ORIENTAÇÃO E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO ON LINE
domingo, 29 de abril de 2012
Já para o inconsciente!
JÁ PARA O INCONSCIENTE!
Como Freud criou a teoria do recalque, quais repercussões deste mecanismo em nossas vidas e como ele é registrado nos consultórios na relação analista-analisando
Por Ana Lucilia Rodrigues
Tal como na noite do inconsciente, ontem e hoje sobrepõem-se parcialmente, o que estava morto retorna à vida, a memória tem melhor sorte que o esquecimento. É na memória que me ocorre uma passagem sobre Sigmund Freud, o criador da Psicanálise, o instaurador da terceira ferida narcísica com o conceito de in- consciente, ao lado de Copérnico e Darwin: "Entre as 23 horas e duas da manhã, Freud estrutura, imagina, pesquisa, intui, constrói, compõe, fixa no papel suas idéias, suas intuições, suas leituras, sua experiência clínica, seus sonhos. Desde a juventu- de, seu desejo mais caro é o de perturbar o sono do mundo."
Só poderia ser ao final do dia que Freud se sentaria em seu consultório para escrever, colocar em curso sua obra, após haverem passado por seu divã vários registros da condição humana ao mesmo tempo, assim como sonhos, silêncios, o possível, o impossível e todos os espelhos do "eu" inquietantes e familiares. Foi desta maneira que pouco a pouco, ora como um "vidente" ou como "um mestre visual", tentava formar "cartas geográficas" cada vez mais detalhadas do aparelho psí- quico. Deixou um legado de formulações, de engrenagens, de esboços, de contribuições, de ensaios, de observações... Assim como revelam claramente os títulos de seus artigos. Ja- mais propôs aos seus leitores um entendimento dogmático de sua obra; ela se assemelha muito mais a um canteiro, sempre aberto sujeito às investigações que estão sempre em curso.
Pequeno glossário
Pulsão: termo surgido na França em 1625, derivado do latim pulsio, para designar o ato de im- pulsionar. Empregado por S. Freud a partir de 1905, tornou-se uma grande conceito da doutrina psicanalí- tica, definido como a carga energética que se encontra na ori- gem da atividade mo- tora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem.
Recalque: na linguagem comum, a palavra recalque designa o ato de fazer recuar ou de rechaçar alguém ou alguma coisa. Para Freud, o recalque de- signa o processo que visa a manter no inconsciente "todas as idéias e representações liga- das às pulsões e cuja realização, produtora de prazer, afetaria o equilíbrio do funcio- namento psicoló- gico do indivíduo, transformando-se em fonte de des- prazer". Freud, que modificou diversas vezes sua definição e seu campo de ação, considera que o re- calque é constitutivo do núcleo original do inconsciente. No Brasil também se usa recalcamento.
Regra fundamental: regra constitutiva da situação psicanalíti- ca, segundo a qual o paciente deve esforçar-se por dizer tudo o que lhe vier à cabeça, principal- mente aquilo que se sentir tentado a omitir, seja por que razão for.
Resistência: termo empregado em Psicanálise para designar o conjunto de reações de um paciente cujas ma- nifestações, no con- texto do tratamento, criam obstáculo ao desenrolar da análise.
A tal ferida narcísica é imputada quando Freud mostra à humanidade que o "eu não é mais senhor de sua morada, isto é, a consciência deixa de ser o lugar da verdade e passa a ser o lugar da mentira, do ocultamento, da distorção e da ilusão". A subjetividade do sujeito passa a ser fundada pela instância do inconsciente, assim os dois grandes sistemas - inconsciente e consciente - dividem a mes- ma morada, ora como um par de cavalheiros que vivem em formação de compromisso, ora como dois guerreiros tentando conquis- tar o território só para si. Estes cavalheiros ou guerreiros seriam metaforicamente os dois princípios que regem o funcionamento do psíquico. O primeiro tem como objetivo proporcionar prazer e evitar desprazer, sem entraves, sem limites, e o segundo modifica o primeiro, impondo-lhe restrições necessárias à adaptação à realidade externa por meio do recalque das pulsões - os impulsos orgânicos e desejos inconscientes - regidas pelo princí- pio do prazer, que exige satisfação imediata.
Para os animais, o sexo é da ordem do natural, já para os homens as exigências de ordem social substituem a natureza do instinto sexual
Mas Freud nos diz em seu artigo Além do Princípio do prazer (1920): "A rigor, entretanto, devemos dizer que é inexato falar de uma domi- nação do princípio do prazer sobre o curso dos processos psíquicos. Se tal dominação existisse, a imensa maioria de nossos processos psíquicos seria acompanhada de prazer ou conduziria ao prazer; ora, a experiência mais genérica contradiz flagrantemente essa conclusão. Por isso, deve-se admitir o seguinte, existe no psiquismo uma forte tendência para o princípio do prazer, mas algumas forças ou condições opõem-se a ela, de modo que o desfecho nem sempre pode corresponder à tendência para o prazer."
As pulsões são de natureza sexual e por isso empregou um termo vindo do latim para referir-se a elas: libido (significa las- cívia, desejo, luxúria). O inconsciente é o reservatório primitivo da energia psíquica o que levou Freud a afirmar que a sexualida- de não se reduz ao ato genital, mas envolve todos os desejos que pedem satisfação e que podem ser realizados em qualquer parte de nosso corpo ou na totalidade dele. Como poderiam ser satisfeitos estes desejos que inun- dam o ser humano desde o deu nascimento?
Vamos partir da afirmação feita inicial- mente pelos filósofos "o homem é um animal desnaturado", e posteriormente por Freud, "é sim afetivo". O que significa este desna- turamento no animal humano? Dizer que o homem é um animal político ou um animal tomado pela linguagem é dizer que na huma- nidade a natureza foi substituída pela cultura.
Podemos, assim, constatar que para os animais, não há nenhum inconveniente em fazer amor com os pais, com os irmãos e irmãs. Portanto, o sexo seria da ordem do natural. No caso dos homens, as exigências de ordem social substituíram a natureza do instinto sexual. Há, na Psicanálise, a presença constante da família que é uma instituição social, porque nela existe uma interdição.
Se nos apropriarmos do conceito da lin- güística, utilizado por Lacan, de metáfora que é a substituição de uma frase por uma palavra, podemos dizer que a cultura meta- foriza a natureza. A cada função da natureza, damos um significado cultural. Um filho é um fato biológico, mas por outro lado é um dever assegurar seu nascimento cultural. Tal produto biológico deve ser declarado ao Es- tado como a produção de um humano, deve ter uma identidade, como também símbolos próprios: quem é o pai, quem é a mãe. As- sim, um fato da natureza, um nascimento, deve ser metaforizado cultural e socialmente. A metaforizarão do sexo também seria um problema a ser discutido, pois como pode uma pessoa ter um sexo biológico e um psí- quico que não se correspondem? Bem esta questão ficará pra um outro momento.
O recalque sempre retorna, manifesta-se de outra maneira por meio dos lapsos, atos falhos, wits, nos sonhos e sintomas
Freud, entretanto, não fala em coação social, mas em Verdrängung (recalcamento ou recalque), um dos conceitos de maior importância quando nos referirmos a metapsicologia freudiana. Tal conceito difere de repressão social, mas supõe haver uma censura, uma barra que impediria o inconsciente de aparecer ao nível consciente.
O recalque ou recalcamento para Freud sempre retorna, manifesta-se de outra maneira, por meio dos lapsos, atos falhos, witz, nos sonhos e sintomas. Em seu livro A Interpretação dos Sonhos, o recalcamento não é a coação de qualquer instância, mas algo misterioso, que atrai o inconsciente, as idéias, as palavras e, ao mesmo tempo, faz o sujeito esquecer. Utiliza a teoria da cultura não para dar uma visão geral da cidade ou do Estado, mas para entender o que se passava na teoria analítica. O recalcamento não aparece segundo Freud na cultura, mas sim utiliza a "sublimação". Por que aplica este último conceito e não o primeiro quando trata dos objetos da cultura? Certamente, por não pensar num esquema como o sexo ser recalcado pelo "social". Faz uma outra construção. Vai dizer que a Trieb, isto é a pulsão sexual, tem o sexo por objeto, que pode satisfazer-se com outros objetivos da cultura. Não é o mesmo que fazer sexo o tempo todo, ou escrever em busca do tempo perdido como Proust, que procurava o tempo que perdeu fazendo amor. Os objetos da cultura substituem os puramente sexuais. Lacan vai dizer: "Não estou fazendo amor, estou falando a vocês". E falar a vocês pode dar-me o mesmo gozo que fazer amor. Se não fosse assim seria incompreensível que tanta gente perdesse tanto tempo com os objetos da cultura, tais como fazer ou escutar filosofia, fazer e ver esculturas ou escrever um texto para vocês leitores, na tentativa que o apreciem, e vocês leitores, gastando tempo nesta leitura. O conceito de sexualidade em Freud é novo porque tem um componente essencial: que a sexualidade pode satisfazer-se com palavras, com o belo, com os valores da cultura.
Segundo Lacan o gozo sexual pode satisfazer-se com o significante e, por esta razão, a psicanálise é possível. O conceito de sexualidade na psicanálise não está ao nível da natureza, não se trata de um instinto, pois se assim fosse não poderíamos compreender a Trieb, obtendo satisfação através da cultura. Não é recalcamento o termo que Freud utiliza na cultura, mas sim "sublimação" que substitui o desejo sexual. Mas o termo recalcamento ou recalque seria utilizado por Freud na constituição do sujeito? Será que este sujeito constitui-se através do recalque ou recalcamento?
Proponho agora acompanharmos junto a Freud - já que sua obra, como disse anteriormente, é um "canteiro aberto" -, seguirmos passo a passo os rastros deixados por ele na construção do conceito de Verdrängung (recalcamento).
Em 1915, recalque indica o conjunto de manobras mentais destinadas a excluir da consciência um desejo instintivo
Em julho de 1914 tem início a I Guerra Mundial. Menos de três meses depois, Freud inicia a redação de uma série de textos com vistas na revisão de sua produção teórica, na tentativa de empreender uma grande síntese. Apesar do desânimo, dos acessos de apreensão, aqueles anos de agitação e angústia trouxeram conseqüências benéficas para seu trabalho. Lamenta-se a Lou Andréas-Salomé, sua discípula, em julho de 1915: "Muitas vezes sinto-me tão sozinha quanto nos primeiros dez anos, quando havia um deserto em volta de mim. Mas eu era mais jovem e ainda dotada de uma energia ilimitada para resistir". Tal estado de solidão era provocado pela falta de seus discípulos, quase todos convocados para a Guerra, assim como seus pacientes. Era destes últimos que obtinha o "estímulo" necessário que acionava geralmente o mecanismo de suas teorizações.
Freud passava por duas guerras, a mundial e a particular, iniciada pouco antes, envolvendo ele e seus primeiros dissidentes, Adler e Jung, que ameaçavam romper a unidade da recém fundada Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
Freud aproximava-se de seus sessenta anos e, por motivos que não se tornam claros, acreditava que iria morrer dentro de no máximo dois anos. Tal profecia freudiana não se realizou, o grande mestre da Psicanálise morreu aos 83 anos em 1934.
Em função de tais idéias, empenhou-se na elaboração de uma síntese da teoria psicanalítica, deixando um legado para a posterioridade, que constava ao mesmo tempo de um esclarecimento da teoria e um aprofundamento de suas hipóteses fundamentais. Essa síntese forma um conjunto de artigos, doze ao todo, que tiveram como títulos gerais Preliminares a uma metapsicologia.
Teoria do trauma e Ab-reação
A teoria do trauma psíquico vai ter profunda repercussão sobre os escritos iniciais de Freud e, paradoxalmente, vai constituir-se no impedimento maior à elaboração da teoria psicanalítica. Enquanto persistir a teoria do trauma, a sexualidade infantil e o Édipo não poderão fazer sua entrada em cena, posto que nela os sintomas neuróticos permanecem dependentes de um acontecimento traumático real que os produziu e não das fantasias edipianas da criança. Levando- se em conta a teoria do trauma, suas causas são inconscientes para o paciente, o método para eliminar os sintomas consiste em dar a ele, sob hipnose, uma sugestão que remova o distúrbio.
Esse procedimento porém só eliminava o sintoma, mas não removia a causa. Freud propõe, então, que se empregue um método elaborado por Joseph Breuer e que consistia em fazer o paciente remontar, sob efeito hipnótico, sua história psíquica da doença a fim de localizar-se o acontecimento traumático que originou o distúrbio. E com o caso da paciente Anna O. (Bertha Pappenheim), que Breuer submete à hipnose e verifica que os sintomas desapareciam sempre que o acontecimento traumático ligado a ele era reproduzido por hipnose. Após dois anos de tratamento, todos os sintomas de Anna O. haviam desaparecido.
Freud acrescenta uma novidade à técnica empregada por Breuer, enquanto este permanecia passivo diante da torrente de fatos narrados pela sua paciente. Freud passou a empregar a sugestão diretamente como método terapêutico. Assim a hipnose era empregada para chegar- se aos fatos traumáticos - tal como o fazia Breuer - mas, uma vez esses fatos tendo sido identificados, fazia-se uso da sugestão para eliminá-los ou pelo menos para debilitá-los em sua força patogênica.
Após várias experiências com pacientes histéricos, Freud lança mão de uma noção que vai desempenhar um papel fundamental na elaboração da teoria psicanalítica: a noção de defesa, ou como ele chamará mais tarde, de recalcamento. É neste momento que também começa o seu afastamento de Charcot e de Breuer, abandonando assim definitivamente a técnica da hipnose.
Com o novo método, Freud solicita a seus pacientes que procurem lembrar-se do fato traumático que poderia ter causado os sintomas. Verifica que tanto a sua insistência quanto os esforços do paciente esbarravam em uma resistência deles às idéias patogênicas tornarem-se conscientes. Bem, mas qual seria a na- tureza dessas idéias e por que geraram essa resistência? Essas idéias eram de natureza aflitiva, capazes de despertar emoções de vergonha, de autocensura e de dor psíquica. Surgia assim a idéia de defesa, que nada mais era do que uma forma de censura por parte do Ego do paciente à idéia ameaçadora, forçando- a a manter-se fora da consciência. E a resistência era o sinal externo dessa defesa. O mecanismo pelo qual a carga de afeto ligada a essa idéia (ou conjunto de idéias) transforma-se em sintomas somáticos é chamado de conversão.
Anna O. elimina seus sintomas ao reproduzir traumas pela hipnose com Breuer e inspira Freud em sua noção de defesa e recalcamento
Mais tarde Freud vai perceber que os termos "defesa" e "recalcamento" não são sinônimos. Defesa é um termo mais amplo que designa, em primei- ra instância, o mecanismo pelo qual o Ego protege-se de uma representação desagradável e ameaçadora. Já o re- calcamento é uma conceituação mais precisa, e apenas parcialmente pode ser tomado como sinônimo de defesa.
Após toda esta caminhada nasce o conceito de recalque ou recalcamento que Freud considera "A teoria do recalque". A pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da Psicanálise é a parte essencial dessa teoria e nada mais é senão a formulação teórica de um fenômeno que pode ser observado quantas vezes for necessário empreen- der-se a análise de um neurótico sem recorrer à hipnose. Em tais casos encontra-se uma resistência que se opõe ao trabalho de análise, e, a fim de frustrá-lo, alega falha de memória. O uso da hipnose ocultava essa resistência; por conseguinte, a história da Psicanálise propriamente dita só começa com a nova técnica que dispensa a hipnose.
A série começou a ser redigida em março de 1915, em apenas seis semanas, o que é surpreendente se considerarmos a complexidade dos temas e a qualidade dos textos. A parte que se encontra publicada atualmente em sua obra comporta os seguintes artigos: Pulsões e seus Destinos, O Recalque, O Inconsciente, Complemento Metapsicológico e Luto e Melancolia. O restante dos doze artigos nunca foi publicado por razões desconhecidas. Dos sete artigos perdidos ou destruídos, o único recuperado em 1985 é o chamado Visão Geral das Neuroses, publicado setenta anos após ter sido escrito por Freud. Destes textos da metapsicologia, o que nos interessa neste instante é O Recalque, de 1915, não que as sementes não apareçam em obras anteriores, mas neste se dá a germinação da conceituação de recalcamento.
Quando Freud em 1915 usou o termo "recalque", designava um conjunto de manobras mentais destinadas principalmente a excluir da consciência um desejo instintivo. Ele se indaga do porquê de o recalque ter que sur- gir. Afinal é prazeroso satisfazer as demandas como a pulsão, e parece estranho que a mente deva negar-se a tal satisfação. Freud não expli- cou em detalhes, mas a resposta está implícita em sua concepção da mente como campo de batalha. Há um excesso de prazeres possíveis que se transformam em dor, porque a mente humana não é monolítica. O que ela quer de- sesperadamente, também despreza ou teme de modo não menos desesperado. O Complexo de Édipo em suas várias encarnações é o exem- plo mais expressivo de tais conflitos internos: o desejo do menino pela mãe passa a afigurar- se imoral, intolerante, carregado de perigo; por outro lado, seu desejo de morte contra o pai ameaça acarretar a autocondenação ou outras conseqüências catastróficas.
Mas o recalque apresenta-se numa for- ma primitiva desde cedo na vida dos bebês, e posteriormente amplia-se até incluir, em sua operação de censura, não só a pulsão que deve negar expressão, como também seus de- rivativos. Como nos diz Freud, "o recalque exige um dispêndio constante de energia". O que foi reprimido não foi eliminado. O ve- lho provérbio, o que está longe dos olhos está longe da mente não funciona. O material re- primido foi apenas guardado no solo inaces- sível do inconsciente, onde ele continua a vi- cejar, pressionando para obter satisfação. Por isso as vitórias da repressão são no máximo temporárias, e sempre duvidosas; o que foi reprimido acaba retornando como uma for- mação substitutiva ou um sintoma neurótico. É por isso que Freud considerava os conflitos que assediam o animal humano como essen- cialmente inconciliáveis e perpétuos.
No cotidiano da clínica psicanalítica ob- servamos pacientes que por um lado querem a cura conscientemente, mas, por outro lado, cria-se neles uma barreira, uma resistência incons- ciente à cura. Por que? Porque os pacientes sen- tem-se interiormente ame- açados, por alguma razão dolorosa e temida, algo que havia penosamente esquecido e que não su- portam lembrar. Assim o esquecimento consciente opera simultaneamente e de duas maneiras: como resistência à análise; e sob a forma de doença psíqui- ca, pois o inconsciente não esquece e obriga o esquecido a reaparecer sob a forma de sintomas que se manifestam com mais intensidade nas doenças psíquicas.
Desenvolvendo em seus pacientes e em si mesmos os estudos dos sintomas, dos esque- cimentos, dos sonhos, das lembranças e apli- cando nesses estudos a técnica da associação livre e procedimentos para interpretação desses acontecimentos psíquicos, Freud foi criando o que chamou de análise da vida psíquica ou Psi- canálise, tendo como método a interpretação e como instrumento a linguagem falada pelos sintomas - e este é o legado deixado por ele a seus seguidores.
Mais algumas nuances se fazem necessárias para a com- preensão do conceito de recal- que. Apesar de Freud apontar o recalcamento com um dos destinos da pulsão, sabemos que o recalcamento não é a pulsão propriamente dita, mas um de seus representan- tes: o representante ideativo. A pulsão jamais pode tornar- se objeto da consciência e no inconsciente ela tem que ser representada por uma idéia. O outro representante psíquico da pulsão - o afeto - não pode ser recalcado. A razão disto é que não se pode falar em afeto inconsciente; é a idéia a qual ele pertence, mas não uma transformação de afeto em afeto inconsciente. Freud afirma: "A rigor, não existem afetos inconscientes, seria como se um sentimento não fosse sentido como tal. Um afeto pode ser suprimido, isto é, inibido ou elimi- nado, mas não pode ser recalcado".
A associação livre afrouxa a censura consciente e permite quE derivados possam aflorar à consciência e sejam falados e escutados pelo paciente e analista
Freud coloca-nos inicialmente uma confusão quando nos diz que em não existindo o siste- ma pré-consciente/consciente, não existe ainda a instância recalcada e, por decorrência, não existe o próprio recalque. Mas por outro lado, quando perguntamos pelo que produz a cisão do psiquismo em dois sistemas distintos, obtemos como resposta o recalcamento, que é um me- canismo pré-consciente e também o responsável pela cisão do psiquismo e, portanto, constituinte de cada um dos sistemas. Para deixar mais claro está confusão, Freud neste texto de 1915, distin- gue três formas do processo de recalcamento:
1. Fixação ou inscrição
2. Recalque origninário
3. Recalque secundário
Se imaginarmos uma criança de um ano e meio que presencia uma determinada cena como os "pais transando", a cena não tem valor traumático devido à pouca idade, o que se dá é uma inscrição no inconsciente não recalcado. Mas se, por exemplo, esta criança sonha ou revive tal história aos quatro anos, pode já compreender o significado de tal ato.
Matar o marido em sonho pode ser manifestação de material reprimido, que pode vir à tona de forma distorcida, repetida, articulada
Na verdade, o que possibilitou à criança compreender o significado da cena não foram suas excitações e pesquisas sexuais, mas seu ingresso no mundo do simbólico. Lacan iria dizer que neste momento vai existir o que ele denomina de "efração imaginária", isto é, uma inscrição no domínio do imaginário, que houve por parte da experiência uma "eficácia psíquica" por não ser dotada de significação. É só pela linguagem que vai existir uma integração simbólica em direção ao imaginário - não se faz sobre qualquer outro material da experiência, só sobre aquele que não pode ser dotado de significação, como no caso da criança frente ao coito dos pais.
Já vimos que na época em que a experiência aconteceu, ela não pode ser dotada de significação, o que não impediu que se fizesse uma inscrição no inconsciente. Esta inscrição é que vai ser o objeto de reintegração em função do simbólico. É essa inscrição ou fixação que vai constituir o recalcamento originário. Segundo escreve Freud: "O contra-investimento é o único mecanismo do recalque originário." Essa noção de contra-investimento está sendo utilizada para designar uma defesa contra um excesso de excitação proveniente do exterior, capaz de romper o escudo protetor contra os estímulos.
Se o recalque originário é o responsável pela clivagem do psiquismo, o recalcamento secundário é o ato concreto do recalque, para alguma idéia ou percepção que foi alguma vez consciente; é o responsável pela expulsão dela da consciência.
Já sabemos que o recalcamento não destrói as idéias ou recordações, mas que se limita a confinar-se no inconsciente. É possível que o material reprimido retorne de forma distorcida, desenvolvendo-se mais profusamente e estabelecendo articulações mais numerosas exatamente por estar livre da influência consciente pelo efeito do recalcamento.
Nas Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise, Freud nos diz do recalcamento: "Ele se prolifera no escuro e assume formas extremas de expressão, que trazidas e apresentadas ao neurótico irão não só lhe parecer estranhas, mas também assustá-lo..."
O material reprimido é guardado no inconsciente, onde ele continua a vicejar, pressionando para obter satisfação
A distância de derivado em relação ao representante recalcado é marcada sobretudo pelo grau de distorção. É o caso, por exemplo, do sonho: por efeito da elaboração onírica consegue- se acesso à consciência sem que seu caráter ameaçador seja percebido pelo sonhador. A importância destes derivados para a prática psicanalítica é extrema, pois é por meio deles que o analista pode acessar o material recalcado. A chamada regra fundamental (dizer tudo que lhe vier à mente), sobre a qual se institui a relação analítica, nada mais é que o convite a que o analisando produza seus derivados do recalcado que, pela distância a que foram submetidos, possam romper a censura para servir de acesso ao material inconsciente. Fazer associação livre é, dentro de o possível, afrouxar a censura consciente e permitir que derivados, ainda que remotos, possam aflorar à consciência e serem falados e, portanto, escutados pelo paciente e analista.
Ana Lucilia Rodrigues é mestra em Psicologia pela Unimarco, com tese em Psicanálise e Cinema, e co- autora dos livros Sexualidade feminina/ Sexualidade masculina e Temas da Clínica psicanalítica.
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