ORIENTAÇÃO E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO ON LINE





- Contato

E-mail: valderezgonsalez@gmail.com

Seguir @valderezgonsale

















































































































sábado, 14 de setembro de 2013

A pré-história é uma tremenda história

A pré-história é uma tremenda história Sérgio Rodrigues Um curioso artigo de Jennifer Vanderbes na revista The Atlantic , intitulado “O argumento evolutivo em favor da ficção de qualidade”, ganha de saída minha simpatia. Como se sabe, vivemos tempos difíceis para a tal ficção de qualidade, um tempo em que alguns de seus ex-aliados se atarefam em graves demonstrações teóricas de que a ficção está esgotada, fetichizada, transformada em mercadoria, e de qualquer modo a ideia de qualidade nunca passou de miragem ideológica, certo? Num quadro tão hostil, qualquer palavra endereçada no sentido contrário é bem-vinda para quem se recusa, talvez por pura teimosia, a abandonar a ideia de que a literatura expressa algo de vital sobre o mundo e a experiência humana que nenhuma outra linguagem pode expressar. Seja lá o que for esse algo. Convenhamos: parece melhor que a encomenda uma defesa darwinista do poder da contação de histórias que começa ao redor de uma fogueira do Pleistosceno, 45 mil anos atrás. Na verdade, o que Vanderbes faz, de um ponto de vista da psicologia evolutiva, não é muito diferente de outras defesas do papel estruturante das narrativas na forma como os seres humanos se relacionam consigo mesmos, com os outros e com o mundo. Entre aqueles bibliófilos que se recusam a assinar o atestado de óbito da literatura, muitos vêm dizendo coisas parecidas nos últimos anos. Por exemplo: que ao ouvir histórias sobre como pessoas parecidas conosco – ou muito diferentes de nós – se comportaram em tal e tal situação, adquirimos uma sabedoria que, não sendo advinda da experiência, pode aprimorar experiências futuras. Tornando-as, digamos, menos perigosas, caso a história verse sobre a caça ao mamute e contenha uma nota triste e edificante sobre como um jovem afoito fez besteira e morreu pisoteado. Isso para não mencionar o papel que as histórias transmitidas oralmente cumpriram ao fixar na memória coletiva o conhecimento acumulado por gerações sobre fatos da natureza ou da mitologia. Ou a capacidade única que as narrativas têm de desenvolver em nós a empatia, a compreensão do outro, do diferente, sem a qual só existiria a barbárie sobre a terra. Etc. O único ponto menos batido em que Vanderbes toca é também, provavelmente, o mais polêmico: a suposta vantagem reprodutiva de que teriam passado a gozar os melhores contadores de história da pré-história. Tietes ao redor da fogueira, de queixo caído e coração palpitante diante da primeira metáfora a ser enunciada no planeta, exigem do leitor uma boa vontade maior do que ele talvez esteja disposto a ter. Ou não? Na parte mais suculenta do artigo, Vanderbes garante que “uma variação que aumente a prole em apenas 1% pode se espalhar por 99,9% da população em 4 mil gerações”. Um por cento? Pensando bem, uma vantagem competitiva tão modesta talvez possa ser concedida àquele parlapatão de 45 mil anos atrás junto à sua concorrida fogueira, precursora da Flip. Com seu tom de especulação leve, quase leviana, a melhor defesa da fabulação que o simpático artigo acaba por lograr é, acredito, involuntária. Ele também só quer contar uma boa história

Nenhum comentário:

Postar um comentário