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quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Malévola: expressões arquetípicas do feminino
Malévola: expressões arquetípicas do feminino
Releitura de A bela adormecida apresenta dicotomia entre consciente e inconsciente, partindo da perspectiva da bruxa
Logo de início de Malévola são apresentados dois reinos em guerra: Moors, onde vivem criaturas míticas, incluindo a fada que dá nome ao filme, vivida por Angelina Jolie, e o reino dos humanos. Podemos pensar que esses dois lugares representem uma divisão entre o inconsciente (repleto de arquétipos) e a consciência. O filme retrata justamente a busca da consciência coletiva pelo equilíbrio entre os opostos feminino e masculino.
Na terra dos humanos, aliás, não há uma figura feminina expressiva, não vemos rainha, e o rei apenas cita a sua filha, o que demonstra um desequilíbrio entre o feminino e o masculino. Sem esse elemento consciente não há Eros nem relacionamento com o irracional. E onde falta o amor a disputa pelo poder se instala.
O rei incorpora simbolicamente o princípio divino, do qual depende o bem-estar físico e psíquico da nação. Ele pode ser considerado um símbolo do self manifesto na consciência coletiva. Esse símbolo tem necessidade de renovação constante, compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o risco de se tornar uma fórmula morta, um sistema e uma doutrina esvaziados de significado, voltada exclusivamente para o exterior.
Por esse motivo é tão necessário escolher um novo rei para Moors. E entre os pretendentes ao trono está Stephan, jovem que foi o amor de Malévola na infância. Entretanto, ele a trai, movido pelo desejo de poder e pela ambição. E assim o elemento feminino ainda não pode ser resgatado – a unilateralidade permanece.
Como protetora de Moors, Malévola pode ser considerada a guardiã do reino do inconsciente, uma representação da anima de Stephan. Segundo o criador da psicologia analítica, Carl Jung, a anima é responsável por fazer a ligação entre o consciente e o inconsciente do homem. Ela é seu guia, seu psicopompo, uma figura arquetípica que contém todas as experiências masculinas e femininas ao longo de toda a história da humanidade – e, por meio dela, o homem pode compreender a natureza da mulher.
Quando Stephan trai Malévola, ela perde a função de guia, de ponte, e fica renegada ao inconsciente, tornando-se não diferenciada. No inconsciente, a fada ganha mais força e se volta contra a consciência unilateral, revelando aspectos primitivos de forma vingativa e amarga. A anima, que representa o aspecto da vida, volta-se então contra a atitude consciente, como um aspecto relacionado à morte. A consciência entra no estado alquímico, o nigredo, a noite escura da alma.
Nessa parte do filme surge uma mudança, e a ênfase está nos personagens Stephan, que se tornou rei, sua filha Aurora, as três fadas, o corvo Diaval e Malévola. Aparece, portanto, uma nova configuração na consciência. Antes, havia um desequilíbrio em que o masculino predominava. Agora, o feminino é predominante e mais forte.
Isso demonstra que o psiquismo sempre busca o equilíbrio compensatório por meio da enantiodromia, uma “lei” psicológica segundo a qual mais cedo ou mais tarde tudo invariavelmente se reverte em seu oposto, o que possibilita flexibilidade e aprendizado.
Nesse ponto do filme vemos uma consciência na fase matriarcal, compensando o momento patriarcal anterior, quando o feminino ferido busca vingança – e mais que isso, seu lugar de direito. Malévola, então, traída e amargurada, deixa de ser uma fada e se torna uma bruxa, a encarnação da Mãe Terrível, que se liga à morte, ruína, aridez, penúria e esterilidade.
Nos contos de fadas, a bruxa, representante dessa mãe cruel, aparece sempre acompanhada por um animal, numa referência ao seu animus, também terrível, que sempre a ajuda. No caso do filme, Malévola é auxiliada por Diaval, um corvo que se transforma em homem.
Essa ave costuma ser associada à bruxaria, magia, azar e mau presságio, mas também à fertilidade, esperança e sabedoria. Porém, o fato de o fiel companheiro se transformar ocasionalmente em homem demonstra uma semente de evolução em Malévola. Seu animus não é totalmente primitivo e, por vezes, lhe serve de consciência.
Como a Mãe Terrível arquetípica, Malévola então se volta contra a criação do rei, Aurora, e exige que lhe seja oferecido um tributo para aplacar sua ira.
Aqui vemos um tema mitológico recorrente: o do sacrifício de uma virgem. Em termos psicológicos, isso significa que para alcançar uma mudança de atitude e um avanço na consciência, antigos padrões devem morrer. Ou seja, para se chegar ao equilíbrio entre masculino e feminino, alguém deve ser submetido aos domínios da bruxa.
A princesa Aurora é a vítima escolhida. A bruxa lança sobre ela a maldição do sono da morte. Para proteger a menina, o pai a envia para longe. Afastada de suas raízes, Aurora não sabe quem é ou que está sob uma maldição.
Como é comum nos contos de fadas, a princesa perde sua mãe biológica, representante do arquétipo da Mãe Boa, e precisa conviver com aspectos maus da feminilidade. Nesse contato com Aurora, Malévola vislumbra a possibilidade conhecer o amor por meio do lugar materno. De fato, sua redenção não poderia vir pelo masculino, visto que este a traiu, mas é plausível que Aurora evoque seu lado afetuoso e a faça recordar de um tempo em que era feliz. É pela compaixão da princesa que Malévola volta a ter esperanças e a amar.
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