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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A sexualidade na prática psicoterápica

A sexualidade na prática psicoterápica Distorções, mitos, preconceitos e tabus, causados principalmente por falta de conhecimento, prejudicam a abordagem do tema, inclusive por psicólogos clínicos Julcinéa Maria Tauil Julcinéa Maria Tauil é psicóloga, especialista em Psicoterapias Dinâmicas pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e especialista em Psicoterapia de Técnicas Integradas e Psicologia Clínica pelo Instituto Fernando Pessoa de Porto Alegre (IFPPA). Na história humana é possível verificar que havia uma cruel intolerância à diferença na expressão da sexualidade. Observa-se que, em escala e intensidade muito menores, essa diferenciação em pleno século XXI não superou a herança de ter um significado negativo dentro do contexto sociocultural, cujo objetivo está focalizado em um ideal que visa à norma. Obviamente é um ideal inatingível, porque as fronteiras são sempre rompidas, de modo que a sexualidade humana passa a ser discutida como transgressora da norma, pondo sob questionamento o fato de ser a sexualidade negativa e não positiva, na medida em que infringe as normas. O psicólogo clínico se insere nesse contexto sociocultural e, portanto, dele não difere quanto aos mitos, preconceitos e tabus. Apesar do mundo globalizado, o paciente contemporâneo não deixou de ser sexuado. Preconceitos e tabus ainda existem em torno da sexualidade. Apesar da globalização, o paciente não deixou de ser sexuado, e preconceitos ainda existem em torno da sexualidade O ofício de psicólogo clínico possibilita o encontro com diversos tipos de pessoas, inclusive de variada faixa etária, em situações diversas de saúde ou de doença, de nível socioeconômico e cultural, de raça, de cor e de sexo. É importante destacar que, em todas essas situações, a sexualidade e suas diversas manifestações estão presentes na realidade cotidiana e na prática clínica. Evitá-la, portanto, é uma ilusão histórica que reforça padrões repetitivos e não favorece o conhecimento e a evolução. O objetivo do estudo é analisar como se caracteriza a abordagem e a escuta da sexualidade na prática psicoterápica, especificamente investigar a opinião do psicoterapeuta sobre a importância da abordagem da sexualidade na psicoterapia, identificar possíveis dificuldades do psicoterapeuta, na prática, para abordar e trabalhar a sexualidade do paciente, e investigar se a experiência clínica influencia na abordagem da sexualidade na psicoterapia. Preceitos O pernambucano Jurandir Freire Costa, psicanalista e escritor, em seu livro O vestígio e a Aura: Corpo e Consumismo Na Moral do Espetáculo, definiu que os preceitos morais dominantes permanecem os mesmos -- modelados, é claro, pelo colorido da atualidade. Quando o assunto é sexualidade, parece que nem esse colorido consegue disfarçar as graves distorções, as falsas crendices e a má fama que envolvem o tema. Isso colabora para a manutenção equivocada de preceitos morais que desconhecem o respeito à diferença. Os textos reunidos por Jurandir em sua obra mostram interesse na análise da chamada "crise de valores contemporâneos", com base em fenômenos bem comuns nos últimos tempos, como o culto ao corpo e à aparência, o consumismo e a cultura da imagem. São textos caracterizados, simultaneamente, por erudição, rigor e ética. Embora norteado pela filosofia, pelas ciências sociais e pela psicanálise, não é um livro dirigido somente para acadêmicos ou especialistas. O autor coloca suas ideias e pensamentos de maneira acessível a todos os que se interessam pelas grandes questões da existência humana e pelas dificuldades do mundo de hoje. Em todas as situações, a sexualidade e suas diversas manifestações estão presentes na realidade cotidiana e na prática clínica - Édipo - O Complexo de Édipo, desenvolvido por Freud, indica que a criança, ao atingir o período sexual fálico na segunda infância, entende a diferença entre os sexos, criando a tendência de fixar sua atenção, relacionada à libido, às pessoas do sexo oposto no universo da família. O conceito foi descrito e recebeu a designação de "complexo" por Carl Jung (foto). Freud se baseou na tragédia de Sófocles, Édipo Rei, chamando Complexo de Édipo à preferência velada do filho pela mãe, acompanhada de uma aversão clara pelo pai. O trabalho se utilizou de uma pesquisa qualitativa de cunho observacional exploratório. O instrumento para a avaliação foi um questionário composto por 15 questões, quatro delas abrangendo aspectos sociodemográficos e 11 pertinentes aos propósitos da pesquisa. O questionário foi aplicado a psicólogos/psicoterapeutas do primeiro, segundo e terceiro anos do Curso de Especialização em Psicologia Clínica de uma instituição de ensino de Porto Alegre (RS). Após a aplicação do questionário, foi computada a participação de 41 psicólogos, sendo 32 mulheres e nove homens, com média de 35 anos de idade. O universo pesquisado contemplou 42% de solteiros, 24% de uniões estáveis, 22% de casados, 10% de separados e 2% de divorciados. Foram selecionadas quatro categorias principais que representam os conteúdos registrados no questionário. A composição das categorias coincidiu com o foco das questões formuladas. As categorias são: abordagem da sexualidade, dificuldade para abordar a sexualidade em psicoterapia, diversidade das práticas sexuais, preparo para trabalhar com sexualidade e conhecimento. Os profissionais novatos e intermediários podem ter dificuldades ou até mesmo não abordar a sexualidade em psicoterapia Composição das categorias No quesito Abordagem da Sexualidade, as respostas referentes às três questões se encontram na tabela 1. A primeira pergunta, "A experiência clínica influencia na abordagem da sexualidade em psicoterapia?", as respostas estão representadas por *. Na segunda questão, "Você considera importante a abordagem da sexualidade em psicoterapia?", as respostas estão representadas por **. E a terceira, "Como você se sente quando tem que abordar a sexualidade com um paciente?", as respostas estão representadas por ***. À primeira questão, 35 participantes responderam "Sim" e seis participantes responderam "Não". Essas afirmações revelam que, para a maioria dos respondentes, a experiência clínica influencia na abordagem da sexualidade. É possível concluir que os psicoterapeutas novatos e intermediários podem ter dificuldades ou até mesmo não abordar o tema em psicoterapia por não se sentirem instrumentalizados com recursos que os tornem aptos para a escuta clínica da sexualidade. Segundo Vitiello & Rodrigues Junior (1997), a sexualidade é um assunto que se reveste de massa compacta de contradições, tabus e ignorância, a tal ponto que, para os autores, nos dias atuais muitas pessoas consideram esse tema exclusivo para adultos e defendem a ideia de que tal referencial deve ser excluído dDe acordo com Green (2008), na civilização ocidental a sexualidade foi ignorada por 25 séculos, até o surgimento de Freud. Ele defende que Freud trouxe esclarecimentos sobre a sexualidade e, agora, voltamos ao período anterior a ele. Afirma que ninguém deseja ouvir sobre o assunto nem a respeito da maneira pela qual somos marcados por ele desde pequenos. O interesse de Freud a respeito das questões da sexualidade originou-se na observação clínica da importância dos fatores sexuais na etiologia das neuroses. Foi numa época de rígida moral vitoriana, na qual a inocência das crianças era considerada inquestionável, e predominava a ideia de que a sexualidade só viria a se manifestar na puberdade. Freud, numa atitude de coragem e audácia, lançou o clássico Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). À segunda questão - "Você considera importante a abordagem da sexualidade em psicoterapia?" - 40 dos 41 participantes responderam "Sim". Não apareceu nenhuma resposta "Não" e apenas um participante respondeu "Depende". Verifica-se a consciência dos respondentes quanto à importância em abordar o tema. Entretanto, embora haja consciência, isso não significa que, na prática clínica, ela seja ouvida e trabalhada. Quanto mais satisfatória for a vida sexual do analista, mais ele será capaz de ajudar o paciente a resolver suas inibições É fato que a sexualidade está presente desde o início da vida do ser humano. A visão crítica e reflexiva sobre esse tema deve servir de estímulo aos profissionais da saúde e às instituições formadoras, para que se adaptem de maneira dinâmica aos processos de evolução e modernização da psicologia. Conforme Lucca (2008), sexualidade e afetividade se autoimplicam. Ao tocarmos em uma, tocaremos imediatamente na outra. Talvez por isso fique tão difícil mexer com a sexualidade. Para a terceira e última questão da primeira categoria - "Como você se sente quando tem de abordar a sexualidade com um paciente?" - as respostas mostram uma variedade de significados atribuídos ao sentimento. Observa-se que oito participantes responderam "Depende do perfil do paciente; com uns, sem dificuldades, e com outros, mais dificuldades". A sexualidade é um atributo natural, mas, infelizmente, é também a causa de muitos conflitos para a maioria das pessoas Nesse caso é possível pensar que não houve compreensão da pergunta ou que os respondentes encontram dificuldades para trabalhar a sexualidade em psicoterapia com qualquer paciente. Isso sugere que, para eles, o conforto ou o desconforto ao tratar do tema vai depender do perfil do paciente e não da instrumentalização e da naturalidade do psicoterapeuta para abordar e trabalhar com a sexualidade. A pesquisa também mostra que dois participantes responderam que, quando precisam abordar a sexualidade, sentem violar a intimidade do paciente. Nesse caso, a sexualidade é vista como invasão de privacidade. Cabe destacar que nessas circunstâncias a sexualidade também pode ser excluída, dissociada e não trabalhada no contexto clínico, e, em casos extremos, deixar de ser considerada como componente essencial na história de vida do indivíduo. O interesse de Freud pela sexualidade originou-se da observação da importância dos fatores sexuais na etiologia das neuroses - Racional - Algumas interpretações insistem em ligar o forte desejo sexual dos seres humanos a um instinto sexual semelhante ao que ocorre com os animais. Segundo essa linha, o desejo sexual sempre deve ser associado à preservação da espécie. O instinto sexual existe entre os animais. Contudo, com o homem é diferente. Ele escolhe o parceiro, mantendo um componente racional, que avalia a opção. De acordo com McMahon (2005), a sexualidade é um atributo natural. Infelizmente, é também a causa de muitos conflitos e de confusão para a maioria das pessoas. Além disso, existe uma insuficiência de conhecimento sobre sexualidade que pode ser vista nas seguintes respostas: "Ainda é pouco delicado abordar e explorar o tema na primeira consulta", "Alguns temas, por não ter conhecimento, são mais difíceis", "Ainda desconfortável, um tema mais delicado do que os outros". É relevante lembrar que o psicólogo é um profissional de saúde e tem um papel multiplicador na sociedade. Esse é mais um motivo para que, em sua formação, seja instrumentalizado para desconstruir a visão social que nega a subjetividade da sexualidade e não educa para a demolição de mitos, preconceitos e tabus. No entanto, para que possam preparar seus alunos, as instituições formadoras também precisam abandonar a visão tradicionalista e moral, que acaba deixando de preservar a importância da sexualidade nos currículos. A sexualidade está presente desde o início da vida e a visão crítica sobre o tema deve servir de estímulo para os profissionais da saúde Resistência A segunda categoria -- "Dificuldade para abordar a sexualidade em psicoterapia, a partir das respostas referentes à questão 'Em sua opinião, o que pode levar um psicoterapeuta a ter dificuldades de investigar a sexualidade do paciente em psicoterapia?'" - é representada na tabela 2. É possível observar que 22 participantes têm a convicção de que "problemas pessoais com a própria sexualidade" dificultam a abordagem em psicoterapia. Não há dúvida de que a sexualidade é um tema que percorre toda a obra de Freud e continua gerando imensas resistências, mesmo nos dias atuais. O que o assunto significa para cada pessoa revela a sua existência subjetiva, inserida na pluralidade inquestionável da natureza humana. E talvez por isso seja marginalizado. Na prática da psicoterapia é imprescindível que o profissional reconheça os diversos destinos da sexualidade, não cabendo a repetição da discriminação muitas vezes sustentada pela sociedade. É grande o número de pacientes que apresenta demandas na orientação sexual, em disfunções sexuais e no comportamento de risco Para Mezan (2002), a repetição é também resistência. Nessa linha de pensamento, o conhecimento mais profundo de mitos, tabus e da realidade acerca de nossa própria sexualidade pode contribuir para a diminuição de posturas indevidas e inadequadas diante do tema, propiciando uma abordagem mais tranquila com os pacientes, pois a sexualidade é para ser ouvida, cuidada e não discriminada. Segundo Teixeira da Silva (1996), o tratamento pessoal do terapeuta é fundamental para examinar e explorar a vida do paciente. A análise didática ideal seria aquela na qual ele pudesse avaliar, minuciosamente, todos os aspectos pré- -edípicos e edípicos, ultrapassando-os para desenvolver uma relação natural e verdadeira consigo mesmo, conquistando uma identidade sexual harmoniosa e a aceitação de sua bissexualidade, podendo lidar com espontaneidade e liberdade com seus aspectos masculinos e femininos. Tudo isso complementado por uma excelente preparação teórica e prática. De acordo com Lucca (2008), antes de trabalhar com a sexualidade dos outros é preciso aceitar e trabalhar a própria. Compreender os papéis que cada um representa na família, na sociedade, compreender nossos comportamentos internos e com os outros, fortalecer a autoestima, a autoaceitação, resolver dúvidas de teor biológico, questões morais, psiquismo e emoções. Nessa linha de pensamento, Kernberg (1995) afirma que, quanto mais satisfatória a vida sexual do analista, mais ele será capaz de ajudar o paciente a resolver suas inibições e limitações nessa área essencial da experiência humana os âmbitos de palestras, cursos e currículos escolares, por o julgarem obsceno Prazer Sigmund Freud, neurologista austríaco e criador da Psicanálise, destacou, em sua teoria da sexualidade, que a criança é perversa polimorfa porque nela ainda não se instalou a vergonha, o repúdio e a moral. Assim, tudo o que a criança faz é espontâneo; a sexualidade infantil é de prazer corpóreo, sensorial. Essa sexualidade, que vai se tornar adulta, só aparece e se ressignifica na adolescência. Até esta fase, é uma sexualidade sensorial, de prazeres, vinculada ao corpo e ao afeto. Assim, a sexualidade infantil perversa polimorfa, vista pelo adulto repressivo, é uma coisa feia, e as anomalias que o superego vai criando deixam a pessoa bloqueada na sua sexualidade infantil. Deve-se considerar a sexualidade antes e depois de Freud, pois ele propôs outra maneira de pensar o indivíduo, cuja constituição não pode ser separada da sexualidade. Freud apresentou uma nova visão sobre o desenvolvimento emocional do ser humano, tanto nos aspectos de normalidade como de patologia que acompanham a sexualidade na infância. Em consonância com Freud, a sexualidade está no centro da vida psíquica e, por mais que seja rechaçada, impõe sua existência nas mais variadas formas que o sofrimento psíquico pode assumir. Para Freud, é na vida adulta, com a entrada de um superego punitivo, devido a uma educação muito rígida, que ocorre a perda da inocência do sexo - Construção da sexualidade - Na versão original de 1905 de Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, as ideias que são apresentadas sobre as perversões fazem referência não apenas à síntese perversa, mas a toda a sexualidade humana. Freud salienta desde o início, por exemplo, que as tendências perversas fariam parte constitutiva da sexualidade infantil. Expressão da sexualidade Com base na terceira categoria, "Diversidade das práticas sexuais", foi montada a tabela 3, referente à questão "Como você considera a diversidade das práticas sexuais (homossexualidade, bissexualidade etc.)?" Alguns participantes aceitam a diversidade das práticas sexuais. Porém, há respondentes que, ao classificar a diversidade das práticas sexuais como "inevitável, são opções sexuais", "consequência da sociedade atual", "respeita como respeita outras patologias", "distorção no aprendizado", "algo que ainda precisa ser estudado" e "com preconceito", demonstram falta de preparo teórico e prático necessários para desenvolver maior compreensão e visão clínica das variadas formas de expressão da sexualidade. Isso sugere que as anomalias do superego geracional neutralizam discussões, estudos e esclarecimentos sobre a sexualidade, impedindo o seu reconhecimento como expressão subjetiva de cada indivíduo, pois a sexualidade não tem a carga de malícia que o sexo passa a ter com a educação. É precisamente em O mal-estar na civilização (1930) que Freud sustenta que a educação não permite que vivamos segundo nosso desejo. Conforme a linha do pensamento freudiano, na vida adulta, com a entrada de um superego punitivo, devido a uma educação muito rígida, ocorre a perda da inocência do sexo. Essa perda conduz à percepção de que as coisas são proibidas, feias e erradas. Em princípio, se a humanidade se desorganiza, voltando-se só para o prazer, torna-se evidente que pagamos um preço muito alto para nos humanizar, pois a imposição contra o desejo é feita o tempo todo. Isso sugere que a educação avança na zona da fantasia, estruturando o ego para se vincular à sociedade. É uma violência, mas o ego é construído dentro dessa violência. É importante destacar que a ação da psicoterapia em um superego rígido diminui a rigidez, podendo resgatar a vivacidade e a espontaneidade da sexualidade infantil, só que agora numa linha adulta, porque se tirou a culpa excessiva e o excesso de educação repressiva. Nesse contexto, o superego se torna capaz de guiar o ego de maneira muito mais flexível, abrindo as comportas do prazer adulto carregado de fantasias infantis vivas, mas não pesadas. Segundo Orbach (2000), na psicoterapia a subjetividade do psicoterapeuta e do paciente constrói o processo psicoterápico conforme as ideias, os valores e as influências recíprocas da dupla terapêutica. Cabe ao psicoterapeuta estar atento para o que irá priorizar, ignorar ou negligenciar na prática clínica, em especial a respeito de suas ideias ou conduta. Evidentemente que o sofrimento psíquico é o que motiva a pessoa a buscar tratamento, e o número de pacientes que tem como demanda a diversidade nas práticas sexuais, o comportamento sexual de risco, a orientação sexual, as disfunções sexuais, aumenta significativamente nos consultórios e são todas dramatizadas no contexto da relação terapêutica. Essa relação pressupõe privacidade, confidencialidade, autonomia, respeito à diversidade humana e conhecimento das novas modalidades de sofrimento psíquico presentes na realidade clínica. De acordo com Lucca (2008), as dificuldades que temos não surgem de nosso sexo, mas da maneira como assumimos nossa sexualidade, salientando que diferenças não são defeitos. São especificidades. A população brasileira, em geral, é inadequadamente educada para lidar com questões que dizem respeito à sexualidade. A educação sexual tende considerar o tema apenas em seu aspecto reprodutivo Preparo profissional Na quarta categoria, "Preparo para trabalhar com sexualidade e conhecimento", as duas questões estão na tabela 4: "Em sua opinião, o psicólogo é um profissional preparado para trabalhar com sexualidade humana?" (as respostas estão representadas por *), "Como você classifica o seu conhecimento sobre sexualidade humana?" (respostas representadas por **). Nas respostas atribuídas à primeira questão, 15 participantes responderam "Sim" e 26 responderam "Não". Isso mostra que, para a maioria dos respondentes, o psicólogo, em sua formação, não é suficientemente preparado para trabalhar com sexualidade. Esses dados vão ao encontro dos questionamentos de Dias (2000). Ele indaga se estariam os cursos de formação de psicólogos devidamente preparados para fornecer à clientela os conhecimentos básicos necessários ao exercício profissional. Também afirma que a população brasileira, em geral, é inadequadamente educada para lidar com questões que dizem respeito à sexualidade. De acordo com Carrion & Pesca (1996), tudo na vida tem suas limitações e seus preços, mas não parece adequado que, para evitar alguns problemas da sexualidade, que podem ser contornados com uma educação sexual apropriada, tente-se coibi-la, a ponto de pensar nela só em relação à reprodução. Evidentemente que reduzir o conhecimento sobre sexualidade ao aspecto reprodutivo é algo histórico e moralista, pois a diversidade das práticas sexuais, o comportamento sexual de risco, inclusive a prática barebacke (atividade que consiste em manter relacionamentos com pessoas desconhecidas, de preferência com alguém que seja HIV soropositivo, sem o uso de preservativo), as disfunções sexuais, a orientação sexual, a necessidade de orientação para prevenção e controle de doenças sexualmente transmissíveis, a sexualidade em situações de doença (como cardiopatia e diabetes), a sexualidade em situações fisiológicas (gravidez, puerpério), o abuso sexual na infância, a sexualidade na adolescência, a sexualidade na terceira idade, a sexualidade e o aborto, a sexualidade e os métodos contraceptivos, entre outros, são situações reais na prática clínica, e o conhecimento profundo e específico sobre o tema na íntegra é determinante no auxílio e no cuidado ao paciente. A sexualidade e sua prática precisam ocupar um lugar privilegiado nas discussões acadêmicas Conforme Dias (2000), o paciente que hoje chega ao consultório é alguém que, de certa maneira, tem consciência de que existem fatores que o impedem de alcançar uma vida feliz. A ajuda do psicólogo tem como meta localizar e neutralizar as variáveis que se interpõem entre ele e seus objetivos. Quando se trata de questões ligadas à sexualidade, as informações de que dispõe lhe são ainda mais evidentes. Normalmente, elas são acompanhadas ou por tabus e crendices, ou por sentimentos de incompetência baseados em vivências destrutivas ou pela vivência de uma crise de identidade sexual para a qual o paciente não possui recursos para administrar. Pode-se dizer que sexualidade é um tema amplo. A falta de incremento nos currículos de graduação e pós-graduação na formação do psicólogo limita sua atuação na prática clínica. No entanto, o que parece instigante é que a maioria das respostas dos participantes é positiva na segunda questão dessa categoria, com relação à avaliação de conhecimento sobre sexualidade. Observa-se que a classificação de 12 participantes ficou em nível médio, 10 bom, três adequado, três satisfatório e dois muito bom, demonstrando conhecimento sobre sexualidade acima do esperado. Pode-se dizer que sexualidade é um tema amplo. A falta de incremento nos currículos de graduação e pósgraduação na formação do psicólogo limita sua atuação na prática clínica Segundo Dias (2000), a questão da sexualidade, bem como de sua prática, é na sociedade brasileira um fenômeno que precisa ocupar um lugar privilegiado nas discussões acadêmicas, passando pelas preocupações e a construção de projetos na área da Saúde Pública, até a elaboração de planos de governo de cunho eminentemente político. Em consonância com o autor, é preciso desconstruir na atualidade a indisponibilidade para refletir e discutir o tema sem dificuldade, vergonha, insegurança e preconceito, inclusive no âmbito acadêmico. Referências Bardin, L. (1979). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70. Carrion, C. E.; Pesca, L. (1996). O sexo como o sexo é: mitos e desmistificação. Porto Alegre: Sulina. Costa, J. F. (2004). O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond. Dias, C. A. (2001). Considerações sobre elaboração de currículos para formação de psicólogos a partir de uma perspectiva didática. Revista Psicologia: Ciência e Profissão; 21(3), 36-49. Brasília: CFP. Freud, S. (1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas, Edição Standard Brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1996). O mal-estar na civilização. In: Obras psicológicas completas, Edição Standard Brasileira. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago. Green, A. (2008). Entrevista. Revista de Psicanálise de Porto Alegre. SSPA. Tradução: Antonio Carlos Marques da Rosa. Transcrição: Margareth Dallagmol. Revisão Técnica: Paulo Oscar Teitdbaum. Porto Alegre. Kernberg, O. F. (1995). Psicopatologia das relações amorosas. Porto Alegre: Artes Médicas. Lucca, L. A. de (2008). Analfabetismo afetivo. São Paulo: Centro de Estudos Vida & Consciência. Mcmahon, S. (2005). O terapeuta de bolso - Respostas inspiradas às perguntas mais comuns na terapia individual. São Paulo: Gente. Mezan, R. (2002). Interfaces da psicanálise. São Paulo: Companhia das letras. Orbach, S. (2000). A impossibilidade do sexo. Rio de Janeiro: Imago. Teixeira da Silva T. N. (1996). Transferências e contratransferências eróticas. O manejo das mesmas. Revista Brasileira de Psicanálise; 30:1205-22. Vitiello, N; Rodrigues J. O. M. R. (1997). As bases anatômicas e funcionais do exercício da sexualidade. São Paulo: Iglu.

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