ORIENTAÇÃO E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO ON LINE
sábado, 1 de dezembro de 2012
O melhor lugar é aquele onde você não está
O melhor lugar é aquele onde você não está?
Aílton Amélio
Poucas pessoas se permitem aproveitar os prazeres da vida. As nossas comemorações duram pouco. Logo os nossos pensamentos se voltam para outras dificuldades e batalhas que devemos enfrentar. Sempre estamos olhando para aquilo que temos que resolver ou que nos falta!
Geralmente possuímos uma espécie de lista de tarefas que devemos realizar e, assim que uma tarefa dessa lista é completada, a seguinte logo ocupa a posição da anterior e a nossa consciência. Vivemos como se pensássemos da seguinte forma: “Assim que eu me formar, quando me aposentar, se eu conseguir aquele emprego, etc., ai, sim, vou aproveitar a vida.”
Vamos analisar aqui os principais mecanismos que ajudam a explicar porque a grande maioria das pessoas só pensa em problemas e desenvolve uma necessidade insaciável pela aquisição de bens, aumentar o próprio poder e adquirir prestígio.
Você tem espaço para usufruir os bons acontecimentos da sua vida?
Para aumentar a sua consciência das doses de satisfação e insatisfação que você se permite no dia a dia responda as questões abaixo.
Você é o tipo que:
- Quase nunca está satisfeito?
- Valoriza muito pouco aquilo que já conseguiu? Por exemplo, assim que conquista o amor de uma pessoa, você logo perde o interesse por ela? Assim que compra aquele produto que desejava há muito tempo, a satisfação dura pouco e logo aparece a fissura por um novo produto?
- Você vê o copo que está preenchido até o meio como sendo meio vazio e não como meio cheio?
- Não sabe aproveitar a vida?
- Embora tenha posses ou estabilidade no emprego, você ainda se sente inseguro com o seu futuro econômico? (Sempre dá para imaginar como aquilo que você possui poderia ser perdido ou não seria suficiente para sentir-se seguro!).
- Você está sempre se sentindo culpado quando não está trabalhando?
- Você vive para trabalhar, ao invés de trabalhar para viver?
- Você tem dó de gastar dinheiro com algo que lhe trará muita satisfação, mesmo quando este gasto está dentro das suas posses e não vai lhe fazer falta? (Para usufruir das conquistas econômicas não basta ter dinheiro. Tem que saber gastá-lo).
- Você está sempre pondo em dúvida e questionando os seus méritos, motivos e pensamentos?
- Você acredita que existe um conjunto de princípios e leis sociais e psicológicas que possam invalidar a sua forma de ser, pensar e sentir?
Inimigos da satisfação com a vida
Alguns dos principais inimigos da incapacidade para usufruir aquilo que a vida oferece de bom são os seguintes:
- Inveja como filosofia de vida (“A grama do vizinho é mais verde”). A inveja sistemática anula o valor daquilo que você já tem. Ela abre as portas para a sensação de inferioridade e incompletude sem fim, porque sempre alguém vai ter algo que você não tem.
- Efeito novidade ou efeito Coolidge: o novo é sempre melhor que o atual. Por exemplo, em igualdade de condições, um novo parceiro amoroso é sempre mais atraente que o atual.
- Avareza: valorização extrema de bens materiais – a posse desses bens é mais importante que qualquer satisfação que poderia ser adquirida através da diminuição deles.
- Consumismo: a satisfação compulsiva em adquirir novos produtos. Esta satisfação é sempre fugidia porque os publicitários descobriram como estar sempre lançando inovações, quase sempre irrelevantes, mas que fazem aquilo que você acabou de comprar parecer arcaico!
- Endeusamento de critérios invalidantes. Crença injustificada que a opinião alheia, os sistemas de crenças sociais ou a ciência possam invalidar a sua forma de ser, pensar e agir.
Hierarquia de necessidades
Esta substituição continuada de uma preocupação por outra que ocorre com todos nós pode ser explicada pela teoria da hierarquia de necessidade de Abraham Maslow. Segundo este teórico, todos nós possuímos quatro níveis de necessidade que cujas satisfações têm diferentes graus de prioridade:
- Necessidades fisiológicas (básicas). Por exemplo, a fome, a sede e o sexo.
- Necessidades de segurança. Por exemplo, segurança contra perigos, segurança econômica, segurança de saúde.
- Necessidades sociais ou de amor, afeto, afeição e sentimentos tais como os de pertencer a um grupo ou fazer parte de um clube;
- Necessidades de estima. Temos a necessidade do autorreconhecimento (autoestima) e do reconhecimento por parte de outras pessoas sobre os nossos méritos.
- Necessidades de autorrealização: necessidade de realizar o nosso potencial, de nos tornarmos aquilo de melhor que podemos ser.
Essas necessidades devem ser atendidas nesta mesma ordem que foram apresentadas no parágrafo acima. Por exemplo, quando estamos dor e a nossa autoestima está baixa, aliviar a dor tem prioridade sobre recuperar a autoestima. Esta prioridade se manifesta pela presença dos assuntos que estão presentes em nossos pensamentos: quando estamos com dor só pensamos nisso e em coisas relacionadas com ela e ficamos menos sensíveis para outras coisas não prioritárias naquele momento, como a baixa na autoestima.
Quando a dor passa, os mecanismos relacionados com a autoestima podem ficar presentes com a mesma força daqueles que antes foram acionados pela dor! Outro exemplo: algumas pessoas ficam tão estressadas no trânsito, porque podem perder dez minutos, quanto o ficariam antes de fazer uma operação! Ou seja, esses mecanismos podem disparar com a mesma força independentemente do nível de necessidade não satisfeita que está presente em um dado momento!
A presença desta hierarquia ajuda entender porque assim que atendemos a uma necessidade logo surge outra e dedicamos pouco tempo para comemorações e para usufruir a vida.
Espécie resolvedora de problemas?
Durante boa parte do tempo da evolução da nossa espécie, mantermo-nos vivo não era muito fácil. A vida era cheia de perigos, éramos nômades e não havíamos inventado a agricultura e o aprovisionamento de mantimentos. Por estas razões, o tempo todo, tínhamos que ficar atentos para a presença de alimentos, abrigos e inimigos.
Por isso, talvez, a nossa espécie aprendeu que mais importante que comemorar conquistas era resolver problemas. Cada uma dessas questões diz respeito a um tipo de obstáculo que pode estar impedindo você de aproveitar as coisas boas da sua vida.
Essa insatisfação permanente que sentimos está relacionada com aquilo que os existencialistas chamavam de "angustia de viver" e é, provavelmente, uma das responsáveis pelo progresso material da humanidade. (Os nossos mecanismos psicológicos evoluíram muito menos). Cada coisa que aprendemos ou dominamos nos satisfaz por pouco tempo. Logo aparecem outras necessidades e elas se tornaram tão valorizadas quanto às anteriores. Em certos meios, essa insaciabilidade se tornou valorizada. Por exemplo, no meio científico é muito bem visto quando um pesquisador diz: “Responder essa questão, gerou outras questões.” ou “Essa pesquisa trouxe mais perguntas do que respostas.”.
Embora este mecanismo tenha sido crucial para nossa sobrevivência e ajude a explicar todo o desenvolvimento tecnológico que produzimos, ele pode tirar o prazer de viver e introduz o risco de que tenhamos nos tornados apenas um organismo especializado em resolver problemas e pouco apto para sentir os prazeres que a vida pode nos proporcionar.
O que importa mais: nossa origem e destino ou apreciar a viagem?
Duas das principais questões que os filósofos procuram as respostas são: “De onde viemos?" e "Para onde vamos?” Um humorista e bom filósofo, por sinal, contestou a importância destas questões. Segundo ele, o mais importante não é saber de onde viemos ou para onde vamos, mas, sim, ter um lugar na janelinha durante essa viagem.
Algumas pessoas mal tomam conhecimento dos prazeres simples da vida. Elas são obcecadas por metas distantes. Elas só querem chegar a algum lugar e nunca conseguem apreciar a viagem para este destino.
Não é necessário acumular bens, poder e prestígio para começar aproveitar a vida. A todo o momento, sempre existem oportunidades para usufruir os acontecimentos: uma conversa agradável, um alimento saboroso, uma paisagem maravilhosa ou algo curioso.
Para você, o melhor lugar geralmente é diferente daquele onde você está? Caso você tenha respondido "sim", procure a ajuda de um psicólogo
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