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sábado, 28 de abril de 2012

Um universo de possibilidades

Um universo de possibilidades Com o contato progressivo de nossa sociedade com os grupos indígenas, crescem as necessidades de atuação do psicólogo nas aldeias - por vezes, trabalhando com questões cuja responsabilidad1e é social Aldeia ianomâmi, município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Após milênios vivendo de maneira nômade, o povo indígena é obrigado a instalar-se definitivamente em uma área, que lhe foi destinada com a demarcação de terras feita pelo governo. Acostumados a explorar os recursos naturais de uma região até exauri-la para depois mudarem-se para outra e esperar pela recuperação da anterior, os ianomâmis foram duramente castigados pela transformação forçada em seu modo de vida. Os problemas de saúde da aldeia são inúmeros: alto índice de tuberculose, desnutrição infantil e avitaminose, malária, alcoolismo. O líder espiritual sente-se incapaz de lidar com tantos problemas novos. “Quem abriu as portas do inferno foram os brancos. Então essas doenças é o branco que tem que curar”, diz ele. A situação, descrita pela psicóloga Leila Tardivo, professora da USP que trabalhou por uma temporada com populações indígenas de São Gabriel da Cachoeira, ilustra a dificuldade dos índios em lidar com os problemas causados pelo contato com a sociedade não-indígena. Acometidas por doenças para as quais não têm defesas, essas sociedades tradicionais foram colocadas em uma posição de grande vulnerabilidade também no que diz respeito à saúde mental. Em aldeias do Brasil inteiro, são freqüentes os casos de alcoolismo, depressão e suicídio. Nesse contexto, o trabalho dos profissionais psi pode ser uma contribuição importante. PSIS NA ALDEIA psiquiatras têm estabelecido relações com grupos indígenas para a realização de pesquisas acadêmicas ou trabalhos terapêuticos diversos. É o caso de Marcos de Noronha, psiquiatra em Florianópolis e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural, que se envolveu com os índios Kaingangue, no fim dos anos 70, para observar a maneira como as mulheres encaravam e realizavam seus partos, procurando comparar também as formas como o médico e o pajé lidavam com o mesmo fenômeno. “Quando observei que o desenvolvimento da sociedade moderna não garantia uma melhor condução no nascimento, iniciei uma analogia de modo geral para toda a Medicina, e de forma específica para a Psiquiatria”, lembra ele. A professora Sônia Grubits, da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, trabalha desde os anos 80 com comunidades Bororo, Guarani, Terena e Kadiwéu. A aproximação realizada para efetuar suas pesquisas levou em conta as enormes diferenças culturais existentes entre ela e os grupos indígenas. “Eu penso que o psicólogo deve ter um longo convívio com as populações indígenas para poder entender suas relações afetivas, sociais, seu desenvolvimento intelectual e criar formas de atividades e mesmo intervenções, quando necessário, adaptadas a cada cultura”, afirma. Em São Paulo, a psicóloga e professora da Universidade Metodista, Tânia Bonfim, visita desde 2003 a aldeia guarani Krukutu, no bairro de Parelheiros. O contato do grupo de Tânia, do qual também faz parte a professora Leila, começou por solicitação das próprias lideranças da aldeia, motivada pelo crescente número de alcoólatras. “O alcoolismo é muito apontado, por eles, como um problema”, conta Tânia. Segundo a psicóloga, não é possível afirmar que o índice de alcoolismo seja maior do que o observado em nossa sociedade, mas se trata de um problema observável e com a sintomatologia tradicionalmente registrada. ÁLCOOL Os males trazidos à aldeia pelo vício em álcool também são os mesmos constatados na sociedade não-indígena, mas têm efeitos mais profundos, uma vez que a desagregação familiar gerada pelo alcoolismo acaba tendo impacto sobre toda a estrutura comunitária. “Eu acredito que o alcoolismo é hoje a principal doença que temos nas aldeias. É difícil de resolver, pois gera muitos dos outros problemas que acontecem”, aponta Olívio Jekupé, presidente da associação da aldeia Krukutu. Relações necessárias ◆ A psicóloga e professora Tânia Bonfim realiza suporte psicológico na aldeia Krukutu, no bairro de Parelheiros, em São Paulo. As visitas começaram a pedido dos líderes da aldeia, assustados com o aumento do consumo de álcool e os conseqüentes problemas acarretados por ele. Os métodos tradicionais de contenção dos problemas sociocomportamentais, que geralmente envolvem a figura do líder espiritual, muitas vezes mostram-se insuficientes quando a questão é a compulsão no uso de álcool. “A cachaça traz todo o problema porque a pessoa não sabe o que faz quando bebe. Quando dá problema dentro da aldeia, o cacique e as outras lideranças tomam uma providência. Fazem reunião para aconselhar e ver se as coisas acalmam. Porém, hoje, muitas pessoas acabam desrespeitando as orientações, pois as esquecem quando bebem”, lamenta Laurindo Veríssimo, pajé da aldeia Krukutu. Tradicionalmente, diversos povos indígenas fazem uso de bebidas fermentadas em seus rituais, tendo um contato com o álcool que data de antes da colonização. Essas bebidas, entretanto, costumavam ter um teor alcoólico muito fraco. “As bebidas levadas pelos não-indígenas, bem mais fortes, talvez tenham representado uma pequena diferença geradora de desequilíbrios. Com aquele tipo de substância eles não tinham experiência em lidaNa aldeia Krukutu, alguns casos mais graves de alcoolismo são tratados por psiquiatras da Universidade de São Paulo. A psicóloga Tânia dá o suporte psicológico necessário, integrando a equipe multidisciplinar – que inclui o pajé. “Procuro intermediar as visões diferentes envolvidas no quadro, tentando entender a estranheza que pode aparecer em ambas as partes. Muitos dos índios, por exemplo, sentem- se envergonhados por fazer tratamento”, explica. Para Olívio Jekupé, o intercâmbio com a Psicologia, nestes casos, é benéfico. “Às vezes, até temos soluções próprias na aldeia. Mas se tem uma ajuda de fora que pode ser boa, temos que aproveitar”, acredita. ASSOCIAÇÃO COM O XAMANISMO Quando a aproximação de psicólogos e psiquiatras tem caráter terapêutico, o trabalho conjunto com pajés e outros líderes espirituais é considerado de grande importância. “A atuação da Psiquiatria moderna e da Psicologia sem a amplitude antropológica lida com os sintomas tentando esfacelá-los e, portanto, despreza uma comunicação no ‘aqui e agora’ ou suas origens traumáticas”, define o Dr. Marcos de Noronha. Sem uma preocupação com as concepções de saúde e doença de um determinado grupo ou com suas próprias práticas rituais, corre-se o risco de desrespeitar todo um sistema de valores, o que não traz benefícios para a prática terapêutica. “Nos anos 40, houve vários equívocos com relação a isso. Determinado povo era classificado como neurótico. Nas críticas posteriores, viu-se que o povo havia sido vítima de perseguições e violências coloniais. É preciso que haja um desarmamento: eu não tenho o esquema pronto do desenvolvimento mental do homem em geral, tenho uma possibilidade de compreendê-lo em determinados contextos”, afirma Carmem Junqueira, antropóloga e professora da PUC-SP. Grupos indígenas lidam com seus sentimentos e perdas nos variados rituais desenvolvidos e propagados pelas gerações O intercâmbio entre os saberes ocidentais e os indígenas pode gerar frutos como a combinação das práticas terapêuticas. “Gosto de citar o exemplo de uma colega que, nos anos 60, em vez de simplesmente medicar os casos de epilepsia com fenobarbital, preferiu convencer os xamãs a associar a droga a seus ritos de cura”, narra Noronha. A médica conseguiu um tratamento efetivo e duradouro, sem desqualificar os recursos tradicionais daquele povo e sem interferir em sua visão de doença. A Etnopsiquiatria ou Psiquiatria cultural é uma vertente médica que procura estudar a psicopatologia levando em conta os aspectos socioculturais do indivíduo e os distúrbios de sua sociedade, considerando aspectos comportamentais de seus integrantes. “Não precisamos fumar e dançar em volta da fogueira para atuarmos como etnopsiquiatras”, diz Noronha. “As técnicas da Psicologia sistêmica e do Psicodrama se identificam, em alguns aspectos, com os recursos de que os terapeutas tradicionais – pajés, xamãs – se utilizam. Estudamos sem preconceito esses fenômenos e encontramos razões para sua eficácia. Com uma comunicação congruente à cultura do paciente, entendemos o significado dos seus sintomas”, completa. Uma das ferramentas utilizadas dentro da Etnopsiquiatria é a Terapia Social, em que todos os participantes – terapeutas, estudantes e pacientes – são fontes de saber. “Sessões públicas com participação da comunidade, que possibilitem que seus membros expressem suas preocupações ou falem até mesmo como acham que contribuíram para o mal de outra pessoa do grupo, fazem com que corramos menos riscos de impor teorias e interpretações totalmente incongruentes e desfavoráveis para o objetivo de recuperação”, aponta Noronha. Raízes ◆ Uma pesquisa entre jovens indígenas aculturados na região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, inpirou o livro O Adolescente e Sofrimento Emocional nos Dias de Hoje da professora e psicóloga Leila Tardivo. Com uma escuta às queixas e perspectivas desses jovens, adotou postura inteiramente coerente com suas crenças relativas ao respeito à alteridade e à vida, as quais norteiam seu trabalho clínico e permitiram realizar esta obra. O adolescente e sofrimento emocional nos dias de hoje Por Leila Tardivo Vetor Editora 172 páginas R$ 33,00 SAÚDE MENTAL Os males que diversos povos indígenas enfrentam hoje em dia, como alcoolismo, baixa auto-estima, depressão e suicídio, têm origem primordialmente no contato com a sociedade não-indígena – e nas mais variadas agressões sofridas. Os guarani-kaiowá, por exemplo, que moram na região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, viram uma série de suicídios entre seus jovens, nos anos 90. “Os kaiowá ficaram reduzidos a um pequeno pedaço de terra cercado por fazendas. Não conseguem manter o grupo unido, pois é uma população grande, e não há alimentação adequada. Os jovens têm realmente poucas perspectivas”, afirma Carmem. "UMA DAS FERRAMENTAS DA ETNOPSIQUIATRIA É A TERAPIA SOCIAL, EM QUE TODOS – TERAPEUTAS, ESTUDANTES E PACIENTES – SÃO FONTES DE SABER" r”, especula Tânia. O comércio desenfreado e mal-intencionado, ao longo das gerações, fez com que os índios tivessem acesso facilitado ao álcool.Em São Gabriel da Cachoeira, município em que cerca de 90% da população descendem de índios, a professora Leila Tardivo observou uma perda de identidade significativa. “Muitos jovens recusam qualquer contato com aspectos típicos de povos indígenas, mesmo sendo filhos de índios. Costumam se referir ao passado com a expressão: ‘Quando eu era índio’”, conta. A taxa de suicídios entre jovens, que é enorme, aparece ao lado da grande violência urbana, marcada pelas brigas entre gangues, uso de drogas e alcoolismo. “A situação de grande parte dos jovens da cidade é esta: um passado negado, um futuro sem perspectivas e um presente destruído”, lamenta a professora, que empreendeu uma série de atividades terapêuticas para atenuar o sofrimento psíquico dos adolescentes do município. De maneira mais tênue, a infl uência de aspectos triviais da sociedade capitalista pode ser causadora de frustrações. “À medida que a televisão chegou, populações que ainda não tinham os ingredientes necessários para fazer a crítica necessária receberamna como um retrato da realidade urbana”, indica Carmem. “Daí vem a aspiração, principalmente dos mais jovens, de surfar, de beber cerveja para ter aquelas mulheres lindas ao lado. Isso gera nos jovens um pouco de sofrimento no sentido que eles almejam algo que é tão distante,” completa. “MUITOS JOVENS RECUSAM QUALQUER CONTATO COM ASPECTOS TÍPICOS DE POVOS INDÍGENAS, MESMO SENDO FILHOS DE ÍNDIOS” MODO DE VIDA INDÍGENA Tradicionalmente, entretanto, as sociedades indígenas não apresentavam, acredita-se, uma incidência importante de psicopatologias. “A sociedade é menos tensa. Os sofrimentos, às vezes, são semelhantes. Mas o grupo dá conta deles de maneira distinta”, explica a professora Carmem. É possível observar, nas comunidades mais tradicionais – que sofreram menos infl uência da sociedade não-indígena – uma estrutura que trabalha bem com os possíveis sofrimentos. “Há uma rede de segurança que envolve a todos, quer pelo parentesco, quer pela relação face a face, quer pela ausência de grandes pressões sobre eles”, diz Carmem, que viveu por períodos extensos com os kamayurás e com os cintas-largas. Muitos pajés não sabendo lidar com problemas como o alcoolismo preferiram pedir auxílio aos profissionais da saúde mental O modelo diferenciado de vida já começa na infância. “A criança mama até querer largar. Faz cocô no chão até aprender por si só que tem que ir para o matinho”, relata Carmem. Na aldeia, a proteção é absoluta. “A criança tem o olhar dos pais, dos irmãos, dos tios, de todos. Se chora, todos a socorrem. Ninguém disciplina a criança para não chorar, para parar de mamar, para comer”, explica. No amor, os mecanismos são semelhantes. “O sexo é pouco reprimido e as famílias são formadas pelo desejo de ficar junto. Os casais são constituídos, mas todos têm namorados, o que é feito de maneira muito elegante”, descreve a professora. Segundo ela, da mesma forma que em nossa sociedade atual, muitas vezes os casais acabam se separando. As afl ições e sofrimentos também têm motivos parecidos com os nossos. “Entre os cintaslargas, há momentos de muito estresse quando se perde um filho pequeno. A pessoa quebra tudo o que tem, mata toda a criação. Se for filho único, então, é uma catástrofe”, conta. O processo de luto inclui ainda um período de isolamento. “Eles se embrenham no mato, ficam ali vários dias chorando, cortando os cabelos de uma forma irregular, transfigurando-se”, diz Carmem. Entre os kamayurá, a morte também traz uma dor muito grande, mas a família enlutada é socorrida pela comunidade por meio de um processo que às vezes leva um ano, com rituais. “O primeiro ritual tira as lágrimas. O segundo ritual tira a tristeza. O terceiro e último ritual tira o luto, encerrando com uma grande festa que é o kuarup”, revela Carmem. Com uma comunidade inteira participando de sua dor, a pessoa sente-se confortada e lida de maneira sadia com sua perda. “É muito diferente de ficar chorando em casa a morte de um familiar durante anos, como ocorre freqüentemente em nossa sociedade”, completa. O processo ainda é complementado por silêncio e dietas especiais a que o enlutado se submete. “É como se estivessem, de fato, internalizando a perda”, analisa Carmem. Os CRPs e os povos indígenas ◆ Desde 2004, o Sistema Conselhos de Psicologia do Brasil tem se empenhado na articulação dos profissionais que atuam com grupos indígenas, por meio de seminários, encontros e de um grupo eletrônico de discussão (para participar, mande e-mail para psicologia-indigenas@ yahoogrupos. com.br). “O desafio das sociedades indígenas é poder manter um contato com a sociedade nacional sem perder a integridade cultural e étnica. Esse desafio deve ser tratado também como premissa de trabalho dos psicólogos com as comunidades indígenas para embasar as práticas, as concepções e as propostas de trabalho com esses povos”, explica a psicóloga Lumena Teixeira, conselheira do CRP-SP. Acredita-se, entretanto, que haja um componente físico no surgimento dos distúrbios mentais. “Não podemos tomar como base nosso referencial, ao lidar com grupos indígenas. Entretanto, em alguma medida, certas questões são universais e deve haver um substrato fisiológico para as doenças”, afirma Tânia. Visitando o Parque Nacional do Xingu desde os anos 60, a professora Carmem Junqueira conheceu apenas um indivíduo kamayurá que tinha algum tipo de transtorno mental. “Era descendente de chefes, mas não pôde assumir por causa disso. Vivia correndo. Fazia pequenos serviços que geralmente não são masculinos, como pegar lenha, pegar água. Mas mesmo assim ninguém caçoava, ninguém ria. Sempre foi tratado com dignidade, não havia risinhos”, lembra. Em regiões de difícil acesso como o Xingu, por exemplo, os grupos indígenas ainda conseguem levar a vida a seu modo, de maneira relativamente protegida. “Eles conseguem dar conta, inclusive, de jovens que começam a beber”, conta Carmem. Entretanto, a tendência é que o contato com a sociedade nãoindígena aumente progressivamente. “É bom que haja mudanças, mas de maneira que eles sejam ativos. A tradição deles pode enriquecer o novo modelo, e quem sabe eles mesmos não nos infl uenciam a viver de maneira mais sadia?” Um homem e duas realidades O paraense Daniel Munduruku estabeleceu uma ponte entre a aldeia indígena e o mundo acadêmico. Formado em Filosofia e habilitado em História e Psicologia, faz doutorado em Educação na Universidade de São Paulo e é autor de sete livros. Para ele, a relação entre a Psicologia e os grupos indígenas está apenas começando. Psique – Conte um pouco sobre sua trajetória. Daniel Munduruku – Sou um munduruku nascido na cidade de Belém do Pará. Desde pequeno tive acesso à escola, mas ao mesmo tempo crescia aprendendo as coisas da aldeia, pois vivi ali até meus 15 anos de idade. Foi quando decidi, em harmonia com minha família, seguir o caminho da escolarização. Para isso, entrei no seminário salesiano decidido a ser sacerdote católico. Vivi ali por seis anos, até decidir que meu caminho era outro. Isso me deu a possibilidade de ingressar no mundo acadêmico, no qual estou até hoje. Psique – Você faz parte de um grupo indígena e é habilitado em Psicologia. Que tipo de riqueza surge do intercâmbio de uma sociedade indígena com esse saber? Munduruku – Nunca imaginei que faria um curso superior, qualquer que fosse. Venho de uma tradição que não tem a mínima preocupação em compreender a mente do outro, pois cada um já traz consigo o equilíbrio necessário para viver bem. Quando ingressei na Universidade, pude compreender melhor como o homem ocidental pensa a si mesmo. Isso foi interessante, porque me ajudou a compreender meu próprio povo e a perceber como a lógica que nos organiza segue um padrão racional, em que cada membro se sente participante de um todo, por cuja harmonia ele também é responsável. Psique – Sociedades indígenas que ainda têm seu modo de vida tradicional preservado – cada vez mais raras – apresentam sofrimentos psíquicos? Esses sofrimentos psíquicos são os mesmos que os observados entre os não-índios? Munduruku – Não é possível classifi- car a organização indígena a partir dos parâmetros psicológicos do Ocidente. Claro que há sofrimento, neuroses e atuaoutros sentimentos muito próximos aos que o homem ocidental vive. No entanto, eles são significados de maneiras diferentes, o que permite uma interpretação diferente desses dramas. No caso indígena, os rituais têm força suficiente para fazer voltar o equilíbrio psíquico da pessoa ou do grupo. Por isso são repetidos: para lembrar o pertencimento do indivíduo ao grupo, gerando equilíbrio físico e espiritual. Psique – As sociedades indígenas têm suas maneiras originais de solucionar os problemas possivelmente surgidos na saúde mental de seus indivíduos. Não seria, portanto, uma certa "intromissão" fazer um trabalho psicológico, acreditando que poderíamos ter algo com que contribuir para uma sociedade indígena? Munduruku – Realmente não acho que a Psicologia tenha algo com que contribuir se pensarmos na sociedade indígena como era antigamente. Hoje em dia, acredito que seja fundamental essa contribuição, porque a cabeça dos indígenas está bastante confusa. Isso decorre de uma série de motivos: - o contato com a sociedade envolvente fez com que estes povos passassem a ter uma relação muito confusa, gerando elementos que antes não faziam parte do seu universo. Elementos como dinheiro, divisão em classes sociais, excesso de bebida alcoólica, desmantelamento familiar, escola, desvios de comportamento sexual; - as divindades foram destruídas; - falta de esperança com relação à terra e manutenção dos mitos tradicionais. Assim, acredito que há um papel reservado para a Psicologia. Inclusive tenho incentivado jovens indígenas – principais vítimas desse novo cenário – a fazerem o curso de Psicologia, para que entendam este processo por que passam. Psique – O contato com a sociedade não-indígena trouxe uma infinidade de males a índios de todo o Brasil, acarretando diversos tipos de sofrimento psíquico, como alcoolismo, depressão, baixa auto-estima e suicídio. A mesma sociedade moderna que provocou tantos males aos índios pode contribuir, ao menos parcialmente, para a solução deles por meio da Psicologia? Munduruku – Certamente é algo que ainda precisa ser estudado, claro. Talvez o problema maior seja que a sociedade brasileira, branca, sem querer, destruiu muito mais do que a cultura indígena. Ela roubou nossa alma, nossos jeitos tradicionais, nossas crenças. No lugar ela deixou uma cruz para nossos povos carregarem. Esta cruz, o cristianismo, está fixada no coração do próprio homem ocidental e ele não sabe como se livrar dela porque tem medo do castigo divino que pode advir, mesmo sabendo que tal castigo não existirá jamais. Não sei como a Psicologia pode resolver esta psicopatia ocidental. A Psicologia tem seguido muito do que lhe é ditado pela doença social que grassa na sociedade. É preciso que ela caminhe em outra direção, pois assim poderá ser útil aos povos indígenas. Ela precisará compreender nossos povos e para isso deve redirecionar o olhar. Ela não poderá tratar nossos indígenas acreditando que a forma correta de estar no mundo é a ocidental – que é para onde ela direciona a cura. Ajustar alguém de padrão cultural diferente requer a compreensão do outro em todas as suas dimensões humanas. No atual contexto, ela só é útil aos ocidentais. Psique – Como você analisa a relação da Psicologia com os povos indígenas brasileiros? Munduruku – Não acho que a Psicologia tenha entendido os povos indígenas. Não me ocorre nenhum estudo que tenha sido realizado na busca da compreensão de nossa gente. E isso é fundamental para que haja uma aproximação real entre estas sociedades. É preciso compreender que nossos povos vivem uma experiência única em direção à realização pessoal do indivíduo. Há uma organização que permite a ele ser inteiro, sem falsas especulações em torno da existência. Como isso funciona? Talvez seja esse o ponto de partida para que comecem a haver relações reais entre essas diferentes maneiras de ver o mundo. Psique – É possível e desejável associar práticas tradicionais xamânicas à Psicologia? Munduruku – Possível, é. Desejável? Não sei. Certamente, o universo indígena está baseado num jogo de interesses que passa pela compreensão do ser humano em todos os seus aspectos. A prática do xamanismo faz parte do jogo. Existe, portanto, uma carga psicológica muito forte para a realização desse jogo. Por isso, não basta que a Psicologia entenda o processo do xamanismo, mas tem que entender como as peças estão distribuídas no tabuleiro. Não adianta participar de sessões xamanísticas e achar que já se pode entender a mente indígena. É algo muito mais complexo e dinâmico. Acho que bons psicólogos não devem “brincar” com a seriedade desse jogo. Psique – Como pode e deve ser a prática clínica de um psicólogo junto a povos indígenas? Munduruku – Costumo brincar, às vezes, que se o psicólogo dependesse dos indígenas para viver estaria na miséria ou louco. Acredito piamente que o psicólogo deva virar paciente antes de querer “curar” um indígena. A “loucura” indígena é mais sadia do que se imagina e pode fazer muito bem às pessoas que olham a vida sob um ângulo apenas. Sugiro que nenhum psicólogo entre nisso sem antes experimentar essa realidade. Psique – Uma saída possível é a formação de mais indígenas para o atendimento psicológico clínico em aldeias? Munduruku – Certamente. Tenho aconselhado muitos jovens a entrar pelos caminhos da Psicologia. É muito importante entender como o cérebro funciona para reconhecer os traços psicológicos de uma sociedade. Acredito que uma resposta criativa por parte dos indígenas só vai ser possível quando for capaz de compreender como pensam os homens e as mulheres de seu povo. Psique – Com que as sociedades indígenas, em geral, podem contribuir, com relação ao seu modo de vida, para a sociedade ocidental? Munduruku – Como já é do conhecimento de todo mundo, a sociedade ocidental precisa muito mais dos indígenas do que estes do Ocidente. É mais fácil viver com pouco, com a carência, com a ausência, do que deixar a fartura e viver na pobreza. É capaz que isso aconteça muito em breve, já que os recursos naturais estão se esgotando e as catástrofes estão se avolumando mundo afora. O homem ocidental precisa olhar para nossa gente e aprender como viver assim. No final, só os simples – e os equilibrados – estarão acordados para ver o último pôr do sol.

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