamente protetores.
O que é afinal?
Segundo o site Finanças Web, ativos financeiros podem tanto ter forma em dinheiro, como podem identificar a posse sobre algum direito. Por exemplo, ao se colocar dinheiro na poupança, o investidor recebe uma caderneta de poupança. A posse de uma caderneta de poupança identifica que o investidor possui direito sobre tal montante. Os ativos financeiros são classificados de acordo com sua liquidez. Liquidez é a capacidade deste ativo se transformar efetivamente em dinheiro. Os ativos mais líquidos são aqueles que mais rápido se transformam em dinheiro, aqueles dos quais o investidor pode dispor mais facilmente. O ativo mais líquido da economia é a moeda Estados da Mente
Num estado D os investidores podem reconhecer a imprevisibilidade inerente aos mercados, em que os investimentos têm tanto características atraentes quanto não atraentes, e os julgamentos são imperfeitos. Em outras palavras, uma visão realista. O risco de perdas é avaliado em contraposição com o risco de ganhos; portanto, a oportunidade é considerada levando-se em conta a possibilidade de perdas.
Entretanto, num estado EP, os investidores podem separar a sua consciência do risco da sua expectativa de ganho e, dessa forma, não pensarem de forma "realista". Em vez de dizerem 'não', eles podem dizer 'sim', mas sem perceberem totalmente a arriscada empreitada em que estão entrando. Excitados pelas oportunidades de recompensa, eles assumem riscos inconscientemente; percepções boas e ruins estão separadas.
Este processo pode permitir que tais indivíduos venham a integrar o grupo dos excitados, que corre riscos excessivos, sem perceber. Eles não apenas ignoram as prováveis consequências de suas decisões - também poderão culpar os outros, no caso de as coisas saírem mal, ao invés de aprender com seus erros. Um estado esquizoparanoide depende da criação de uma forma de cegueira psicológica contínua, caracterizado pela desconfiança e atividade nervosa constante.
Numa bolha financeira, as coisas acontecem como se o senso de realidade do mercado estivesse no estado EP.
Produtos novos, empolgantes e excitantes, poderiam ser denominados Objetos Fantásticos, que dominam as reportagens de capa da imprensa. Os investidores parecem se desconectar da ansiedade e perder o contato com o risco.
Algumas práticas predominantes de mercado podem exacerbar os perigos, por exemplo, complexas medidas de risco têm sido usadas nos mercados recentes. Elas se baseiam, necessariamente, em comportamentos de mercado do passado, e em incógnitas conhecidas. Mas essas práticas podem criar a impressão de que o futuro é previsível - que incógnitas desconhecidas são mensuráveis - e, dessa forma, permitir que as transações ocorram sem que os participantes se deem conta da extensão da incerteza.
De uma perspectiva psicanalítica, podemos diferenciar métodos de avaliação de riscos, levando em conta se eles são usados num estado D ou EP.
"Um estado esquizoparanoide implica na criação de uma forma de cegueira psicológica contínua"
Em estado esquizoparanoide, os investidores se sentem eufóricos com a oferta e não pesam os riscos do erro, e suas consequências. Além de correrem riscos por seu estado de excitação, eles tendem a colocar a culpa nos outros, caso a empreitada fracasse
Num estado D eles representam uma ajuda ao pensamento. Num estado EP esses métodos fornecem maneiras de evitar incertezas subjacentes, e as fazem sumir. Buscar informações e técnicas de avaliação de risco podem ser encaradas mais como um ritual, do que um guia para o pensamento.
As novas ideias (ações de empresas da Internet, derivativos de crédito) geram uma crença crescente de que algo fantástico está acontecendo. Isso leva à euforia e ao crescimento rápido. Emoções de excitação determinam a "realidade", e diz-se que um futuro completamente novo está surgindo. Antes de 2000, ações de empresas da Internet subiram 500% em dezoito meses.
Nos últimos anos, quase todo banco começou a mudar seu modelo de negócios sem se dar conta do risco que corria. Nesse estágio os participantes tinham descoberto o Santo Graal. Aqueles que duvidavam geralmente perdiam seus empregos.
Assim como no amor idealizado, primeiramente só as qualidades da nova ideia eram notadas, mas, no fim, notavam-se os defeitos e problemas, que eram iguais ao do antigo amor descartado. Objetos Fantásticos então tornam- -se persecutórios - provocam raiva e censura.
Há, geralmente, pouca culpa genuína, ou aprendizagem a partir da experiência. Normalmente, os investidores culpam os outros por terem permitido que eles fossem pegos em armadilhas.
Engenharia Financeira
A história da bolha de derivativos de crédito sugere que um Objeto Fantástico havia dominado o pensamento. Bancos e outros intermediários foram encorajados a concentrar-se em fornecer dividendos mais altos aos acionistas para o capital empregado e, portanto, destinar menos capital para empréstimos. O risco deveria ser diluído por complexa engenharia financeira.
Como muitas pessoas ansiam pelo novo sem medir as consequências das possibilidades de falhas, bancos quebraram, como o Lehman Brothers (foto), em uma época que culminou em uma das piores crises financeiras da América do Norte
Uma saída era emprestar aos tomadores de sub-prime, apoiados nas suposições de que os preços no mercado imobiliário subiriam indefinidamente. As incertezas eram expressas, mas rechaçadas, e o risco verdadeiro tornado invisível. Parece que um estado mental EP estava predominando, e a maior parte daqueles investidores compunha um grupo de Suposição Básica onde isso era aceito como verdade. Ao "espalhar" o risco, tais métodos podem até mesmo ter estimulado a irresponsabilidade entre aqueles que originaram o processo.
Os pânicos sistêmicos que ocorreram em intervalos regulares durante os últimos quinze meses são racionais, não irracionais. Eles provêm da conscientização largamente difundida (amplificada por diversos fatores técnicos) de que assumir riscos havia saído do controle. O próprio mercado era incapaz de conter a situação que se apresentava.
A falta de entendimento do papel vital das emoções na tomada de decisões, e as práticas características das instituições financeiras, contribuem para a dificuldade de conter a inflação emocional e o ato de correr riscos excessivos, particularmente, se eles forem de caráter inovador.
As instituições e os indivíduos não querem errar, e os reguladores se mostrarão cautelosos para com inovações exageradas. Uma nova teoria interdisciplinar sobre os mercados financeiros veria as instituições e os indivíduos lidando corriqueiramente com excitação, incerteza e ansiedade. A causa das crises financeiras poderia ser entendida como endógena. Não se esperariam soluções fáceis com maior regulação ou informações mais transparentes.
Ao contrário, talvez elas permitissem compreender como certos produtos financeiros geram estados mentais em que os investidores não querem dizer 'não' ou 'basta' - e como tais processos podem ser evitados.
David Tuckett é Membro do Conselho do Instituto de Psicanálise e Professor convidado da Unidade de Psicanálise da University College de Londres. Tem formação em Economia e Sociologia. Antigo Editor-chefe da International Journal of Psychoanalysis e Presidente da European Psychanalytic Federation. A partir de pesquisas próprias, desenvolveu a teoria psicanalítica dos mercados financeiros Tradução: Nilza Laiz Nascimento da Silva
REFERÊNCIAS
BAR-GILL, OREN. 2008. The Law, Economics and Psychology of Sub-Prime Contracts. Paper 47. Encontro Anual da American Law and Economics Association
GIGERENZER, GERD. 2007. Gut Feelings. London, Allen Lane and Penguin. GORTON, GARY B. 2008. The Subprime Panic. NBER Working paper 14398 KAY, JOHN. 2009. The Long and the Short of It. A Guide to Finance and Investment for Normally Intelligent People Who Aren't in the Industry. The Erasmus Press (no prelo)
KING, MERVYN. 2008. Palestra para o CBI, Institute of Directors, Leeds Chamber of Commerce and Yorkshire Forward na Royal Armouries, Leeds, TALEB, NICK. 2005. Fooled by Randomness. Revised edition. London.
Penguins Books
TAFFLER, R., and Tuckett, D. 2007. In the mood for instability. Financial Times. TUCKETT, D. and TAFFLER, R. 2008 Phantastic Objects and the Financial Market's Sense of Reality: A Psychoanalytic Contribution to the Understanding of Stock Market Instability. International Journal of Psychoanalysis 89, 2, :389-412
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