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domingo, 12 de agosto de 2012

Encontro presencial pode nos conectar com o nosso eu

Encontro presencial pode nos conectar com o nosso eu Fátima Fontes “Quem sou eu? e, mais importante ainda, a permanente credibilidade da resposta que lhe possa ser dada, qualquer que seja – não pode ser constituída senão por referência aos vínculos que conectam o eu a outras pessoas e ao pressuposto de que tais vínculos são fidedignos e gozam de estabilidade com o passar do tempo. Precisamos de relacionamentos aos quais possamos servir para alguma coisa, relacionamentos aos quais possamos referir-nos no intuito de definirmos a nós mesmos” (Zygmunt Bauman ) Quando fui convidada a participar do site Vya Estelar, combinei com o editor que conversaríamos sobre o enorme desafio nos tempos atuais de qualificarmos nossos vínculos, já que vivemos, como nunca, tempos em que a cada dia “estamos perdendo a capacidade de estabelecer interações espontâneas com pessoas reais”, como nos adverte o sociólogo Zygmunt Bauman. Nunca estivemos tão perto e tão longe uns dos outros. Em redes sociais, mobilizamos pessoas e nos conectamos como nunca o fizemos na história da humanidade. Porém, temos acompanhado ao ocaso das relações reais, vivemos um tempo de vazio existencial, uma era do vazio, onde tiramos fotos compulsivamente e as postamos para nos mostrar em tempo real; contamos em larga escala, para meio mundo o que pensamos, o que comemos, onde estivemos com quem falamos, num frenesi exibicionista que nada tem de consistente, nem valorativo relacional. Então, vamos avançar nessa reflexão buscando estabelecer uma marca outra: a do encontro humano, onde podemos ser capazes de vivermos “um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus. E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus; então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus”, tal como nos foi proposto por Jacob Lévy Moreno , o criador do Psicodrama. Era uma vez... uma mulher que não queria morrer apesar de sua doença grave Era o verão de 2006, estava viajando para passar alguns dias de absoluto repouso de alma na encantadora Ilha de Itamaracá, situada no litoral norte de Pernambuco. Ao chegar à cidade de Recife, minha cidade natal, fui convidada a conhecer e acolher uma pessoa em um estado comprometido de saúde: ela era portadora de um câncer de pulmão em estado muito avançado da doença, e era esposa do chefe do meu irmão, a quem eu nunca vira antes. Essa pernambucana guerreira me ajudou muito mais que eu a ela: deu-me o privilégio de confirmar o valor da vida e de que “ninguém quer a morte”, como cantou Gonzaguinha. A força que ela fazia a cada amanhecer para manter batendo seu coração, grande bomba-mestra de nossa engrenagem orgânica era louvável e invejável e assim ela mantinha cotidianamente o “sopro da vida”. Quanta vida e força emanavam dessa mulher, uma grande Maria Maria que “misturava dor e alegria” e que me ensinou em nosso único encontro que “é preciso ter força, é preciso ter graça, é preciso ter gana sempre, pois quem traz no peito essa marca Maria, possui a estranha mania de ter fé na vida”, como nos asseverou Milton Nascimento. Nesse único encontro, pois ela morreu dois meses depois, trocamos afetos: no sentido dado aos afetos pelo filósofo do século XVII Baruck Espinosa: nossos corpos se afetaram mutuamente e sentimos que nossa “alegria” de viver cresceu a partir desse encontro, servindo-nos de força potencializadora de nossas ações. Recebi de meu irmão a gratidão dessa família, pois segundo relatos do marido e filho, os dois últimos meses de vida dessa pessoa estavam diferentes, desde nosso encontro com ela: ela tinha mais alegria a cada manhã. E em mim, seis anos depois, ainda muito me emociona pensar nesse e em outros bons encontros que alimentam minha vida, que me tornam a cada dia mais próxima à pessoa que desejo ser. Conclusão Desejo com esse breve compartilhar humano, ter estimulado os leitores a se encontrarem mais uns com os outros, somente assim teremos nossa identidade humana adornada de valores que dignificam e dão sentido à vida, como o amor e a compaixão, valores que se tornaram fora de moda em nossos superficiais e frágeis relacionamentos atuais, sobretudo os virtuais. ________________ Zygmunt Bauman, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2005. J. L. Moreno, Psicodrama. São Paulo: Editora Cultrix Ltda., 1978.

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