ORIENTAÇÃO E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO ON LINE





- Contato

E-mail: valderezgonsalez@gmail.com

Seguir @valderezgonsale

















































































































domingo, 15 de abril de 2012

Violência e Agressão da Criança e do Adolescente

Violência e Agressão da Criança e do Adolescente É considerada criança a pessoa com idade entre zero e doze anos e adolescência entre doze e dezoito; fases onde casos de violência são muito comuns. A legislação brasileira considera como criança a pessoa com idade entre zero e doze anos, e passíveis apenas da aplicação de medidas protetoras quando cometem infração (delinqüência) ou se encontram em situação de risco, de acordo com o art. 101 da Lei n. 8069/90, que é o Estatuto da Criança e do Adolescente. A adolescência, por sua vez, se considera para pessoas entre os doze e os dezoito anos, encontrando-se as mesmas sujeitas à aplicação das mesmas medidas protetoras e à aplicação de medidas sócio-educativas (art. 112 do mesmo Estatuto da Criança e do Adolescente). Concomitantemente, a legislação imputa aos pais as medidas previstas no art. 129 do Estatuto da Criança e do Adolescente, em caráter administrativo, possibilitando ainda a aplicação de multa por infração ao art. 249 da mesma lei. Tais medidas citadas decorrem da filosofia de proteção integral ao menor. A pergunta que emocionalmente e moralmente fazemos é a seguinte: menor de que ou de quem? - Menor de altura, de idade, de maturidade... menor que a vítima, menor que a vontade política, que a capacidade da justiça... enfim, menor de que? Pretensamente as medidas de proteção ao menor almejam um caráter eminentemente desenvolvimentista e formador da cidadania, enquanto as medidas sócio-educativas prendem-se ao caráter punitivo ou recuperador, bem como administrativo/punitivo. A agressividade é sempre um tema da atualidade, especialmente a agressividade juvenil, atualmente relacionada às ações das gangues, dos franco-atiradores de escolas, dos queimadores de mendigos, dos homicidas de grupos étnicos, ou simplesmente dos agressivos intrafamiliares. Não devemos acreditar que a violência infanto-juvenil restringe-se aos internos da FEBEM ou às classes menos favorecidas da sociedade, conforme bem alerta Paulo Ceccarelli. Existe uma população de delinqüentes em outras classes sociais mais protegidas, seja pelos muros dos condomínios de luxo, seja por estatutos sociais não-escritos que zelam da "boa tradição familiar", enfim, existe uma população de delinqüentes que raramente é punida e cujos atos nunca chegam aos nossos ouvidos. Os adolescentes e jovens que se destacam pela hostilidade exagerada, podem ter um histórico de condutas agressivas que remonta a idades muito mais precoces, como no período pré-escolar, por exemplo, quando os avós, pais e amigos achavam que era apenas um "excesso de energia" ou uma travessura própria da infância. A conduta agressiva entre os pré-escolares e escolares é influenciada por fatores individuais, familiares e ambientais. Entre os fatores individuais encontramos a questão do temperamento e do caráter, do sexo, da condição biológica e da condição cognitiva. A família influi através do vínculo, do contexto inter-relacional (interações entre seus membros), da eventual psicopatologia e/ou desajuste dos pais e do modelo educacional doméstico. A televisão, os videogames, a escola e a situação sócio-econômica podem ser os elementos ambientais também relacionados à conduta agressiva. Embora esses três fatores (individuais, familiares e ambientais) sejam inegavelmente influentes, eles não atingem por igual todas as pessoas e nem submete todos à mesma situação de risco. O que se sabe, estatisticamente, é que a agressividade manifestada em idade pré-escolar, infelizmente evolui de forma negativa. Por isso necessitamos estudar e esclarecer os limites entre as travessuras da infância e os Transtornos de Conduta, o tão propalado excesso de energia de um Transtorno Hipercinético, a responsabilidade tão meritosa, comum na criança "tipo adulto", da Depressão Infantil. Precisamos estudar e esclarecer os limites entre a "personalidade forte" da criança, relatada pelo pai ou avós com certa ponta de orgulho, das condutas completamente desadaptadas da infância e com enorme possibilidade de evoluir para um quadro mais grave. A agressividade, por si só, não pode ser considerada um transtorno psiquiátrico específico, ela é, antes disso, sintoma que reflete uma conduta desadaptada. Como sintoma ela pode fazer parte de certos transtornos. Podemos dizer até que a conduta agressiva costuma ser normal em certos períodos do desenvolvimento infantil, está vinculada ao crescimento e cumpre uma função adaptativa. Essa agressividade normal e fisiológica também é chamada de agressividade manipuladora. Para definir a criança agressiva, ou melhor, para conceituarmos a criança agressiva, temos que compreender o conceito de Reação Vivencial. Dentro desse conceito, criança agressiva seria aquela que apresenta Reações Vivenciais hostis, recorrentes e desproporcionais aos estímulos, para a resolução de conflitos ou consecução de objetivos. Esse conceito de Reação Vivencial (não normal) ressalta o aspecto da freqüência excessiva, da desproporção e da dificuldade adaptativa. De qualquer forma, hoje se acredita que a agressividade já pode aparecer em idades pré-escolares e, quando se manifesta, tende a continuar. Além disso, quando a agressividade é combinada com outras condutas problemáticas e desadaptadas a evolução será muito pior. Quando a conduta agressiva está combinada, por exemplo, com a Hiperatividade Infantil, ela apresenta um quadro mais grave, com mais problemas de interação e pior prognóstico. As crianças agressivas e hiperativas são mais problemáticas que as crianças só agressivas ou só hiperativas, e mais problemáticas que as crianças do grupo controle (Sansom, Smart, Prior e Oberklaide, 1993). Outra observação relevante é sobre a agressividade associada a alguns traços básicos da personalidade. As crianças agressivas e simultaneamente retraídas, por exemplo, têm pior adaptação que as crianças só agressivas ou só retraídas. Dessa forma, somos inclinados a pensar que a combinação de várias condutas desadaptadas aumentaria a vulnerabilidade para problemas mais sérios de agressividade. Em psiquiatria, o mau funcionamento adaptativo se considera sempre como um valioso índice de mau prognóstico. As crianças caracterizadas por hiperatividade, impulsividade e desatenção, juntamente com agressividade e que, além disso, têm uma maior disfunção adaptativa, têm maior probabilidade de serem diagnosticadas portadoras de Transtorno de Conduta e de Depressão Maior (Sheltom, Barkley, Crosswait, 1998). Fatores Implicados na Agressão e Violência da Criança Os fatores implicados na gênese da Agressão e Violência devem ser considerados sob dois aspectos: 1. - A pessoa 2. - O meio 1. A Pessoa Os aspectos próprios da pessoa da criança são, basicamente, o temperamento e o caráter, assim como diferenças de sexo e as condições neurológico-cognitivas. Temperamento Tradicionalmente se observa que as crianças agressivas costumam ter algum traço difícil na personalidade. Tal observação tem se traduzido, popularmente, por termos como personalidade forte, genioso, temperamental ou coisas assim. Esses adjetivos podem dissimular (demagogicamente) a opinião dos pais e dos avós sobre essas crianças, tentando minimizar alguma coisa que eles vêem (intimamente) como eventualmente problemática. Considerando tipos de temperamento tais como, ativo, variável e tímido, vamos observar que os temperamentos ativo e variável se correlacionam mais positivamente com agressividade em meninas. Em meninos as correlações hostilidade-temperamento são mais significativas entre aqueles do tipo ativo (Hinde, Tamplim e Barrett, 1993). Certos aspectos de dificuldade no controle emocional, assim como algumas outras características temperamentais observadas ainda em bebês, são bons indicadores de conduta agressiva em idade pré-escolar e aos 8 anos. As pessoas que trabalham em berçários de hospitais podem testemunhar as diferenças entre os bebês. Tem aqueles que choram mais, gritam, resmungam, dormem mais, ficam quietos, agitados, etc. Essas diferenças falam a favor de força do temperamento e da constituição na maneira do ser se relacionar com o mundo. O temperamento, responsável pela maneira como a pessoa se relaciona com a realidade, pode ser entendido como uma espécie de moderador das relações interpessoais das crianças com seus cuidadores. Através desse conceito, as crianças com um temperamento mais ativo, intenso, irritável, têm maior probabilidade de reagir de forma inapropriada ou exagerada diante de pequenas dificuldades. Essas crianças, devido a sua conduta explosiva, tendem a criar estresse na relação com a mãe, e isso poderia fazer com que essas mães sejam propensas a dificultar o contato com esses filhos, normalmente considerados "difíceis", e propensas a considerar a conduta dessas crianças como problemáticas. Essa dinâmica implicaria uma interação mãe-filho deficiente, a qual poderia ser o início do desenvolvimento de condutas agressivas (Pattersom, Dishiom e Reide, 1992). Condição neurobiológica Algumas pesquisas procuram relacionar a atividade da enzima MonoAminoOxidase (MAO) plaquetária diminuída com uma baixa capacidade de controle dos impulsos. Níveis baixos do neurotransmissor serotonina também foram relacionados a alguns comportamentos complicados, como por exemplo, o suicida, piromaníaco, agressivo e cruel. Na área dos transtornos explosivos e agressivos, recentes investigações sugerem que o aumento de serotonina pode moderar brilhantemente o caráter impulsivo e irritável nas pessoas agressivas. Por outro lado, enquanto pode haver déficit de serotonina nas pessoas agressivas, outros neurotransmissores, como a dopamina e a noradrenalina, podem estar aumentados. Portanto, há tempos já se sabe que o Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade se associa com disfunção da dopamina nos circuitos frontal-estriados e anomalias no sistema da serotonina se associam com a conduta agressiva. As estruturas límbicas e os lobos frontal e temporal são os centros onde se situam as áreas relacionadas à expressão da agressividade. Comparando-se a ativação lobo frontal do hemisfério direito com o lobo frontal do hemisfério esquerdo, descobre-se que em meninas de 4 e 8 anos com Transtorno de Oposição na Infância há uma maior atividade frontal direita, mas os meninos, também com Transtorno de Oposição na Infância, não mostraram esta assimetria. Também não apresentam assimetria e nem predomina a atividade frontal esquerda as meninas sadias. Os meninos sadios, por sua vez, têm uma maior atividade frontal direita (avaliados com Spect – Ressonância Magnética com emissão de positrons). Alguns autores (DeLacoste, Horvath e Woodwarde, 1991) sugerem que a testosterona no útero promove o crescimento do hemisfério direito em meninos, e que o estresse pré-natal materno poderia interferir neste padrão fazendo que se desenvolva mais o hemisfério esquerdo que o direito em homens, favorecendo condutas agressivas (temperamento). Mas nem por causa dessas observações as assimetrias no córtex frontal implicam direta e obrigatoriamente numa categoria diagnóstica, elas apenas podem refletir um estilo afetivo característico e uma vulnerabilidade para alguns transtornos emocionais (Baving, Laucht e Schmidt, 2000). Outra novidade nessa área de pesquisa é a relação dos Movimentos Gerais do bebê e a disposição para desenvolver algum transtorno neurológico, do tipo Transtorno de Atenção com Hiperatividade ou alguma outra conduta agressiva (Hadder-Algra e Groothuis, 1999). No período que vai da concepção até 3 a 4 meses de vida, o bebê realiza Movimentos Gerais característicos que se dividem em três fases: "preterm", "writhing" e "fidgety". Tem-se visto que uma fase "fidgety" (inquietação, intranqüilidade) medianamente anormal, no sentido da falta de fluidez nos movimentos, é preditiva de problemas de conduta em idade escolar. Experimentos realizados com animais sugerem que uma ligeira anormalidade da fase "fidgety" se associa com uma disfunção no sistema monoaminérgico, o qual explicaria sua relação com problemas de atenção. Estas disfunções monoaminérgicas poderiam ser conseqüentes a pequenas hipóxias (falta de oxigênio) precoces, incluindo no momento do parto. As implicações clínicas dessas investigações são muito interessantes: um menino com uma fase "fidgety" meio anormal, por exemplo, estaria predisposto a desenvolver um transtorno neurológico menor, um Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade e agressividade, sempre e quando haja condições ambientais adversas suficientes. Condição cognitiva As crianças com problemas de conduta podem ter dificuldades na leitura e déficits nas habilidades verbais. Moffitt (1993) encontrou um Quociente Intelectual 8 pontos abaixo da média em meninos com problemas anti-sociais (de conduta). Esses atrasos no desenvolvimento mental puderam ser relacionados com vínculo desorganizado na idade de 18 meses e com a falta de cuidados da mãe (Lyons-Ruth, Alperm e Repacholi, 1993). Tem-se observado que a consciência relacionada às representações mentais da memória e das experiências passadas, podem ter implicações no controle (ou descontrole) da conduta agressiva. Uma criança que rememora eventos hostis, por exemplo, tenderia a reagir de maneira mais hostil, interpretar situações ambíguas ou neutras como se fossem ameaçantes e, por causa disso, responder de forma agressiva (Salzer, Lairde e Dodge, 1999). Diferenças de sexo Tem-se dito sempre que os meninos são mais agressivos que as meninas, que há mais casos de meninos agressivos que de meninas. Ultimamente, entretanto, essas diferenças estão diminuindo, provavelmente devido às mudanças sócio-culturais. As eventuais diferenças de conduta entre os sexos emergem na idade escolar com o processo de socialização da criança. Os meninos, quem sabe por uma questão de maior imaturidade psicoemocional fisiológica, estão menos preparados psicologicamente que as meninas para a socialização, vida em grupo, participação cooperativa e, por isso, costumam ter mais problemas de adaptação e de orientação. A hipótese que alega essa diferença de maturidade psicoemocional se estrutura na observação de defasagem dos meninos em relação às meninas da mesma idade na linguagem e nas habilidades motoras. Alguns autores afirmam que as meninas tendem a desenvolver condutas cooperativas mais precocemente, modelo que logo se aplica à situação escolar. Também se sugere que os meninos possam desenvolver, ao invés de condutas cooperativas, condutas competitivas. E isso favoreceria um modelo mais agressivo de comportamento (Prior, Smart, Sansom e Oberklaide, 1993). Alguns trabalhos procuram mostrar, também, que mães pouco afetivas podem constituir uma situação de risco e predispor meninos e meninas ao desenvolvimento de condutas agressivas. Entretanto, não se sabe ainda ao certo porque, mantendo-se esta situação de risco durante 3 a 4 anos, os meninos aumentavam ou mantinham a agressividade e as meninas a diminuíam. De qualquer forma, parece que a hostilidade materna é preditiva de violência e conduta agressiva para ambos os sexos. Outros fatores de riscos parentais para o desenvolvimento de conduta agressiva precoce seriam, por exemplo, a ocorrência de depressão materna antes do parto, a psicopatologia materna, família com um só dos pais presentes, estressores familiares, baixo nível econômico e conflito matrimonial. 2. O Meio Existem muitos estudos com menores infratores na Europa e nos Estados Unidos indicando que a principal causa do comportamento delinqüente estaria relacionada às condições socioeconômicas das famílias. É, sem dúvida, uma visão bastante acanhada do problema e a palavra "principal" pode nos cegar para outros aspectos; trata-se de um problema do ser humano e, ao se privilegiar quase exclusivamente as condições socioeconômicas, estaríamos tirando do cenário exatamente o principal personagem, o próprio ser humano, mais precisamente, a personalidade do ser humano delinqüente. Dentro dos enfoques sócio-políticos da delinqüência, a psicóloga Maria Delfina elaborou um trabalho com jovens de Santos e São Paulo, mostrando alguns fatores de risco que podem levar o jovem à delinqüência. Para ela os principais fatores de risco para o comportamento dos infratores estão nas interações com a família e com os ambientes sociais mais próximos, como a escola, por exemplo. Refere Maria Delfina, que merecem ser destacadas as discórdias conjugais, a existência de psicopatologia (doenças mentais) na família e a rejeição pelos pares (colegas de escola). Para Maria Delfina, a influência da renda familiar no comportamento dos menores tem um papel menos determinante. A psicóloga analisou 40 menores entre 12 e 18 anos das cidades de Santos e de São Paulo. Contrariando a tese de a delinqüência ser proporcional à pobreza, entre os infratores entrevistados pela psicóloga, 4 estavam situados na faixa de 2 salários mínimos; três tinham renda de 3 a 6 salários e três se concentravam na faixa de 11 a 13 salários. Contrariando a tendência em achar que os mais pobres são mais delinqüentes, a pesquisa mostrou que no grupo dos menores não-infratores, o rendimento familiar mais alto foi de 20 salários, enquanto que, entre os infratores, o maior rendimento familiar foi de 40 salários. Outro fator de risco para a criminalidade, aparentemente mais importante, foi a escolaridade, segundo Maria Delfina. No grupo de infratores, entre os que tinham idade para concluir o ensino fundamental, 15 não o fizeram. Uma pesquisa anterior, de 1997, realizada com 4.245 menores infratores, mostrou que 96,6% não haviam concluído o ensino fundamental. Destes, 15,4% eram analfabetos. É importante salientar que a literatura mostra porcentagens entre 10% e 20% de jovens delinqüentes que apresentam algum tipo de problema psicológico passível de intervenção clínica. Visões mais psicodinâmicas do problema, como faz Paulo Ceccarelli, consideram a delinqüência infanto-juvenil relacionada ao aumento do sentimento de desamparo, típico da nossa modernidade cultural, onde a descrença generalizada nos valores tradicionais, como a família, igreja, escola, etc, leva a uma intensa busca do prazer pessoal e do individualismo, em detrimento dos ideais coletivos. Nesse cenário cultural o sistema de produção, o modelo de prestígio pessoal e dos ideais de consumo substitui ou elimina de vez qualquer ideal pessoal que não se enquadre nesta referência. Uma outra origem para esta patologia social seria a imposição de padrões de valores éticos duvidosos e da busca incondicional de sucesso a que nossos jovens estão submetidos. Com tudo isso, os valores culturais de felicidade são então transformados em ideais a qualquer preço. Os pais como modelos e como educadores (ou não) Os elementos contemporâneos cogitados no estudo do aumento da violência e agressividade dos adolescentes passa também pelo declínio do papel do pai (e da mãe), subtraído que foi por vários elementos da atualidade. Primeiro vem a dissolução das famílias. Na falência da função paterna (ou materna), a busca pelo prazer consumista desembesta a rédeas soltas para grande número de jovens. Em segundo lugar vem a tirania da liberdade incondicional, exigência que se dá sob o falso rótulo do progressismo e do politicamente correto. Liberdade é um termo que deveria ser usado no plural, liberdades. Liberdade para isso, para aquilo... e não para tudo, como exigem os adolescentes. A liberdade incondicional interessa fortemente para aqueles que sobrevivem, e muito bem, do afã juvenil em ir, comprar, beber, beber, comprar e ir. E esses mercenários da juventude não são, exatamente, donos de escolas, são empresários da noite, traficantes, os propagandistas de drogas e costumes... Em terceiro, vem a propaganda do orgasmo proporcionado pelo prazer como um fim em si mesmo, prazer do consumo, do poder, do não-perder-um-minuto, do fazer porque "todos fazem"... Convencem os jovens, por má fé, que em não se tendo..., não se é feliz. A transformação de pessoas reconhecidamente contraventoras em espécies de ídolos e de modelos de vir-a-ser, cujas atitudes criminosas são públicas e impunes, é um dos mais fortes estímulos à delinqüência. Em quarto, de acordo com palavras de Paulo Ceccarelli, se seguirmos as mudanças no Código Civil referentes ao Direito Paterno veremos que, desde o Direito Romano até hoje, houve um enfraquecimento do poder do pai sobre o filho. Tais mudanças foram mais dramáticas no final do Século XIX e início do XX, com as novas leis de mercado. Cada vez mais, em nome do "interesse da criança", instituições sociais passaram a substituir o pai. Cada vez que o "bem-estar da criança" está supostamente em jogo, o pai pode ter seu poder familiar limitado ou anulado. Mas, não devemos tomar sempre por falência da função e da autoridade paterna a omissão voluntária ou por descaso por parte dos pais. Não é isso. É antes, a perda da batalha travada com um exército muito mais numeroso. Do exército "dos inimigos" participam boa parte da mídia, que mostra a glória do sucesso, da fama e do consumo, mas não mostra os meios lícitos de se atingir essas metas, boa parte da propaganda, que convence ser obrigatórias muitas coisas, hábitos e atitudes que são, de fato, facultativas e, não finalmente, boa parte dos ditadores da moda e dos costumes, a quem interessa que as coisas tenham o rumo que estão tomando. Também a falta de habilidades sociais e os traços anti-sociais dos pais são considerados importantes fatores de risco familiar (Pattersom e Bank, 1989). Os traços anti-sociais maternos são os principais contribuintes para o desenvolvimento de interações coercitivas as quais, em ambientes familiares, excluem e dificultam a utilização de técnicas positivas de motivação e guia na educação dos filhos. Pais com traços anti-sociais da personalidade, além de não transmitirem uma imagem meritosa aos filhos, podem ter dificuldades para dar mostras de aprovação e incentivo para as boas atitudes de seus filhos, não respeitam sua autonomia e espaço social, além de disciplinarem inadequadamente, com excesso de permissividade quando devem ser mais fortes e exageradamente agressivos quando não precisam. E as mães? Algumas mães talvez sejam as principais artífices da falta de dever, responsabilidade e limites de seus filhos. Atitudes superprotetoras, tão ou mais graves que seu oposto, a negligência materna, acabam resultando em pessoas sem nenhuma tolerância à frustração. Pessoas sem tolerância à frustração costumam tomar a força o que querem ou, quando não conseguem, costumam encher as filas dos histéricos nos ambulatórios de psiquiatria. E a sociedade parece desculpar prontamente essas mães, afinal, como dizem, mãe é mãe... Talvez as mães confundam o papel materno com a permissividade extrema em busca da simpatia de seus filhos. Outras vezes pretendem, com essa absoluta falta de limites para seus filhos, serem tidas por moderninhas e joviais. A grande maioria das mocinhas adolescentes grávidas contam prontamente para suas mães seu estado de gestante, normalmente porque têm certeza que serão prontamente compreendidas, perdoadas e aceitas. Como se constata, essa atitude benevolente serve muito bem para uma segunda e terceira gestações indesejadas. Algumas crianças envolvidas em situações agressivas não aprenderam as habilidades sociais necessárias e desejáveis para relacionar-se com os demais, não são disciplinados para a consecução de objetivos e não aceitam críticas. Isso muitas vezes reflete um modelo de conduta aprendido no ambiente doméstico. Com freqüência as mães dessas crianças agressivas tendem a atribuir mais hostilidade às condutas de seus filhos, qualificando negativamente traços de suas personalidades e ressaltando sempre a má conduta da criança. Em vários estudos aparece uma correlação entre a agressividade infantil e a tendência das mães a realizar atribuições hostis à conduta desses filhos. (Dix e Lochmam, 1990). Não é raro que a mãe constantemente estabeleça comparações desvantajosas e depreciativas entre as condutas agressivas dessas crianças problemáticas com outras crianças e, às vezes, com seus próprios irmãos. Psicopatologia familiar Tem-se relacionado tanto a hostilidade materna como a sintomatologia depressiva da mãe com condutas agressivas em escolares. A depressão materna prediz problemas comportamentais em pré-escolares e multiplica por seis o risco de transtorno de conduta agressiva na criança. Estes sintomas depressivos da mãe podem estar presentes nas primeiras etapas da vida da criança e condicionar o estabelecimento de um vínculo inseguro ou desorganizado (Jané, Araneda, Valero e Domènech, 1999). Outros transtornos dos pais relacionados à agressividade infantil seriam Transtorno de Personalidade Anti-social, Depressão Maior e Abuso de Sustâncias. Essas disfunções são muito mais comuns entre os pais de crianças com Transtorno de Conduta ou com Transtorno de Conduta combinado com Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade, do que entre crianças que só apresentam Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade (Biedermam, Munir e Knee, 1987). Dinâmica Familiar de Risco Vê-se, através do panorama cultural atual, que a patologia social de descaminho da juventude e adolescência pode propiciar uma falta patológica de limites, um excesso estéril de satisfação e uma busca desenfreada de um não-sei-o-que desde que seja para agora. Incentiva-se o jovem para "chegue lá" a qualquer custo, embora não se saiba exatamente onde é esse lá. Vivemos também a época da inflação do ego do adolescente. Os filhos vivem a crença de ser o objeto exclusivo de amor incondicional dos pais. Nada se cobra deles, bastando sua existência para serem incondicionalmente amados e jamais reprimidos, em nome do psicologicamente correto, nunca censurados ou limitados, tudo para prevenir ficciosos traumas futuros. Essa é a maneira mais eficaz de desenvolver neles um narcisismo ilimitado. Mais cedo ou mais tarde as sanções sociais e atos de autoridade invariavelmente impostos pela sociedade trarão um elevado ônus psíquico. Esse excesso de proteção é, talvez, a maior causa do sentimento de abandono que essas crianças sofrerão quando terão de enfrentar o mundo real. Serão adolescentes que acabam carentes de referências e identidades verdadeiras, remetendo-os a orfandade de modelos familiares e sujeitando-os aos grupos igualmente sem identidades. Na absoluta ausência de metas e objetivos maiores, derrapam para as drogas, para a violência cega e sem objetivos, para uma sexualidade compulsiva (e obrigatória), etc. Deve-se entender a dinâmica familiar não apenas como as relações pais-e-filhos, mas sobretudo, como as interações que se dão entre todos os membros da família. Dentro deste contexto familiar, há certos processos que se destacam por uma possível implicação no desenvolvimento de sintomatologia agressiva na criança: 1. - Hostilidade e competitividade Um dos temas mais implicados na adaptação emocional infantil tem sido o conflito conjugal. Sabe-se que, quando a hostilidade entre o casal se expressa abertamente, a criança mostra claros sinais de ansiedade, inclusive em idades muito precoces (Cumming e Daves, 1994). Entretanto, quando esta situação conflitante não envolve a criança, o impacto não é assim tão negativo. Embora não tenhamos trabalhos muito consistentes sobre as reais seqüelas do conflito matrimonial sobre as emoções dos primeiros anos de vida, poderíamos supor, com boa chance de acerto, que a hostilidade conjugal atuaria como fator ambiental de estresse, incitando a criança a experimentar um desequilíbrio emocional interno, insegurança e alto grau de incerteza. Com o tempo, este desequilíbrio constante poderia evoluir para a frustração e impulsividade, dando lugar a problemas de conduta. Dessa forma, o componente hostilidade-competitividade do casal seria um importante fator de risco para o desenvolvimento de sintomatologia agressiva. 2. - Diferenças de interação entre os pais O distanciamento ou a exclusão de um dos pais na vida da criança pode representar, para ela, um expressivo vazio familiar. Isso acaba trazendo sentimentos de insegurança, ansiedade, tristeza, etc, levando ao desenvolvimento de sintomatologia agressiva. Vem daí o ditado popular "o importante é participar", contrariando a crença daqueles que consideram suficiente, apenas o aporte material. 3. - Harmonia familiar A harmonia familiar atuaria como fator de proteção e segurança necessários ao desenvolvimento confortável da criança, contribuindo para uma melhor adaptação emocional ao meio e favorecendo um desenvolvimento sadio de condutas sociais. 4. - Apoio mútuo de ambos os pais As investigações sobre famílias têm se concentrado, sobretudo, no influente papel da interação mãe-filho, mas pouco se tem falado dos efeitos do apoio mútuo dos dois pais ao seu filho (coparenting). O apoio mútuo está diretamente relacionado à coesão familiar, um elemento muito importante no bom desempenho de todos os itens anteriores. Essa necessidade de apoio mútuo remete à outra questão importante: como pais separados promovem a coesão familiar? Quando o outro cônjuge não está presente, que imagem deste é passada para a criança? O outro é desqualificado, enaltecido, aprovado, etc.? Os resultados de alguns estudos apóiam a hipótese de que altos níveis de hostilidade-competitividade e baixos níveis de harmonia familiar se associam a probabilidade elevada de agressividade na idade escolar. Muitos são os casais que, separados ou não, vivem depreciando-se um ao outro para os filhos. Alguns estudos mostram que os meninos menos problemáticos eram aqueles que tinham um pai que promovia a coesão familiar e uma mãe pouco crítica com a postura desse pai (McHale e Rasmussem, 1998). Observa-se ainda, que as mães provenientes de ambientes familiares estressantes, tendem a ser mais críticas com seus maridos diante de seus filhos. Durante o período pré-escolar, as condutas agressivas aparecem mais nas crianças que vêem de lares onde as mães são mais críticas com seus maridos. Portanto, tanto a atitude hostilidade-competitividade, como a atividade excessivamente crítica da mãe sobre o pai aparece como elementos de grande influência no surgimento de conduta agressiva em idades pré-escolares. Outro aspecto que não tem sido objeto de muitas investigações é a implicação dos irmãos no desenvolvimento de problemas de conduta. O conflito entre irmãos é também considerado fator agravante no desenvolvimento de condutas agressivas, sempre e quando se dá conjuntamente com negligência por parte dos pais. O efeito é sempre pior quando os conflitos se dão entre irmãos maiores para com os menores, os quais tendem a imitar a agressividade daqueles (Garcia, Shaw, Winslow e Yaggi - 2000). Mídia, TV e Contexto social Há muitos anos, diante da pergunta feita por um jornalista sobre a responsabilidade da televisão na agressividade e violência humana, o Dr. René Penna Chaves (pessoa que me iniciou na psiquiatria) respondeu; "- Não creio que Cain tenha se inspirado na televisão para matar seu irmão Abel..." Tentava, o Dr. René, valorizar o peso do caráter sobre as circunstâncias ambientais. A questão da influência da televisão nas condutas das crianças, especialmente sobre as condutas agressivas é sempre polêmica. A maioria dos estudos assegura que os meninos tendem a imitar as ações violentas que vêm na TV, tendem a ser mais tolerantes com a agressividade e aceita-la melhor, assim como, tendem a desenvolver outras formas de agressão. Além disso, tem-se observado que os meninos agressivos normalmente escolhem programas mais violentos e que há mais meninos adictos a esses programas que meninas (Huesmanm e Miler, 1994). Porém, nem todas as investigações confirmam estas observações. Há autores que atribuem o suposto impacto da TV como um auxílio à compreensão e interpretação da criança sobre o que aparece na tela (Huesmanm, Erom, Kleim et al., 1983). Os games bélicos também são, freqüentemente, relacionados com o desenvolvimento de condutas violentas. Alguns opinam que não exercem nenhuma influência. Outros acham que empobrecem a imaginação e ensinam conceitos belicosos, e há quem crê que estes jogos têm até uma função catártica ou terapêutica sobre o potencial agressivo natural das pessoas. As atitudes competitivas (agressivas ou não) que acontecem nesses jogos, guardam relação com os adversários com quem se esteja jogando ou com o tipo de jogo que se utiliza e, apesar de estimularem a luta entre meninos (mas não entre meninas), só se constata o aumento da agressividade durante o jogo e/ou imediatamente depois. Essa agressividade parece não se manter em outras situações e nem repercutir em longo prazo (Helendoorm e Harinck, 1997). A Escola Observa-se que quando se instaura um vínculo inseguro e, concomitantemente, se inicia algum programa de creche antes dos 12 meses de idade, curiosamente pode-se observar um efeito benéfico. Em contrapartida, quando o vínculo é seguro a escolarização precoce pode repercutir negativamente (Egelande e Hiester - 1995). Isso poderia refletir o efeito compensatório de algum cuidador, que não os pais verdadeiros, sobre uma personalidade carente de segurança em seu vínculo. Reconhece-se hoje à possibilidade do vínculo seguro desenvolver-se com outros cuidadores que não os pais verdadeiros. Por isso Howes (1990) afirma que a qualidade das creches tem mais influência em posteriores problemas de conduta que os fatores familiares para as crianças que começam precocemente freqüentar creches. Em todo caso os estudos ressaltam a implicação de terceiras pessoas, fora do contexto familiar, no desenvolvimento de condutas agressivas. As diferenças de conduta entre as crianças com vínculo seguro das crianças com vínculo inseguro se reduzem com os anos de escolarização, sugerindo a implicação da escola como normalizadora de condutas. Isso acontece, talvez, porque as crianças se acostumam à situação escolar e adotam um padrão de conduta similar aos demais, ou porque a escola os ensina a respeitar as normas básicas de conduta. O início da escola implica também no início do processo de socialização, onde a criança enfrenta uma situação nova, com novas pessoas, e onde se lhe cobram um aprendizado que tem que competir com outros meninos nas mesmas condições. Os companheiros influem no desenvolvimento de condutas socialmente aceitáveis ou não. Tem-se observado que a associação com pessoas desadaptadas repercute no desenvolvimento de condutas problema; assim como também, ter amigos socialmente adaptados pode prevenir o aparecimento de condutas desadaptadas. Apesar disso e infelizmente, observa-se que crianças agressivas tendem a associar-se com outras crianças também agressivas e a rechaçar aquelas socialmente adaptadas. Teoricamente a escola também poderia influir no desenvolvimento ou prevenção de problemas de conduta. O pessoal escolar deveria avisar os familiares quando detecta problemas nas crianças, poderia proporcionar programas de estímulo de habilidades sociais, resolução de conflitos entre os alunos, ou buscar outras soluções aos problemas de cada aluno. No entanto, o que se vê é a contínua perda de autoridade do professor, passando a "respeitar", por absoluto medo, os alunos que se destacam como líderes de gangues e bandos. Interessa à algumas professoras(es) conquistar a simpatia dos alunos, não com propósitos de melhor ensinar mas, sobretudo, para "não terem problemas". Algumas apreciam serem tidas por “tiazonas” ou “mãezonas”. Não vou nem comentar isso. Vínculo Atualmente é aceito falar de vínculo desorganizado como verdadeiro precursor do comportamento agressivo infantil. Existem 4 padrões de vínculo: 1. organizado-seguro, 2. organizado-evitativo, 3. organizado-ambivalente e 4. desorganizado O comportamento agressivo infantil resulta da falta ou fracasso das estratégias pessoais para organizar respostas melhores adaptadas à necessidade de conforto e segurança que tem a pessoa (a criança) diante de situações estressantes. As formas de conduta desorganizadas são muito pessoais e particulares, com cada criança apresentando sua forma característica de reagir, incluindo a apreensão, incerteza, conduta depressiva, conduta evitativa, confusão, disforia, mudanças de conduta e outros conflitos de conduta (Maim e Solomom, 1990). O tipo de vínculo desorganizado que inclui condutas de evitação, o chamado tipo desorganizado-evitativo, é o que mais se associa com a agressividade infantil. Os pais pertencentes a este grupo podem ser mais intrusivos, negativos e inconstantes que os pais do subtipo desorganizado-seguro que são mais retraídos (Lyons-Ruth, Bronfmam e Parsons, 1994). A conduta materna associada ao vínculo desorganizado se caracteriza por uma falta de respostas apropriadas às necessidades da criança e por iniciativas que anulam a comunicação e interesses deste. Trata-se de mães pouco afetivas, controladoras, e que, se têm freqüentes interações, não mostram respeito pelas iniciativas do menino. Os estudiosos do vínculo defendem as implicações deste no desenvolvimento de condutas agressivas antes de se instaurar os ciclos coercitivos, mesmo porque as famílias coercitivas costumam ter precedentes de vínculo desorganizado. Alguns autores defendem que as anomalias na regulação do afeto e as condutas relativas ao vínculo durante a infância se caracterizam mais por indicadores de conflito, apreensão, desesperança, disforia e conduta imprevisível, do que pela conduta coercitiva em si (Maim e Solomom, 1990). A segurança do vínculo, os problemas psicossociais dos pais e a conduta hostil intrusiva das mães são fortes preditivos da agressividade pré-escolar. As mães com problemas psicossociais podem desenvolver vínculos inseguros, também a sintomatologia depressiva e a hostilidade materna nas primeiras etapas da vida da criança são freqüentes entre os motivos que posteriormente resultarão em problemas de conduta. As condutas de vínculo desorganizado predizem sintomatologia agressiva em torno dos 7 anos, mas só no subgrupo das crianças que teriam um desenvolvimento mental por baixo da media. Os autores sugerem que os déficits verbais característicos dos meninos com problemas de conduta podem ser preditivos de transtorno à precoce idade de 18 meses. Em resumo, os estudos sobre vínculo tentam chamar atenção sobre a importância da interação mãe-filho e sobre a possibilidade de fazer predições a muito precoce idade. Condição social A maioria de estudos procura relacionar nível socioeconômico baixo com desenvolvimento de problemas de conduta. Um desses estudos observou que alta porcentagem de crianças agressivas, de pouca idade, pertencia a um nível social mais baixo. Em contrapartida, a evolução dessas crianças não guardava nenhuma relação com o nível socioeconômico (McFadyen-Ketchum, Bates, Dodge e Pettit, 1996). As brigas e lutas corporais na meia infância ocorrem mais entre crianças que provêem de ambientes mais desfavorecidos economicamente, e as classes sociais mais baixas tendem a desenvolver vínculos mais desorganizados (Haapasalo e Tremblay, 1994). O fato de pertencer a classes sociais desfavorecidas não implica, por si mesmo, no desenvolvimento de problemas de conduta. São os fatores associados a esta condição que determinam o desenvolvimento de condutas desadaptadas e, entre esses fatores podem ser citadas as mudanças mais freqüentes de domicilio, as disputas matrimoniais, história de alcoolismo, poucas habilidades sociais, métodos coercitivos mais violentos, etc... Deve-se ter em conta, além disso, que estes fatores diferem de uma família para outra, de forma que, nem todas famílias pertencentes a uma classe social mais baixa se caracterizam pelos mesmos padrões de conduta. Um estudo realizado na Alemanha, em busca de elementos contra a idéia de todo e qualquer fator preditivo de futura conduta agressiva, encontrou uma relação entre classes sociais mais altas e o desenvolvimento de problemas de atenção e conduta agressiva. O resultado alemão pode ser atribuído às recentes mudanças nesta sociedade, em relação à liberação da mulher e ao grande aumento do número de mulheres trabalhadoras, sobretudo nas classes sociais mais altas. Este fato poderia ser tomado como exemplo das implicações do contexto cultural e social no desenvolvimento de problemas de conduta (Hadders-Algra e Groothuis, 1999). Outros estudos não encontram relação entre o nível socioeconômico e o desenvolvimento de problemas de comportamento (Prior, Smart, Sansom, Pedlow e Oberklaide, 1991). Agressividade Normal A agressividade natural das crianças, considerada uma atitude adaptativa normal, aumenta com a idade e vai variando, com o passar do tempo, da forma física e instrumental para a forma verbal e hostil. Vai mudando não só a forma da agressividade, como também, o objetivo e a finalidade. Dos 4 aos 7 anos, segundo o modelo analítico, a agressividade se manifesta sob a forma de nojo, choros e birra, e em geral se orienta para os pais, tendo como finalidade dar saída ao conflito amor-ódio que gera a internalização das normas morais. Dos 6 até os 14 anos, aparecem outras formas de agressividade e o objetivo das agressões se amplia dos pais aos irmãos. A finalidade, nesta fase, é competir e ganhar (Cerezo, 1997). Em relação à agressividade mal adaptada, aquela que foge do desenvolvimento normal, cerca da metade das crianças qualificadas como agressivas continuarão sendo agressivas em idades mais maduras. Essas crianças com agressividade persistente podem ser aquelas que mostraram um início precoce de sintomatologia hostil, tanto em casa como na escola, aquelas que tiveram problemas de hiperatividade ou condutas anti-sociais dissimuladas e encobertas, tais como roubar ou mentir, durante os primeiros anos escolares (Lyons-Ruth, 1996). A idéia de que a agressividade, uma vez estabelecida tende a perdurar, pode levar a pensar que esta conduta é intratável e não tem solução. Mas o certo é que entre o 25 e 50% das crianças com um início precoce de comportamento agressivo, reduzem sua agressividade (Hinshaw, Lahey e Hart, 1993). Conclusão O que se pode deduzir das diversas pesquisas nessa área é que não existe uma única variável ou algumas variáveis simples que possam ser consideradas indícios seguros do surgimento de comportamento agressivo e violento na criança pré-escolar, senão, uma combinação de variáveis implicadas no desenvolvimento e na instauração dos problemas de conduta. Para alguns investigadores os fatores mais significativos seriam o temperamento e caráter da própria criança, os problemas na relação mãe-filho e as condições socioeconômicas (Sansom, Oberklaide, Pedlow e Prior, 1991). Pattersom e Bank (1989) dividem os adolescentes com problemas de conduta em dos grupos: os de início precoce e os de início tardio. O modelo explicativo para pessoas com agressividade precoce consta da seguinte sucessão de acontecimentos: 1. Há uma interação agressiva entre pai e filho caracterizada por reprimendas e disciplina inconsistente, conduta irritável e explosiva, ou que leva ao menino a adquirir um comportamento agressivo como modelo. 2. Esta agressividade acaba determinando uma rejeição por parte dos outros, fracasso escolar e humor depressivo. 3. Este processo é seguido por atos delituosos, aderência a grupos de risco e abuso de sustâncias, assim como por fracassos ocupacionais. Outro aspecto a considerar é a convivência em meio de agressividade. Crianças agressivas proveniente de famílias agressivas e com poucas habilidades sociais tendem a repetir, à idade de 30 anos, o mesmo padrão educacional desadaptado adquirido de seus pais com seus próprios filhos. As formas conscientes de processar informações do mundo, ou as maneiras de representar a realidade, podem ser transmitidos de mães para filhos. Crianças agressivas e suas mães se caracterizam por atribuir natureza hostil ou provocativa aos eventos originalmente neutros. Seria possível, com os dados expostos acima, construir um protótipo hipotético da criança agressiva? Em sentido amplo, descreveríamos estas crianças como temperamentalmente difíceis, possivelmente com um substrato neurológico anômalo, com certos déficits cognitivos e outros problemas de conduta associados, inseridos em contextos familiares desfavorecidos, com uma mãe depressiva, pais com poucas habilidades sociais, pouco afetivos, normalmente vivenciando algum conflito matrimonial, reivindicadores de uma disciplina coercitiva e desorganizada. Essas crianças teriam uma interação familiar deficitária, seguramente pertenceriam a classes sociais desfavorecidas e suas relações na escola seriam problemáticas, teriam más companhias e evoluiriam negativamente. Mas, mesmo considerando a implicação de muitos destes fatores de risco, além de outros, encontramos crianças que cumprem perfeitamente com essa base de alto risco e não desenvolvem condutas agressivas. Estamos diante da eterna discrepância entre constatações clínicas e conjecturas teóricas do desenvolvimento. Isso quer dizer que, enquanto na clínica, muitos casos de agressividade coincidem com vários destes aspectos de risco assinalados acima, o acompanhamento de muitas pessoas que partem desta base de alto risco nem sempre mostra o desenvolvimento de condutas agressivas. Então, o que faz com que, partindo de um presumível mesmo contexto de risco, algumas crianças adotem um comportamento agressivo e outros não? A conclusão que se pode tirar é que a conduta agressiva tem uma origem e uma evolução multifatorial, e que se deveriam realizar mais estudos sobre possíveis fatores implicados nessa fisiopatologia

Nenhum comentário:

Postar um comentário