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quarta-feira, 2 de maio de 2012

O período de latência

O período de latência Como entender o desenvolvimento da sexualidade da criança e sua inserção na sociedade. Conheça quais movimentos sociais envolvem meninos e meninas nessa fase Por Ana Maria Sabrosa G. C. Nogueira Sigmund Freud escreveu que “o comple- xo de Édipo revela, de maneira crescen- te, sua significação como o fenômeno central do período sexual da primeira infância. Depois, já sepultado, sucumbe à repres- são e é seguido pelo período de latência”. Após todos os intensos processos defensivos, a sexua- lidade infantil deixa de apresentar o manifesto vigoroso de antes e passa então a influenciar o psiquismo desde uma expressão latente e, portan- to, através de outros expedientes (assim como o menino mantém uma fixação na imagem da mãe e depois descolada para outras mulheres). Existe uma enorme onda de repressão sobre a criança e sua sexualidade, relação essa em que, conseqüentemente, é possível constatar “forma- ções substitutas”. Como estas formações perten- cem ao inconsciente, elas serão sempre regidas pela égide da atemporalidade, podendo estar ati- vas constantemente. A sexualidade infantil teria deixado todas as representações psíquicas sujei- tas a re-significação. O conceito de Complexo de Édipo não pode ficar circunscrito a uma cronolo- gia. Este conceito nuclear da teoria psicanalítica designa uma estrutura de relações interpessoais em torno da qual se organizam as origens da religião, da moral, da sociedade, da ciência, da arte, enfim, de toda a cultura. É importante ressaltar que a atividade dos im- pulsos sexuais infantis não cessa, mesmo durante este período de latência, embora sua energia seja desviada, no todo ou em grande parte, e dirigida para outras finalidades. Este processo de desvio das forças pulsionais sexuais para outros objetivos recebe o nome de sublimação. ESPELHO E IDENTIFICAÇÃO A médica e psicanalista, Françoise Dolto, já alertava para o fato de as meninas terem a espe- rança, através de sua mãe, de tornarem-se mulhe- res, desenvolvendo seios e estando aptas a trazer filhos ao mundo. O ingresso na “arena femini- na” é orgulhosamente marcado através das pala- vras tranqüilizadoras da mãe. A menina tenderá a mostrar que seu desejo é identificar-se com o modelo feminino. O deslocamento inconsciente das pulsões vai em direção a um curioso aces- so, ao domínio perfeito da linguagem, tomando como evidência que, normalmente, as garotas “falam pelos cotovelos”. Haverá também deslo- camento ao domínio corporal, dando margem à competição feminina. As meninas irão se cercar de amigas que, ao mesmo tempo, serão suas rivais. Não é raro observar os grupinhos de meninas em três ou outro número ímpar com constantes desavenças e rivalidades. “Uma sempre sobra”, dizia uma vez uma pequena paciente de 7 anos, referindo-se às dificuldades em lidar com suas decepções, inveja, vaidade e auto-estima. A menina investe de amor fetichista em suas “bonecas humanas”. Com elas, pode desempenhar radicalmente seu papel maternal tutelar, que tende a tornar manifestas todas as fantasias narcísicas compensatórias de sua impotência. Neste período da latência, que cronologicamente pode ser mais ou menos circunscrito dos 5 aos 11/12 anos, as meninas estão fora dos aniversários dos meninos e vice-versa. Na hora de cantar o parabéns, a célebre musiquinha “com quem será que fulaninho vai casar?”, é motivo de quase um desespero para o aniversariante, pois define uma escolha de objeto, no momento em que a criança está muito mais interessada no fortalecimento de sua identidade. Há a necessidade do reconhecimento pelos seus pares de ser bom em alguma coisa: um esporte, uma língua, uma disciplina, um instrumento, a capacidade argumentativa e assim por diante. A princípio, para um adulto-observador, as meninas podem passar a impressão de que se incomodam menos do que os meninos com a brincadeira. Entretanto, uma vez que elas têm maior domínio da retórica e acesso à linguagem, desvencilham-se muito mais facilmente da “zoação”, (da brincadeira de ficar na berlinda para ser irritada pelos colegas) do que os meninos. De modo geral, elas deixam muito menos a perceber que foram atingidas pela provocação. A atividade dos impulsos sexuais infantis não cessa, mesmo durante o período de latência, dos 5 aos 10 anos embora essa energia seja desviada para outras finalidades DA MÃE AO PAI O menino, que também via na mãe o primeiro objeto de amor, irá viver um luto, que é o lugar de sua identificação com a mãe, para identificar- se com o pai, satisfazendo seus desejos ternos e hostis em relação a ele. É ele mesmo agora, o pai admirado, que transforma-se numa força psíquica – o superego. Assim entendemos que o “superego é herdeiro do Complexo de Édipo”. Esta célebre construção freudiana tem uma razão e merece ser bem compreendida. Todas aquelas vivências em relação aos pais sobre amor, frustração, ódio, limites e crenças que levaram à substituição das relações objetais por identificações deixam de apresentar o vigor da primeira infância para influenciar todo o psiquismo desde uma expressão latente. Agora, o que dizia respeito aos pais passa a ser introjetado pela criança. O superego é o sucessor e também uma continuação dos pais e educadores durante seu primeiro período de vida. Espera-se que na latência as formações reativas de moralidade, vergonha e repulsa sejam estruturadas. Esse período de estruturação é composto por encenações de transgressões e competições. Os meninos, por exemplo, por essa identificação com o pai, erguem espadas, vão ao laser shot, competem pelo arroto mais alto da turma e disputam o lugar do melhor no time. Certa vez, um menino contava-me sobre um passeio que fizera com seus amigos da escola, onde a máxima expressão de sua potência e iminência de transgressão estava no fato de ter dirigido um Bugue, (carro de pequeno porte disponibilizado para as crian- ças), até a beira da estrada. Este limite entre a zona permitida e a zona proibida nos dá a exata dimensão desse exercício do ego (eu) em renunciar aos impulsos do id na medida em que tenta realizar as suas expectativas de ser valorizado, dando continuidade à função paterna já internalizada (superego). Atitudes temperamentais em relação à mãe ou àquela que exerce a função materna são comuns. É necessário que a mãe possa exercer tanto a fun- ção materna e paterna, sendo o mesmo válido para o pai. Há uma dificuldade de obedecer às instruções maternas. As birras são seguidas, mui- tas vezes de ameaças da mãe como “Você vai ver quando seu pai souber disso!”. A função paterna dentro de si é crucial para a relação mãe e filho. O que a criança não quer é ficar cegamente submetida à mãe e ao pai como quando era me- nor. É muito comum observarmos nas escolas em que as crianças estudam juntas desde o maternal haver novas constituições de grupinhos de amigos. Com o crescimento das crianças e suas naturais di- ferenças sendo evidenciadas, o melhor amiguinho - cujos pais se davam muito bem com os seus -, deixam muitas vezes de ser o predileto, ou ainda, passam a ser objeto de desinteresse ou mesmo de irritação. Nas trocas de amizades, os pais tendem a interferir porque conhecem aquela criança e aque- la família há um longo tempo. Nessa interferência dos pais não é raro haver um desrespeito às novas configurações e o filho criar outras. As escolhas da criança podem até ser questionadas, mas jamais ignoradas, ironizadas ou desvalorizadas, caso con- trário, a função paterna e a função materna per- dem o seu teor e transformam-se num tratado de regras a serviço do narcisismo dos pais INFLUÊNCIA EM CONJUNTO O pediatra e psicanalista, Donald Woods Winnicott afirma que, à parte de qualquer coisa que possa ser dita sobre a latência, há tremen- das defesas erigidas e mantidas. Normalmente na latência há uma “fúria oculta”. O ego (eu) se vê normalmente sozinho e a criança não aten- de de forma incondicional às exigências do id, embora os impulsos do id retenham seu poder e apareçam de forma indireta. Outro exemplo ilustrativo é uma conversa em família na hora do jantar. A filha de 21 anos pergunta à mãe sobre a validade de sua vacina de hepatite B, uma vez que é estudante de medicina e está prestes a ingressar no está- gio em um hospital. O filho, de 10 anos, toma a palavra contando que coincidentemente ha- via tido uma aula de ciências na qual a profes- sora explicou sobre a importância da inclusão da vacina contra hepatite B no calendário de vacinação. O menino continua, acrescentan- do que uma colega perguntou sobre como “se pegava a hepatite B”. A professora, segundo ele, respondeu que pelo sangue ou atividade sexual. O filho, então às gargalhadas, diz que seu amigo deixou a colega em uma situação constrangedora dizendo: “Não se preocupa não, garota, porque os meninos têm horror a vocês, do sexo oposto!” "O SUPEREGO É SUCESSOR E CONTINUAÇÃO DOS PAIS E EDUCADORES DURANTE O PRIMEIRO PERÍODO DE VIDA" É claro que o que interessa aqui é essa exata medida do tempo de latência das crianças a ser respeitado para um posterior ingresso na pu- berdade. Período difícil, em que o adolescen- reivindica uma liberdade, que ele ainda tem pavor de assumir, pela consciência mais confusa ou menos confusa dos riscos que ela implica. Tanto a escola quanto os pais têm que atuar no processo de “castração” da criança, ou seja, no estabelecimento de limites O conceito de tendência anti-social em Winnicott permite pensar na criança “normal”, relacionada às dificuldades que são inerentes ao desenvolvimento emocional. Quando a criança de 7 ou 8 anos rouba, ela não está querendo tais coisas, (às vezes distribui as próprias coisas ou o dinheiro que roubou), mas, sim, procura algo que supõe ter direito: amor, presença dos pais, alguma verdade não revelada, o não dito. Às vezes rouba um cotoco de lápis, outras vezes vai mais longe e rouba o celular do amigo na escola. É importante que a instituição educacional não deixe de valorizar estes atos, mas ao invés de ter uma postura exclusivamente punitiva, possa funcionar junto aos pais e à própria criança com a elaboração da “castração”, entendida aqui como um acesso aos limites, ao que nem tudo pode, às diferenças, aos questionamentos e mudanças. A criança pode elaborar, aos poucos, a importante convicção de que não se é tudo, não se tem tudo. Através de impulsos inconscientes, a criança força alguém a se encarregar de seu manejo. A tendência anti-social implica no manejo, tolerância, compreensão e esperança - quem sofreu privação tem como característica básica a falta de esperança. A manifestação da tendência anti-social inclui o roubo, a mentira, a incontinência, o “fazer bagunça” e a desarrumação. Guardadas as respectivas diferenças e significados do sintoma e seu valor específico, o fator comum e relevante aqui é a “amolação” causada pelo sintoma, sendo grande parte da motivação de natureza inconsciente. Pode-se também esticar as referências à relação da tendência anti-social com: atuação, superego patológico/culpa inconsciente, compulsão à repetição, masturbação exacerbada, defesa paranóide. O DESPERTAR Se a criança está em análise, o analista deve estar atento ao valor da relação transferencial e saber que a tendência anti-social se desenvolverá com força total na situação analítica. Já se ela não chega ao consultório, caberá aos pais e à escola fornecer uma nova oportunidade de relação egóica, favorecendo novas experiências com os impulsos do id. Implica em perceber uma nova situação com elementos de confiabilidade, em experimentar um impulso de busca do objeto. Quando a criança reconhece que a sua crueldade está a um passo de se tornar uma característica, ela provoca o meio, num esforço para torná-lo alerta ao perigo e fazer com que ele se organize para tolerar a amolação, suportar a agressão, impedir ou reparar a destruição, fornecer e preservar o objeto que deve ser buscado e encontrado. O período da latência pode trazer ainda questões das crianças ligadas à hiperatividade, comportamento de antagonismo, bullying, dificuldades na aprendizagem e perturbação na identidade sexual infantil. Em relação a esta última evidência, vale ainda aqui fazermos uma alusão, mesmo que rapidamente, a uma questão que Freud já assinalava: Todos os seres humanos são bissexuais. Todo o indivíduo, menino ou menina, é composto de elementos de masculinidade e feminilidade. Sendo assim, aquilo que consiste a masculinidade ou a feminilidade é uma característica desconhecida que a anatomia não pode apreender. Parece fundamental a compreensão de que há uma mescla de traços femininos e masculinos nas reações dos indivíduos de ambos os sexos. A indicação de tratamento psicológico/psicanalítico se faz necessária na medida do sofrimento psíquico que a criança possa expressar. É importante singularizar cada caso, buscando uma compreensão da dinâmica emocional que subjaz ao sintoma.

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