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sexta-feira, 27 de abril de 2012
Entre a loucura e a sensatez
Entre a loucura e a sensatez
O Transtorno de múltiplas personalidades surge repentinamente em crises de alter egos detonadas pela interação de diversos fatores, porém muitos estudiosos defendem o desencadeamento desta patologia a partir de abusos na infância
Por Liliana Lavoratti
Às vezes, quando acordo de um pesadelo na escuridão da noite, ouço a voz do pequeno JJ dizendo que tudo vai dar certo. Coloco minha fé nele - uma criança de dez anos que, como diria vovô, tem 'uma sabedoria que vai além da idade'. JJ, assim como os outros, me ajudou a chegar onde estou. Seguramente, não estou mais tão vulnerável quanto já estive, apesar de às vezes ainda me tornar o bebê Alice - ocasiões em que Alec canta canções de ninar para ela dormir. Outras vezes posso ser Samuel, ou Billy, ou Kato, ou Shirley; mas hoje não tenho dúvida, sou Alice."
Assim termina o relato da britânica Alice Jamieson, que em abril de 1993, aos 24 anos, foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Múltipla, também conhecido como Transtorno Dissociativo de Identidade. Escrito com a ajuda de Clifford Thurlow, o livro Hoje Sou Alice - Nove personalidades, uma mente torturada (Editora Larousse do Brasil, 2010), é "um relato verdadeiro e extremamente pessoal dos eventos que se deram ao longo da minha infância e de como continuam assombrando minha vida adulta", como afirma a própria Alice. "Sofri abuso sexual, físico e emocional até os dezesseis anos de idade, e não contei a ninguém", destaca.
Alice reconhece que ganhou alguma perspectiva de equilíbrio na vida - para concluir o doutorado na universidade, construir um relacionamento afetivo com "a alma gêmea", Alec; denunciar o pai na Justiça e exigir do Estado indenização financeira pelos danos causados em consequência do abuso - depois de tomar coragem para compartilhar com psiquiatras, psicoterapeutas, amigos e familiares - inclusive o próprio abusador - os fatos sinistros dos quais foi vítima. Ela não conseguiu levar seu pai - e abusador - a julgamento, em decorrência da prescrição dos fatos. A denúncia aconteceu tarde demais.
Com riqueza de detalhes e linguagem chocante - "as verdades indigestas que precisam ser contadas" -, a obra tem a intenção de encorajar outras vítimas de abuso infantil a falar, já que o silêncio envolto nesses crimes é muito frequente. Procura ainda auxiliar a identificar os sinais para os casos do abuso infantil, que muitas vezes passam despercebidos diante de assistentes sociais, professores, profissionais da Saúde e familiares. A história de Alice também demonstra como na infância são desenvolvidos os "mecanismos" para lidar com o abuso sexual, as sucessivas idas e vindas nas tentativas de diagnósticos e tratamentos do Transtorno Dissociativo de Identidade - cuja principal causa é atribuída ao abuso sexual na infância. E, sobretudo, conta como a vítima luta para levar uma vida normal em meio a períodos de psicose, crises nervosas, vício em drogas, automutilação e tentativas de suicídio.
"Acontece que aquela em minha cama não era eu; era Shirley que ficava ali deitada, perguntando-se se o homem iria ao seu quarto, tiraria o cobertor e colocaria o pênis em sua boca. Era Shirley. Lembro-me de observá-la, uma coisinha magra sem seios e com uma expressão sombria e ressentida. Ela estava com raiva. Não queria aquele homem em seu quarto fazendo as coisas que fazia, mas não sabia como dar um basta naquilo. Ele não batia nela, não a ameaçava. Simplesmente olhava para ela com seus olhos negros hipnóticos, e ela permanecia deitada, com as pernas abertas, não pensando em nada. E onde eu estava? Eu ficava ao lado da cama, ou flutuava sobre eles, bem abaixo do teto, ou viajava em um tapete mágico. Prendia a respiração e assistia enquanto meu pai subia e descia sobre o corpo franzino de Shirley."
As personalidades podem ser do sexo oposto ao da pessoa que as cria, ter idades
diferentes e mesmo outra origem étnica"
Abuso sexual
Reconhecido pela Associação Americana de Psiquiatria em 1980, o Transtorno de Personalidade Múltipla em geral surge na infância e tem suas causas em abusos, principalmente de origem sexual. "Esse tipo de abuso na infância e adolescência vem a cada dia se mostrando mais frequente do que se supunha e seus efeitos, os mais diversos e devastadores", alerta Marcos Noronha, psiquiatra e psicoterapeuta, diretor do Centro de Atenção Psicossocial Casa Forte (CAPS Casa Forte), em Recife, e supervisor Psiquiátrico do Núcleo de Atenção Psiquiátrica de Pernambuco (NAPPE). Fatores que provoquem intenso quadro de estresse pós-traumático - como vivências de guerras, catástrofes, perdas de entes queridos - também podem desencadear o distúrbio. "As múltiplas ou alternativas personalidades estão relacionadas às questões traumáticas que seriam o principal fator desencadeador da dissociação anormal da consciência. Seria um mecanismo de defesa resultante dos traumas vivenciados", esclarece Noronha.
Trata-se da criação de diversas personalidades dentro de um mesmo indivíduo, sendo que essas personalidades são completas e complexas. Cada uma delas se evidencia a um momento, tem suas próprias memórias, nem sempre reconhece outra personalidade e, quando isso ocorre, pode rivalizar ou fraternizar com essa. As personalidades podem ser do sexo oposto ao da pessoa que as cria, ter idades diferentes e mesmo outra origem étnica. Além disso, a alternância entre as personalidades pode se dar subitamente (mais comum) ou ser precedida por uma confusão mental transitória.
Comportamento anormal
Em geral, quem convive com apenas uma das personalidades desenvolvidas pode nunca notar alguma anormalidade. Porém, pessoas mais próximas costumam relatar mudanças bruscas de comportamento que passam pela forma de falar, agir, vestir, desaparecimentos eventuais e falta de explicação para esses sumiços. "A personalidade 'da vez' relata normalmente amnésia e estranhamento de lugares ou pessoas que parecem conhecê-la, mas ela mesma não os reconhece", declara o psiquiatra e psicoterapeuta Erlei Sassi, coordenador do Ambulatório Integrado - Transtornos de Personalidade e do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo (IPQ-HCFMUSP). Algumas pessoas, mais impressionáveis, identificam-se com aspectos de personagens de TV, cinema ou da literatura.
"Eu estava 'possuída' não por algo externo - demônios, diabo, espíritos bons ou maus -, mas por personalidades alternativas que emergiam independentemente da minha vontade ou conhecimento e que se tornavam aos poucos mais autoconscientes e confiantes.... fiz uma lista dos suspeitos: bebê Alice; Alice nº 2, que tinha dois anos e gostava de chupar pirulitos grudentos; Billy; Samuel; Shirley; Kato; e a enigmática Eliza.... Estava cercada por personalidades alternativas, como se cada uma representasse um aspecto meu em particular enquanto ocultava minha personalidade real, completa, de mim mesma e do mundo."
Mas existe uma grande diferença entre ser portador do Transtorno Dissociativo de Identidade e o "enfraquecimento do self, que necessita de psicoterapia para se fortalecer", alerta Fernanda Martins Sassi, supervisora dos médicos residentes do Ambulatório Integrado - Transtornos de Personalidade e do Impulso do IPQ-HCFMUSP. Segundo ela, é comum haver confusão entre transtornos de personalidade e o Transtorno Dissociativo de Identidade, apesar de ambos serem bastante diversos. "Enquanto os transtornos de personalidade estão muito estabelecidos - como formas de pensar, perceber sentir e se relacionar muito diferentemente da média, causando sofrimento para o próprio indivíduo e para as pessoas que o cercam -, a personalidade múltipla é um diagnóstico muito controverso. Pode estar restrito a apenas um grupo cultural ou mesmo, para os estudiosos mais céticos, ser 'gerado' de forma iatrogênica, ou seja, os próprios médicos, familiares e outras pessoas do convívio alimentam e estimulam tal quadro", explica a psiquiatra.
Fator cultural
O Transtorno Dissociativo de Identidade afeta de 1,3% a 3% da população em geral. Normalmente acomete mais mulheres que homens. E determinados países têm maior incidência do distúrbio. No Canadá, por exemplo, a relação estabelecida é de nove mulheres para cada homem, informa o psiquiatra e psicoterapeuta Erlei Sassi. Uma possível causa é o fato de as meninas serem mais alvo da pedofilia do que os meninos. O distúrbio deve ser diferenciado da esquizofrenia e do transtorno bipolar, embora muitas vezes as semelhanças dos sintomas confundam os diagnósticos.
No livro, Alice pergunta: "O que é Transtorno de Personalidade Múltipla? E responde subjetivamente: é uma garotinha que imagina que o abuso está acontecendo com outra pessoa. Aí está o núcleo do distúrbio, o que dá origem a todos os outros traços. Essa fantasia é tão intensa, tão subjetivamente convincente e adaptativa, que a criança abusada tem aspectos próprios dissociados em outras pessoas. Essa é a característica principal, e também o que torna a doença tratável, pois a fantasia pode ser superada no momento em que o paciente confronta o passado e lida com ele."
Especialistas na área destacam que no Brasil é muito rara a ocorrência de transtornos dissociativos da identidade em sua forma mais complexa. "Esse transtorno aparece muito mais em filmes americanos. Na cultura norte-americana a prevalência é muito mais expressiva que em outros países. Nos transtornos mentais, o aspecto cultural é muito importante para o desenvolvimento de alguns sintomas. Diversos transtornos mentais têm particularidades muito interessantes de apresentação, que variam de cultura para cultura. O nome técnico para esse fenômeno é 'patoplastia'", declara Sassi.
Com ele concorda o psicanalista, doutor em Psicologia Clínica e professor da Universidade Mackenzie, Ivan Ramos Estevão, que critica a forma como Hollywood trata o distúrbio. Segundo ele, durante sua trajetória profissional, já teve casos de pacientes que se diziam outras pessoas ou que paravam em determinado período de suas vidas, mas nada muito diferente disso. "Hollywood difunde ideias como as contidas em filmes tipo Amigo Oculto e Psicose, mas não funciona dessa maneira. Nunca encontrei essa pessoa mostrada pelo cinema, que alterna de uma personalidade para outra de forma extrema", comenta.
Citando um dos conceitoDualidade humana
O professor do Mackenzie destaca que a dualidade está na essência humana. "A divisão da pessoa se vendo fazer coisas contrárias ao que faria normalmente é muito comum. Algumas têm a tendência a querer ser de um jeito que muitas vezes não corresponde ao que ela é. Basta uma bebedeira para fazer o que não faria, a ressaca moral do dia seguinte, a culpa, 'não era eu'. Essa divisão faz parte da totalidade das pessoas, da condição humana", conclui Estevão.
Na opinião dele, a dualidade é explicada pela Psicanálise: as pessoas têm consciência de algumas características que as compõem, enquanto outras ficam no inconsciente, fato que explicaria por que traços de nossa personalidade são citados por outras pessoas, mesmo que não reconhecidos por nós mesmos. "Às vezes a gente se pega fazendo coisas nas quais não nos reconhecemos. Dizemos 'não era eu, eu estava fora de mim'. É que, dependendo das circunstâncias da nossa vida, o inconsciente é que nos move e não nos damos conta. É quase como se a gente virasse outra pessoa", destaca Estevão. Ele completa: "O ser humano é múltiplo. Ele tenta esconder os impulsos, as fantasias, mas quando isso vem à tona, parece outra pessoa".
A dualidade e a falta de conhecimento acerca de si podem ser constatadas com facilidade em perfis em comunidades virtuais na Internet. "No Orkut, muitas pessoas não conseguem se definir e acabam usando o recurso dos poemas para isso. Uma prova da dificuldade em se saber quem a gente é", argumenta Estevão.
"É comum haver confusão entre transtornos de personalidade e o Transtorno
Dissociativo de Identidade, apesar de ambos serem diferentes"
Caso real
Isabel Dorsett sofria de Transtorno Dissociativo de Identidade. Ao longo do tratamento, foram identificadas 16 personalidades em Sybil, incluindo a personalidade atuante, e várias personalidades femininas e masculinas, de diversas idades. Quando ela morreu, em 1998, sua verdadeira identidade foi revelada; ela era Shirley Ardell Mason, uma artista e professora de arte; o pseudônimo Sybil foi criado pela escritora Flora Schreiber e pela Dra Cornelia Wilbur para proteger a privacidade da paciente. Muito talentosa, Sybil pintava e desenhava em vários estilos diferentes; na verdade, cada personalidade tinha um estilo artístico próprio.
s fundamentais da obra de Sigmund Freud, criador da Psicanálise - o da identificação -, o psicanalista lembra que o homem é, em grande parte, produto do meio. "As crianças têm influência dos pais, com quem inicialmente quando bebês se identificam, depois dos irmãos, mais tarde dos colegas da escola e amigos, de grupos religiosos, e assim por diante", enfatiza. "A interação social e com o outro é que propicia o desenvolvimento da personalidade, do caráter. Tem um núcleo que se mantém, mas não tem nada mais dialético que a personalidade humana", acrescenta.Epilepsia comportamental
Apesar da baixa incidência no Brasil do Transtorno de Múltipla Personalidade em sua forma mais complexa, o psiquiatra forense e diretor da Associação Paulista de Medicina, Guido Palomba, define como "não muito comum, mas também não muito rara" a ocorrência desse distúrbio, e com muita frequência ligada à prática de crimes. "O que chama a atenção é o fato de a personalidade dócil dessas pessoas sempre sobressair em relação a outras características. Como especialista, posso dizer também que o muito amável, o muito afetivo, é muito superficial. No fundo, eles são sempre indivíduos absolutamente deformados psiquicamente. A parte boazinha, educada, dócil e afetiva é como um verniz para encobrir alguma coisa muito forte e muito doentia", afirma.
Entre os profissionais da área de Saúde Mental, existem diferenças nos diagnósticos e identificação de causas da doença. Para Palomba, o transtorno se liga a uma determinada forma de epilepsia, conforme a tese defendida pelos neurologistas. "Mas não se trata da epilepsia convulsiva, mas sim a comportamental. É sempre uma disritmia cerebral", acredita. Os sintomas são comportamentos alternantes, o que o psiquiatra forense chama de condutopatia. "A patologia está na conduta, a anormalidade está no comportamento", completa.
Transtorno sem cura
O transtorno dissociativo de identidade não tem uma cura. O que os psiquiatras, psicólogos e psicanalistas defendem, em geral, é a terapia (e suas variantes) associada a alguns medicamentos - tais como para depressão e ansiedade. Isso, claro, estudando-se caso a caso. Assim, o distúrbio, a exemplo de outros, acompanhará a pessoa por toda a vida. "Infelizmente, o indivíduo que nasce com a propensão para o distúrbio, um dia vai desenvolvê-lo e terá de conviver com isso para o resto da vida. Melhoras são possíveis a partir da abordagem terapêutica mais adequada, mas não dá para dizer que existe cura", assegura o psiquiatra forense Guido Palomba.
Se ainda há muito a ser compreendido e estudado acerca das causas e diagnóstico desse transtorno, o mesmo se aplica ao tratamento, alerta o psiquiatra e psicoterapeuta Marcos Noronha. O profissional destaca que a "hospitalização é um recurso absolutamente excepcional, devendo ser utilizado pelo menor período possível e apenas quando houver sérios riscos à integridade do paciente ou de terceiros".
Alice relata em seu livro que "o tratamento para o Transtorno de Personalidade Múltipla é doloroso, esgotante e suscetível a recaídas. O objetivo final é a integração das personalidades. Mas a doutora Armstrong me disse que isso levaria anos de análise e acompanhamento psicológico. Enquanto isso, ela me fazia voltar aos antipsicóticos. A primeira vez que tomei esse tipo de medicamento foi quando fui diagnosticada com esquizofrenia. O Transtorno de Personalidade Múltipla é algo totalmente diferente, mas essas drogas tinham o objetivo de combater as alucinações auditivas... A terapia resultou na integração de algumas personalidades, mas a consequencia mais importante foi o fato de eu conseguir funcionar melhor e me sentir mais confortável comigo mesma como adulta, integrada ou não."
Porém, o conceito ou denominação mais aceita atualmente do Transtorno de Personalidade Múltipla é Transtorno Dissociativo de Identidade, como preconiza o DSM-IV (manual de classificação dos transtornos mentais) desde 1994. É, portanto, um tipo de Transtorno Dissociativo - aqueles nos quais há a perda total ou parcial de uma função mental ou neurológica, como memória, consciência da própria identidade, sensações corporais, controle dos movimentos corporais, inclusive episódios histriônicos como, por exemplo, a incapacidade temporária de andar, falar ou enxergar, sem que haja uma causa orgânica para tal fato, conforme explica Noronha.
Também é relativamente comum a ocorrência simultânea de outros sintomas, como depressão, episódios de pânico, fobias, transtornos alimentares, abuso de substâncias psicoativas, cefaleias, ideia de suicídio, automutilação e disfunção sexual.
Apenas em 1980 a Associação Americana de Psiquiatria reconheceu o transtorno como uma categoria específica, chamada Transtorno de Personalidade Múltipla (TPM). Estudiosos do assunto defendem que, ao longo dos séculos, foram inúmeros os indícios da existência da doença: pinturas da Era Paleolítica em cavernas de xamãs possuídos por animais ou espíritos, escritos de Paracelcus (1646), Gmelin (1791), Benjamin Rush (1812), Despine (1840) e Mortin Prince (1906).
Para rir um pouco
No filme Eu, eu mesmo e Irene, o transtorno de personalidade múltipla é tratado de forma leve e engraçada. Jim Carrey interpreta um policial que tem dupla personalidade. Ele guardou a vida inteira as humilhações que sofreu com a população da sua cidade, por ter sido traído por sua esposa. Como consequência, ele desperta uma personalidade dentro dele, de traços rebeldes e violentos. Apesar de todo o humor, o filme mostra os conflitos comuns na vida das pessoas com esse diagnóstico.
Até hoje, o transtorno ainda provoca controvérsias nos meios psiquiátricos, quer pela baixa incidência do mesmo, quer pela possibilidade de ocorrência de sintomas presentes em outras patologias, tais como esquizofrenia, transtorno bipolar, personalidade border line (pode haver inclusive uma comorbidade de transtornos), dificultando o diagnóstico, explica o psiquiatra e psicoterapeuta Marcos Noronha. Pesquisa realizada em 1944 baseou-se em apenas 76 casos documentados. Em 1993, nos Estados Unidos, já foi possível realizar um estudo com 640 pacientes portadores do transtorno. "Portanto, apesar de estarem se mostrando mais frequentes em geral nos últimos tempos - e geralmente em adolescentes do sexo feminino -, o registro do transtorno enquanto diagnóstico primário, que é o principal, ainda é muito baixo", completa Noronha.
Possibilidade de tratamentos
Especialistas indicam alguns tratamentos adotados para o transtorno de personalidade múltipla, além da prescrição de medicamentos:
Psicoterapia - visa reconectar o indivíduo às suas diferentes identidades, com o objetivo de levá-lo a restabelecer uma única identidade funcional, possibilitar a expressão e o reprocessamento das memórias traumáticas e dolorosas; apoiar e estimular sua reinserção social.
Terapias familiares - objetivam orientar parentes a lidar e apoiar o portador do transtorno, assim como com os conflitos gerados por ele e pelo distúrbio em si.
Arteterapia - possibilita ao paciente acessar, explorar e expressar de formas diversas seus sentimentos e pensamentos.
"O ser humano é múltiplo. Ele tenta esconder os impulsos, as fantasias, mas
quando isso vem à tona, parece outra pessoa"
Assunto em pauta
Para saber mais
Livro - Hoje sou Alice: Nove
personalidades, uma mente torturada
Autor - Alice Jamieson
Editora - Larousse do Brasil
Ano da publicação - 2010
336 páginas
R$ 34,90 (valor sugerido)
O primeiro livro sobre o Transtorno de Personalidade Múltipla a produzir algum impacto foi Sibila, de Flora Rheta Schreider (1973), com o subtítulo A Verdadeira e Extraordinária História de uma Mulher Possuída de Dezesseis Personalidades Diferentes. O relato do que foi considerado o mais importante caso clínico de personalidade múltipla do século XX serviu de argumento da minissérie Sybil, estrelada por Sally Field em 1976. Mas, em 1957, Corbett H, Thigpen e Hervey M. Cleckley já haviam publicado o controverso As Três Faces de Eva, que por sua vez teria influenciado Janete Clair na criação do personagem de Glória Menezes na novela Irmãos Coragem (Rede Globo, 1970). No filme Desconstruindo Harry (1997), Woody Allen interpreta um portador do transtorno. Atualmente, o seriado United States of Tara, estrelado por Toni Collette (premiada com o Emmy por sua atuação), é baseado na personagem Tara, uma artista plástica nos dias de hoje, casada e mãe de dois filhos adolescentes e que possui pelo menos três alter egos: "T", uma adolescente com 17 anos (a mesma idade de sua filha); "Buck", um homem rude, veterano de guerra, e "Alice", uma perfeita e vaidosa dona de casa nos moldes dos anos 50-60.
Ainda no mundo das artes, o transtorno inspirou o grupo musical The Who, que escreveu a música Four Faces. Noronha lembra que o poeta português Fernando Pessoa é apontado por muitos como o mais célebre portador do transtorno, e que seus heterônimos seriam alter egos que surgiam em decorrência das crises desse distúrbio.
No livro Multiple Personality Disorder (Transtorno de Personalidade Múltipla), publicado em 1989, o autor, psiquiatra canadense Colin A. Ross, afirma: "O TPM não consiste em um defeito, mas em uma habilidade. O paciente usa a habilidade de se dissociar a fim de ser capaz de lidar com um terrível trauma vivido na infância. O TPM é uma estratégia criativa e eficiente para a preservação da integridade do organismo em face de um trauma crônico que de outra forma seria catastrófico".
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