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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Abismos do vazio

Abismos do vazio Livro proibido na Escandinávia traz fábula moderna sobre crueldade e desilusão de um grupo de adolescente Gláucia Leal Nada é um daqueles livros curtos, que se lê rapidamente, talvez entre um atendimento e outro, enquanto o próximo paciente não chega. Mas não espere chegar incólume até o final, sem alguma sensação de desconforto. O livro da escritora dinamarquesa Janne Teller, uma espécie de conto contemporâneo de horror, provocante e repleto de metáforas, causou polêmica ao ser lançado há 13 anos na Escandinávia e chegou a ser banido naquele país. Hoje, traduzido para 22 países, chega a ser comparado a O senhor das moscas, de William Golding. A história começa com o início do ano letivo em uma escola de subúrbio. Em dado momento, o jovem Pierre Anthon, aluno da sétima série, levanta-se de sua carteira, após anunciar que “nada importa na vida”, que “nada tem sentido”. Abandona a escola e passa os dias sobre uma ameixeira. Adota um discurso mordaz, que atinge profundamente seus colegas e evoca questões a respeito do próprio futuro e crenças até então nunca consideradas pelos garotos. Incomodados com a situação, os adolescentes decidem provar para Pierre que a vida tem sim significados. É assim que, reunidos numa serralheria abandonada, começam a construir um amontoado mórbido de objetos e resquícios. Ao acompanhar os adolescentes se desfazerem daquilo que lhes é mais caro (incluindo os próprios cabelos, tão admirados de uma das meninas; a virgindade de outra e até um membro do corpo de um rapaz) parece inevitável ao leitor se perguntar o que é significativo para si mesmo. E mais: até onde se pode ir para combater o vazio? Diante da impossibilidade de encontrar sentidos, cortam a própria carne, a dor é banalizada, perdem a “inocência”, quebram-se as amarras dos segredos e a intimidade é duramente devassada. Já não há limites para os adolescentes ameaçados pelo vazio e prevalece a certeza de que nada tem de fato importância. Mas ainda apostam que sacrifícios pessoais ganham o “poder” de salvar o coletivo. Os adolescentes de Nada enfrentam um turbilhão crescente que desperta abismos pessoais de cada um, fazendo com que imponham uns aos outros as penas mais terríveis: desenterrar bebês mortos, matar bichos de estimação, trair as convicções mais arraigadas. E, impassíveis, assistem aos companheiros se defrontarem com o desespero, como se acompanhassem um espetáculo, do qual às vezes são plateia, às vezes são protagonistas ou coadjuvantes. Solitários em sua dor – sem adultos que venham em seu socorro ou companheiros que os protejam da própria crueldade – ao tentar combater o vazio, se perdem nele. Cada qual a seu modo, todos tocam o pior de si mesmos, ultrapassam os limites, chegam ao terreno do traumático e reeditam o horror, traçando um trajeto de ódio, no qual parece impossível não perder pelo caminho algo de sua identidade, ao depositar nos colegas a responsabilidade pela própria fragilidade. O grupo encerra a pulsão sem controle, torna-se guardião do traumático que se repete, vivo, em um após o outro dos integrantes – num movimento cruel, se fosse possível falar nesse contexto de julgamentos de valor. Porém, nesse âmbito já não há certo e errado, é urgente apenas que a pulsão, nascida entre o somático e o psíquico, se inscreva para que possam sobreviver. O que parecia acenar para vislumbres de vida leva à desagregação, ao inorgânico. Nesse processo, símbolos e vivências são dessacralizados, desconstruídos. O pedaço de pano sujo do sangue após o rompimento do hímen, o corpo do bebê morto, a imagem de Cristo crucificado, a bicicleta amarela tão desejada, o tapete muçulmano de oração, a cabeça decepada do cão dócil e indefeso brutalmente assassinado e tantos outros objetos e restos – fortemente investidos psiquicamente – passam a fazer parte da pilha macabra “de significados”. O mau cheiro é testemunha inevitável de algo que se perdeu e se decompõe. Um dos personagens, no entanto, provoca: “O que fede é a decomposição, mas quando algo está se decompondo está também se transformando em algo novo. E esse novo cheira bem. Por isso, não há diferença se algo cheira bem ou mal; é tudo parte do eterno círculo da vida”. Assim como no clássico Totem e tabu, de Freud, a horda enlouquecida só se satisfaz com o assassinato do grande pai (nesse caso da ideia revolucionária). É da carne dessa figura poderosa em sua inacessibilidade, que o grupo se “alimenta” – para, a partir daí, inaugurar outra possibilidade de civilização. O que talvez passe despercebido é que é na própria justificativa de Pierre Anthon – de que tudo é uma perda de tempo, pois todo começo anuncia a decadência e o fim – que poderia estar uma saída possível, mais saudável, menos dolorosa. Exatamente por ser frágil e fugaz, cada dia, momento ou escolha traz em si um caráter único, irredutível, precioso. E uma certeza: não dura. Ao ser percebido assim, destacado de uma cadeia de repetições mortas, o mais simples e banal dos gestos adquire características únicas. O beijo dado numa pessoa amada, por exemplo, pode mesmo, sem sombra de exagero e a qualquer instante, ser o último. Mas o fato de que algo (ou tudo) acabe não é suficiente para anular o afeto. O objeto que se foi parece carregar um tanto de nós, ao mesmo tempo que algo dele permanece. O que os jovens personagens do livro de Jane Teller certamente não compreenderam é que o que há de realmente valioso não se anula pela certeza do indefectível fim – mas prevalence na forma como se experiencia cada instante.

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