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domingo, 29 de abril de 2012

Em busca do próprio vôo

Em busca do próprio vôo Deixar de ser criança e passar para a idade adulta acarreta um turbilhão químico e emocional no qual o jovem procura criar uma visão autêntica de mundo e pilotar a própria vida Exemplos e apoio são, na maioria das vezes, boas escolhas para moldar um comportamento adolescente feliz. Sel- ma Correia, psicóloga e psicanalista do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa) da Universidade do Estado do Rio de Ja- neiro (Uerj), afirma que o psiquismo é regido por regras, de forma que o homem vai, ao longo do tempo, introjetando a lei. Esse processo começa na infância e dá-se por meio da referência. Se- gundo Selma, essa referência pode ser os pais ou, por exemplo, uma instituição, caso a criança seja criada em abrigo. Na verdade, a representação vai ser obtida a partir do responsável que cuida dela. “A criança quando pequena quer mexer na tomada, ir à janela; os responsáveis é que dizem o que pode e o que não pode ser feito. Nós não podemos realizar tudo o que desejamos, a socie- dade é regida por normas e desde sempre estamos atrelados ao sim e ao não”, diz Selma. Essa relação, estabelecida entre os pais e a criança desde muito cedo, é determinante no de- senvolvimento futuro do adulto. Pesquisas realiza- das sobre os cuidados dispensados pelos pais a seus filhos mostram que tanto a permissividade quanto o autoritarismo são perniciosos nesse contexto. Em artigo que ainda aguarda publicação no periódico Journal of Adolescence, estudiosos australianos exa- minaram os efeitos de tais cuidados sobre a saúde mental de adolescentes e concluíram que há uma associação significativa entre saúde mental pobre e cuidado parental inadequado, nos casos em que a criança relata pouco cuidado por parte dos pais e/ou um excessivo controle a partir deles. De acordo com Rigby, Slee e Martin, autores do estudo, pesquisas anteriores já haviam iden- tificado duas dimensões de particular relevância nesse contexto, relacionadas aos vínculos estabe- lecidos entre pais e filho. “Tem-se, em primeiro lugar, o cuidado parental refletido na afetividade, empatia e intimidade emocionais, em oposição à frieza, indiferença e negligência. E, em segundo lugar, o controle parental, demonstrado quando os pais são super-intrusivos, controladores e fa- zem contatos excessivos, conseqüentemente infantilizando a criança e impedindo o desenvolvi- mento da independência e da autonomia.” Após avaliarem 1.216 crianças, entre 12 e 16 anos de idade, os pesquisadores concluíram, ainda, que crianças que não vivenciaram rela- ções mais íntimas, sem que haja confiança entre pais e filhos, têm maior probabilidade de apre- sentar baixos níveis de segurança e auto-estima, o que pode levar a estados difusos de ansiedade e depressão futuramente. E o autoritarismo, por sua vez, pode exacerbar estas condições. Médico de adolescente A Hebiatria é a especialidade voltada àqueles que não são mais crianças. Começou a ganhar corpo na década de 50 nos Estados Uni- dos e na Europa. No Brasil, existe desde 1974 no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência é o período entre os 10 e 20 anos de idade. Seu nome faz refere- rência à deusa grega da juventude Hebe: filha de Zeus e Hera. Etimologicamente a palavra Hebiatra é formada pelo antepositivo Heb+ o pospositivo iatra. Heb(e), do grego – hêbé,és – juven- tude, adolescência; vigor da mocidade e iatra, do grego – iatrós, oû – ‘médico’, com interferência do francês –iatre. Conflitos de Geração O conflito entre pais e filhos, nessa fase da vida, no entanto, não deve ser visto neces- sariamente como um problema. Na opinião do médico José Augusto Messias, professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj e diretor do Nesa, muito mais do que um conflito, o que existe é um desenvolvimento conjunto do adulto e da criança para que essa criança, ao virar um adulto, consiga atuar da maneira mais eficaz possível naquele contexto em que ela vive. Para ele, esta relação vai muito além de uma disputa de autoridade e acaba reapresentando “uma tensão, tanto da criança púbere, que- rendo a independência, uma vida autônoma, quanto da família”. O médico entende a fa- mília como basicamente pai e mãe, família nuclear, ou aquele grupo que cria a criança no período de transformação para a adoles- cência, tendo a necessidade de proteger, de cuidar, e que mostra medo de soltar o adoles- cente, expondo-o a riscos desnecessários. Ele afirma, ainda, que muitos problemas são conseqüências dessa relação de gerações. Problemas que se encontram em extremos, como a violência e os transtornos alimenta- res, freqüentes na mídia, também têm bases nos conflitos de geração. “No fundo essa tensão vai estar entre a lógica da autonomia, e não da independência, pois a gente nunca fica independente das nossas circunstâncias e a maior circunstância que temos é a famí- lia ou seu substituto. Isso é uma perda e, às vezes, é difícil para adultos terem essa noção com muita clareza, de que para fazer apren- der é preciso libertar”, defende. Selma Correia acrescenta que atualmente os pais têm encontrado mais dificuldade em educar. A psicóloga afirma que “educar é um ato de insistência, pois quando os pais dizem não, o adolescente insiste, e então, muitas vezes, os pais cedem”. A especialista, que trabalha com adolescentes e com as famílias, diz que “os pais queixam-se muito, lamentam que os filhos não consigam escutá-los e, certamente, isto acontece porque os pais também não escutam os filhos”. Ela lembra que a ruptura é inevitável e acontece de duas formas. “Uma é a ruptura necessária para o crescimento, portanto, positiva.” Já a outra é uma ruptura “de agressividade, de não querer saber, que gera brigas familiares”. A psicóloga diz que quando essa ruptura negativa acontece, “deve-se procurar ajuda especializada para que seja reparada. É um trabalho árduo, mas possível”. É importante a presença de um especialista para ser intermediário, já que ele não vai entrar na questão de quem está certo ou errado, mas cuidar do sofrimento psíquico. “O profissional vai tentar localizar onde estão os pontos de conflito na relação e mostrar a necessidade de uma negociação entre pais e filhos. Cada um tem que dar um passo para trás, senão um lado acha que está certo, e o outro também”, diz. Vida sexual Por mais difícil e tumultuada que seja a relação entre pais e filhos, é fundamental que um diálogo franco entre ambos seja estabelecido nessa fase da vida. Diversos estudos indicam que são exatamente os pais, direta ou indiretamente, aqueles que mais influenciam as tomadas de decisão dos adolescentes. O próprio comportamento sexual do adulto em formação é atravessado pela presença ou ausência da figura parental. Após analisar 1.083 crianças entre 13 e 17 anos de idade, estudo norte-americano conduzido na cidade de Oklahoma concluiu que a comunicação familiar aumenta a probabilidade do jovem manter-se em abstinência, limitar o número de parceiros e praticar sexo seguro. “Por exemplo, se os pais falam aos seus filhos que eles se amaram entre si na juventude e que lhes desejam o melhor, eles então têm menos chances de ter mais de um parceiro sexual. Igualmente, se eles tiverem aprendido em casa sobre métodos contraceptivos e como dizer não, e se os modelos de regras estabelecidos pelos adultos encorajam a abstinência, eles também terão mais chances de ter apenas um parceiro”, afirmam Cheryl Aspy, da University of Oklahoma Health Sciences, e colegas, em artigo que também aguarda publicação no Journal of Adolescence. Educar é um ato de insistência, pois quando os pais dizem não, o adolescente insiste, e muitas vezes, os pais cedem Sempre alerta: o desenvolvimento moral engloba o contexto das vivências e experiências do indivíduo Para os autores, a comunicação entre pais e filhos é fundamental. “Nossa conclusão é de que os pais têm a oportunidade e a capacidade de influenciar as decisões no que tange ao comportamento de seus filhos”. Moral: anterior à adolescência Um importante conceito ajuda que a entender o mecanismo da sociabilidade e da própria formação humana é a moral. Juntamente com outros valores, a moral vai formar essas normas que regem a sociedade. João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira de Filosofia, professor do departamento de Filosofia da Uerj e doutor em Filosofia, Letras e Ciências Humanas pela Universidade de Paris I – Panthéon – Sorbonne, ressalta a importância deste valor. “Há uma frase muito famosa do filósofo alemão Kant, um dos grandes nomes do Iluminismo, que diz que há duas coisas fundamentais: ‘o céu estrelado fora de mim e a lei moral dentro de mim’. Então, para a Filosofia a moral é uma base, é um dos fundamentos mais importantes”, diz. O filósofo define moral como “a prática da sociedade, tanto da sua quanto das outras sociedades, com variações de cultura, de etnia, de civilização. A moral é tudo aquilo que é praticado por determinado grupo social ou pela sociedade. E que representa um conjunto de valores, de costumes que vão organizar o relacionamento das pessoas, o inter-relacionamento. Isso é formado ao longo do tempo por certo consenso do que é permitido, do que não é permitido, do que é aceito, do que não é”. Todo adolescente tem duas características que poderiam transformar-se em perigo iminente: a irresponsabilidade e a ingenuidade Outro filósofo, pós-doutor pela Universidade Autonoma de Barcelona, Miguel Angel García Bordas, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) revela que “quando se fala em personalidade moral, fala-se daquele tipo de comportamento que observa, cuida e promove atitudes e hábitos, de acordo com certa tradição ou costumes de uma cultura determinada. Por outro lado, falamos de personalidade imoral quando esta atenta contra esses contextos de uma ou várias culturas determinadas”. Bordas diz que o desenvolvimento moral de um indivíduo “é uma atividade familiar, social, política, ou seja, de tudo o que configura o contexto de vivências e experiências do indivíduo. É uma responsabilidade de todos os que formam o contexto e o ambiente em que os indivíduos ‘moram’ ”. Papo de irmão Pesquisadores de Durham, um condado da Inglaterra, inovaram na investigação comportamental de adolescentes. Em vez de estudarem os “pares”, ou seja, o grupo social que se estabelece fora do ambiente familiar, buscaram extrair o que discutem irmãos adolescentes e comparar ao conteúdo gerados nas conversas em rodas de amigos, fora de casa. Mais que isso, estavam interessados nos benefícios que as conversas entre irmãos adolescentes, com a intervenção de pais e educadores, podem gerar para o comportamento do adolescente em objetivos específicos. Corinna Jenkins Tucker e Abby Winzeler, da University of New Hampshire, publicaram os resultados do estudo em artigo no Journal of Research on Adolescence de março de 2007. Segundo os autores, durante a adolescência, quando o jovem está desenvolvendo atividades e relacionamentos fora da família, formando uma identidade e fazendo escolhas sobre seu futuro acadêmico e profissional, ele pode voltar-se para outros com os quais se sinta próximo para receber ajuda buscando vencer estes desafios. A pesquisa investigou o primeiro e segundo filho de 21 famílias que completaram um diário durante sete dias consecutivos. Tanto a freqüência da conversa quanto a percepção sobre suas competências escolares, atléticas e em grupo foram exploradas, já que “irmãos mais freqüentemente conversam sobre atividades extracurriculares, mídia e atividades escolares”, dizem os autores e completam: “em menos de 10% do tempo os outros tópicos como amigos, família, alimentação e imagem corporal foram o foco da discussão.” Os pesquisadores afirmam que a extensão do tempo em que irmãos discutem atividades extracurriculares, mídia e atividades escolares está conectada à percepção que os adolescentes têm de sua competência, sendo que ressaltam, do ponto de vista psicológico científico, “a discussão focada no relacionamento entre irmãos como um importante contexto para o desenvolvimento do adolescente”. Finalmente, atestam a importância desta relação para o desenvolvimento fora do âmbito familiar: “a relação entre irmãos é um contexto para o desenvolvimento, no qual adolescentes aprendem sobre emoções, regras sociais, normas de conduta e estratégias de comunicação.” De acordo com os filósofos, a moral é anterior à adolescência. Ela começa a ser constituída bem cedo. Moderno afirma que na adolescência ela “continua para o bem e para o mal, de forma que não se pode esperar uma boa adolescência se a formação primeira não foi boa”. Mesmo assim, ele ressalta que a adolescência é o período mais complexo do desenvolvimento do homem, pois o processo de socialização já está mais avançado. Ele destaca que o adolescente “vai confrontar aquilo que ouviu da família com o que vê na rua, no colégio, na mídia, começa a ter muita informação, e vai ter que processar tudo isso. Então, mais do que nunca, a família que quer dar uma boa formação, vai continuar neste diálogo para tentar evitar desvio moral”. Puberdade x adolescência É comum haver confusão entre leigos do que é adolescência e do que é puberdade. Freqüentemente estes dois assuntos são encarados como similares. No meio acadêmico, por exemplo, as definições são diferentes. O que se sabe é que adolescência e puberdade são temas distintos e ambos merecem muita atenção. Silvana Martani, psicóloga clínica da Clínica de Endocrinologia e Metabologia do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e autora do livro Uma Viagem pela Puberdade e Adolescência, explica que geralmente a puberdade acontece dos 8 aos 13 anos, e a adolescência dos 14 aos 18 anos, de forma que “a puberdade é um rito de passagem da infância para adolescência”. No início da puberdade, a criança fica mais deprimida, irritada, chora muito porque vive um luto da infância A psicóloga afirma que muitas vezes, no início da puberdade “a criança fica mais deprimida, irritada, triste, chateada, chora muito porque vive um luto da infância. Esse rito é inconsciente, ela tem essa idéia de que as coisas que viveu não voltam mais, mas não sabe o que sente”. Essa idéia de luto, conforme afirma Silvana, está presente não apenas na puberdade, mas também em todas as fases da vida. Portanto, o luto faz parte da adolescência também. “É nesta fase que o indivíduo faz um exercício diário da ‘adultez’; ele vai estruturar padrões”, destaca. Para José Augusto Messias, a puberdade é um fenômeno físico e que é comum a todos os seres humanos, salvo raras exceções relacionadas a doenças. Segundo ele, é difícil precisar exatamente quando a puberdade começa e termina, mas existem marcas físicas de identificação. “Na menina existe uma marca que é a primeira menstruação, a menarca. Quando ela menstrua a primeira vez, o ovário já está devidamente estimulado a produzir óvulos, e ela começa a entrar no período fértil da sua vida. Essa é uma marca clínica que tem um antecedente de algum tempo, 12, 15, 18 meses, um período passado que não é rígido, em que o organismo começou a produzir algumas substâncias a partir de estímulos centrais cerebrais na hipófise, da junção desta com hormônios da supra-renal nos ovários que fazem com que aquele organismo seja capaz de produzir um óvulo maduro, que pode ser fertilizado por um espermatozóide. Então esse fenômeno é o que se chama de puberdade”, afirma Messias. Da mesma forma, o professor exemplifica a transformação no sexo masculino. “No menino isto é mais sutil, porque essa mudança é mais ‘espalhada’ ao longo do tempo, que é relativamente curto, tem duração de 6 meses a 1 ano.” Segundo ele, existe o primeiro sinal de que houve um amadurecimento, chamado de início do amadurecimento físico da puberdade, que é o crescimento denominado estirão pubertário. “No entanto, antes do aparecimento desta marca, já estavam ocorrendo mudanças. Se for feita uma dosagem dos hormônios no sangue, será notado que, um ou dois anos antes desse fenômeno, já é possível encontrar mudanças hormonais”, completa. A fase final da puberdade pode ser encarada como “subjetiva”, como diz o médico. Mesmo assim, ele afirma que ainda existem marcas físicas que possam indicar um término, por exemplo, “a fusão completa de um pedacinho dos ossos que nós temos, que garante nosso crescimento longitudinal, a chamada fusão das cartilagens de conjugação (nome técnico). Quando isso vira definitivamente osso, é uma marca de que acabou o crescimento, ou seja, o adolescente, do ponto de vista físico, é um adulto, aquela estrutura daquele momento vai persistir pelo longo da vida”, explica. Os normais A Síndrome da Adolescência Normal (SNA) é um conjunto de “sintomas” característicos da fase da adolescência, que embora se apresente como universal há características bastante peculiares, conforme o ambiente sócio-cultural do indivíduo, não sendo possível estabelecer seu início e término precisos, acreditando- se, todavia, que culmina com o estabelecimento da identidade pessoal. Busca de si mesmo e da identidade A tendência grupal Necessidade de intelectualizar e fantasiar Crises religiosas A vivência do tempo A sexualidade Atitude social reivindicatória Condutas contraditórias Separação progressiva dos pais Constantes flutuações do humor Plano de Vida Segundo Messias, a adolescência é, por outro lado, uma questão acima de tudo de “natureza social, cultural, comportamental e que apresenta uma série de outros determinantes, que podem ter, ao longo do seu desenvolvimento, nuances próprias”. Ele revela que de forma conceitual “a adolescência é o período em que aquela pessoa vai de alguma maneira desenvolver-se e conseguir sair do pensamento concreto infantil para um pensamento abstrato. Abstrato como: ‘eu vou querer fazer isso, daqui a algum tempo terei capacidade para’, ou seja, ela muda do pensamento concreto, que é característica da criança, para o pensamento abstrato, que é juntar informação, criar uma idéia e projetar isso no tempo. Em outras palavras: a capacidade de fazer um plano de vida”, afirma. No entanto, essa passagem não tem limites precisos. De forma que “é comum vermos pessoas que, em determinados momentos, já se comportam como adultos, e em outras circunstâncias ainda podemos identificar um comportamento um tanto infantil”, diz. Encontros amorosos Pesquisas preocupam: jovens confessam usar comportamentos abusivos nos relacionamentos Aguardando publicação no Journal of Adolescence, um estudo pioneiro do Canadá mostra um percentual alto de violência física, psicológica e sexual nos chamados encontros de relacionamento (românticos) entre jovens adolescentes. Os pesquisadores Sears, Byersa e Price do departamento de Psicologia da University of New Brunswick investigaram 633 estudantes brancos (309 meninos e 324 meninas) entre 12 e 18 anos, que moravam com os pais. Entre outros testes, eles foram submetidos a questionários que avaliam o comportamento com violência sexual, física e psicológica contra meninos e meninas durante encontros românticos e o sentimento de medo que eles apresentam com relação à violência da própria família. Outro item investigado foi se eles tinham amigos que costumavam praticar abusos sexuais. No acerto final, estas variáveis foram contempladas. “Os meninos foram questionados sobre o comportamento de seus amigos durante encontros com meninas e as meninas sobre o comportamento de suas amigas em encontros com meninos”, dizem os autores, explicando que as perguntas eram as seguintes: “algum de seus amigos alguma vez bateu ou feriu fisicamente a (o) namorada (o)?” e “algum de seus amigos forçou a (o) namorada (o) a fazer sexo?” Os resultados preocupam: segundo os próprios adolescentes do sexo masculino, “35% deles usaram comportamento psicológico abusivo nos relacionamentos; 15% foram fisicamente abusivos e 17% sexualmente abusivos”, dizem os pesquisadores no artigo. Já quase a metade das meninas – 47% – disse ter tido comportamento psicológico abusivo, 28% abusaram fisicamente e 5%, sexualmente. Entre as causas destes comportamentos figuram os costumes adquiridos, a família e o grupo de amigos. A pesquisa aponta que meninos são tradicionais em relação aos papéis femininos, ou seja, que aceitavam como normal o uso masculino destes três comportamentos abusivos em encontros, que tinham amigos que assim se comportavam e que tinham medo da violência familiar também predominaram em atitudes violentas física, psicológica e sexual nos encontros românticos. Esses fatores, exceto a visão sobre os papéis femininos, antecipam comportamentos similares também em meninas. Entretanto, “meninas que aceitavam menos o uso de violência física em encontros e que experimentaram abuso psicológico em encontros foram mais propensas a usar comportamento psicológico abusivo, mas não violência física na relação”, dizem os psicólogos, salientando que o estudo “é o primeiro a avaliar a co-ocorrência em meninas e meninos do comportamento abusivo físico, psicológico e sexual nos encontros”. Quanto mais baixa a auto-estima do jovem, maior a chance de se expor a perigos e se arriscar Essa imprecisão quanto ao grau de maturidade do adolescente é identificável também na percepção que ele próprio tem de si, questão diretamente relacionada às suas experiências – não necessariamente positivas. Indivíduos que, por exemplo, já tiveram um relacionamento com parceiros mais velhos, já iniciaram sua vida sexual, fumam e/ou apresentam alto uso de álcool e outras drogas, parecem ter uma tendência a se sentir mais velhos que seus colegas que não o fizeram. Essa foi a conclusão de um estudo canadense com 664 adolescentes entre 12 e 19 anos, que identificou uma relação linear entre a experiência subjetiva da idade e a idade cronológica. De acordo o artigo sobre a pesquisa, outro no prelo do Jounal of Adolescence, “os resultados sugerem uma discrepância crescente entre a experiência subjetiva da idade e a idade cronológica ao longo dos anos da adolescência, de acordo com a maneira com que os jovens experimentam as mudanças normativas associadas à idade”. Embora a adolescência seja um período de transformações, nem sempre elas serão negativas, já que nem todos os adolescentes arriscam-se, como explica Silvana Martani. “Os adolescentes que viveram com boa estrutura emocional dificilmente vão achar graça em expor-se a perigos; crianças desestruturadas que vivem conflitos é que precisam testar. Quanto mais baixa a auto-estima maior a possibilidade de arriscar-se em situações que servem como alimentadores: quando o adolescente se expõe e vence, então passa a pensar ‘como sou bom’. Porém, se não vence, pensa ‘como sou uma porcaria’. A auto-afirmação vem de fora para dentro; ele precisa, por meio de situações externas, auto-afirmar-se”, revela. Quando mantêm diálogos com seus filhos, os pais têm a oportunidade e capacidade de influenciar suas decisões O filósofo Miguel Bordas lembra que “o comportamento humano é influenciável e, inicialmente, a moral não é autônoma, é heterônoma, ou seja, baseada na orientação e contexto ‘dos outros”. Ele acrescenta que “infelizmente nas nossas sociedades muitas vezes não registramos nem observamos cotidianamente exemplos do que seja altruísmo ou comportamento moral, e os indivíduos agem somente de acordo com seus interesses, atropelando o espaço dos outros”. Para ele, o grau de altruísmo poderia ser um bom indicador de moralidade, assim como o grau no qual as atividades são desenvolvidas, respeitando-se o espaço público e o privado, os interesses públicos e os privados. “Trata-se da construção do sujeito, do indivíduo moral, partindo de um processo de identificação – processos identitários ou de identificação ou filiação – educação e compromisso com os membros da comunidade a que o indivíduo supostamente deva integrar-se. Isto é o que podemos entender como processo de socialização, civilização ou moralização.”

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