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sábado, 7 de setembro de 2013
Sucesso ou fracasso: como você provoca aquilo que acredita
Sucesso ou fracasso: como você provoca aquilo que acredita
Aílton Amélio
As profecias que outras pessoas e nós mesmos apresentamos a nosso respeito podem contribuir bastante para que aquilo que foi profetizado aconteça. Por exemplo, quando acreditamos na nossa competência para realizar uma dada tarefa, que não é fácil, mas que está ao nosso alcance, isso geralmente melhora a nossa autoconfiança e isso contribui para que tenhamos sucesso ao realizá-la.
Esse é o tema que vamos abordar nesse artigo.
Profecia autorrealizadora
Profecia autorrealizadora é aquela profecia que, quando é proferida e ouvida por pessoas que acreditam nela, aciona mecanismos que tornam mais provável a sua realização.
As profecias autorrealizadoras afetam as nossas vidas em várias áreas. Por exemplo, diversos estudos que mostraram que as crenças dos chefes de equipes de uma fábrica influenciam a eficácia dos seus subordinados e que as crenças dos professores em determinados alunos influenciam os seus desempenhos.
Outro exemplo, profetizar que um banco vai falir aumenta as chances de que isso realmente aconteça. Esse aumento nas chances ocorre quando uma quantidade grande de correntistas acredita naquilo que foi profetizado. Essa crença faz que eles corram ao banco para sacar seus depósitos e investimentos e, quando muita gente faz isso, aumenta muito as chances do banco falir porque este tipo de instituição geralmente não tem em caixa o dinheiro para pagar para todos os correntistas em um curto espaço de tempo.
Da mesma forma, aqueles que acreditam em cartomantes, horóscopo ou reza brava terão uma chance maior de obter aquilo que pediram ou foi profetizado porque tais crenças aumentam as suas autoconfianças nos resultados, dirigem suas percepções e tornam mais eficazes as suas ações para obter os resultados preditos ou pedidos. Por esse motivo, quem faz um pedido para uma entidade mágica em quem acredita ficará mais confiante que o obterá o que pediu porque conta com o auxilio dessa entidade poderosa. Essa maior confiança, por si só, impendentemente da existência ou não da existência da entidade e dela atender ou não tal pedido, focaliza a atenção do pedinte em fatos relevantes para obtenção de tais efeitos e aumenta aeficácia das suas ações. Esses efeitos no pedinte aumentarão as chances de que ele obtenha o que pediu.
Por exemplo, imagine que uma cartomante profetizou que Maria vai se casar, dentro de um ano, com um homem alto e moreno, que ela vai conhecer no seu ambiente de trabalho. Maria, que acredita neste tipo de previsão, começa a ficar atenta para homens altos e morenos que vai encontrando neste local. Essa sua atenção será percebida por esses homens como um sinal de interesse amoroso por parte dela. Essas percepções aumentam as chances de que alguns deles flertem com Maria........pronto! A profecia está começando a se realizar!
Profecia autorrealizadora sobre o progresso de estudantes
Um estudo clássico realizado por Rosenthal e Jacobson foi um dos primeiros a oferecer provas e a sugerir mecanismos para explicar a tendência para a realização das profecias autorrealizadoras (veja a nota no final deste artigo).
Esses autores aplicaram vários testes psicológicos em alunos de uma escola. Depois revelaram aos professores quais alunos de cada sala de aula tinham mais chances de progredir durante aquele período escolar.
Esses experimentadores, no entanto, não se basearam nos resultados dos testes que aplicaram para apontar para os professores os alunos que mais progrediriam. Eles, de fato, esses pesquisadores haviam sorteados tais alunos, mas mentiram para os professores que a lista de alunos foi gerada com base nos resultados dos testes.
O interessante é que no final do período letivo, os alunos apontados como mais promissores realmente tinham progredido, em média, mais do que os outros alunos.
Ou seja, o simples fato de apontar os alunos sorteados para os professores que acreditaram nos pesquisadores foi suficiente para fazer esses alunos progredirem. Esses pesquisadores observaram que durante o curso os professores não gastaram mais tempo com esses alunos do que com os outros. No entanto, a qualidade da atenção que dispensavam a esses alunos era bem melhor do que aquela dispensada para os outros. Por exemplo, as perguntas dessses alunos eram ouvidas com mais atenção!
Modelos mentais funcionam como profecias autorrealizadoras
Dois tipos de profecias autorrealizadoras que afetam todos nós são aquelas que predizem os efeitos que provocamos em outras pessoas e aquilo que podemos esperar de outras pessoas.
Boa parte desses modelos mentais é formada na nossa infância através dos efeitos dos estilos de apego de quem cuidava de nós, geralmente a nossa mãe, na nossa formação emocional e cognitiva.
Os estudiosos dos estilos de apego verificaram que os cuidadores podem ser classificados em três grupos, de acordo com seus estilos de apego: seguros, ansiosos-ambivalentes e evitativos. As crianças absorvem boa parte desses estilos de apego dos seus cuidadores e os reproduzem em seus relacionamentos amistosos e amorosos posteriores.
Segundo esses estudiosos, a forma de absorver e reproduzir esses estilos acontece através do desenvolvimento de “modelos mentais”, que são formas de sentir e pensar sobre o que inspiramos nas outras pessoas e o que podem esperar delas.
Esses modelos mentais, uma vez formados, funcionam como expectativas sobre o que inspiramos nas outras pessoas e o que podemos esperar delas.
Exemplos de conteúdos dos modelos mentais
O seguro dá um voto de confiança para si e para outras pessoas. Ele é otimista sobre os efeitos que a sua pessoa ou suas ações vão causar nas outras pessoas: ele acha que vai inspirar simpatia, cooperação, etc. Também acha que as outras pessoas geralmente são bem intencionadas. Mas, o seguro não é ingênuo. Ele confia até prova ao contrário. São aquelas pessoas simpáticas que também despertam rapidamente a simpatia de quase todo mundo.
O ansioso-ambivalente sempre acha que as outras pessoas não vão gostar dele tanto quando ele vai gostar delas. Ele é um pouco inseguro sobre aquilo que inspira nas outras pessoas e sobre a profundidade e continuidade do apego das outras pessoas para com ele. São aquelas pessoas carentes que sempre procuram agradar as outras pessoas.
O evitativo acredita que não inspira simpatia nas outras pessoas, que não pode confiar muito nelas e contar com as suas simpatias. São aquelas pessoas que encontram dificuldade para se entregarem emocionalmente e que procuram estabelecer conversas sobre assuntos impessoais.
Heteroprofecias e autoprofecias
As profecias que geram recursos para as suas próprias realizações podem ser apresentadas por outras pessoas (heteroprofecias) ou por nós mesmos (autoprofecias).
Exemplos de heteroprofecias:
"Você vai ter um ótimo desempenho na escola".
"Você não vai ser nada na vida"
Exemplos de autoprofecia
"Sou pouco persistente"
"Sou pouco atraente"
"Quando estou em um grupo de amigos, sou uma pessoa apagada".
Autoprofecias prejudiciais e equivocadas
As pessoas muitas vezes cometem o erro de usar o fracasso que tiveram em um ou em poucos empreendimentos específicos para formarem uma imagem geral, duradoura e negativa sobre elas próprias (passam a acreditar, por exemplo, que possuem deficiências em suas capacidades ou traços de personalidade negativos). Uma vez formada, esse tipo de imagem passa a funcionar como profecia autorrealizadora e acaba aumentando as chances de fracasso dessas pessoas nas ocasiões seguintes similares a aquelas onde fracassaram anteriormente . Tenho ajudado vários pacientes a reverem esse tipo de autoimagem negativa que formaram à respeito deles próprios.
Profecias explícitas e implícitas
As profecias autorrealizadoras são apresentadas de forma verbal e explicita ou de forma não verbal e implícita. As pessoas também sabem, muito bem, como expressar suas expectativas sobre nós e sobre o que esperam de nós de forma muito sutil e não verbal.
Essas mensagens sutis ou explícitas acabam influenciando as nossas crenças sobre quem somos, sobre os efeitos que provocamos nas outras pessoas e sobre o que podemos esperar delas. Essas crenças, uma vez firmadas, também acabam funcionando como profecias autorrealizadoras: elas influenciam os nossos comportamentos de modo a fazer acontecer aquilo que acreditamos.
Exemplo de mensagem verbal e explícita: “Dessa vez, você vai passar no exame. Você está muito bem preparado!”
Exemplo de mensagem não verbal e implícita: Pedrinho foi reclamar com a sua mãe sobre a dificuldade que estava sentindo para fazer a lição. A sua mãe nem olhou para ele, continuou a assistir televisão e respondeu com monossílabos. Como esse tipo de atitude da sua mãe era muito comum e acontecia em várias áreas, ele estava formando a imagem que as suas dificuldades não eram muito importantes para outras pessoas e que não podia contar com elas para ajudá-lo a enfrentá-las.
Você alimenta conclusões a seu próprio respeito que estão afetando a sua segurança e autoestima e prejudicando o seu desempenho? Procure a ajuda de um psicólogo.
NOTA
Rosenthal, R.; Jacobson, L. (1968). Pygmalion in the classroom. New York: Holt, Rinehart & Winston
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