ORIENTAÇÃO E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO ON LINE





- Contato

E-mail: valderezgonsalez@gmail.com

Seguir @valderezgonsale

















































































































sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os limites na vida adulta

Os limites na vida adulta O desenvolvimento da capacidade de "viver as emoções" na vida adulta depende da passagem através da mente do outro e de seus cuidados primários Por Rosangela de Oliveira Faria Há exatamente cem anos, Freud publicou um artigo que se tornaria um dos clássicos da Psicanálise: Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico. Seu interesse era investigar o desenvolvimento da relação do indivíduo com a realidade, a partir da observação, desde o início de sua experiência clínica, que o ser humano, em geral, tem a tendência a se afastar da vida real, de pequeninas partes dela até seu todo (como no caso das psicoses), por achá-la insuportável. Nesse artigo, Freud nos mostra, como, no início da vida, a atividade psíquica é regulada pelo Princípio do Prazer, cuja finalidade é a tentativa de satisfazer as necessidades internas do organismo – ou seja, a redução da quantidade de excitação pulsional – pelo caminho mais curto possível: o bebê tenta encontrar, numa modalidade alucinatória, uma possibilidade de descarregar de forma imediata a tensão pulsional. Na medida em que a satisfação não ocorre e a frustração se apresenta, em vez de alucinar, o aparelho psíquico passa a levar em conta as circunstâncias reais presentes no mundo externo, almejando a modificação deste para a obtenção da satisfação. Com isto, foi introduzido um novo princípio de atividade psíquica: o Princípio da Realidade, que corresponde a toda uma série de adaptações que o aparelho psíquico teve de sofrer, levando ao desenvolvimento das funções conscientes, como a atenção, o juízo, a memória e o processo de pensar, entre outras. Máquina de emoções Chegar à vida adulta com uma aparelhagem apta a processar as emoções favorece o enfrentamento e o reconhecimento da realidade, tornando possível ao indivíduo elaborar a renúncia às ilusões narcísicas, conscientizandose, por exemplo, de que é dependente do “outro”, de que o “outro” é separado de si e de que tem relações com “outros” dos quais ele não compartilha. Implica na aceitação do envelhecimento, da finitude da vida, de não saber todas as respostas para as suas questões. Implica na tolerância às perdas que suas escolhas, tanto profissionais, quanto afetivas, certamente acarretarão. Possibilita, ainda, a discriminação entre os momentos em que deverá se ater dentro de limites bem definidos para salvaguardar suas conquistas, daqueles momentos em que, ao contrário, deverá ousar superar os limites, de modo a manter em expansão seu projeto de vir a ser. Por outro lado, quando fracassa a capacidade de rêverie materna, aquela capacidade de aceitar, alojar e transformar uma forma de comunicação primitiva, as projeções do bebê podem retornar aumentadas, provocando um aumento da angústia, que por sua vez leva à evacuação maciça das protoemoções, gerando medo, insegurança e perseguição. Em muitos casos, pode levar a uma obstrução e, às vezes, até mesmo a uma detenção no desenvolvimento das emoções e de seu processamento psíquico. Pessoas com esta obstrução carecem de instrumentos para pensar e comunicarse, tornando o contato emocional de difícil acesso e ocasionando uma perturbação severa da curiosidade da qual depende a capacidade para aprender. As experiências emocionais permanecem como “pedaços não digeridos” que não são conscientes nem inconscientes, senão inacessíveis por faltar os sistemas transformacionais que possibilitem seu descobrimento e posterior compreensão (Vassimon, 2010). Diante da impossibilidade de contar com uma mente capaz de acolher e transformar as protoemoções, mecanismos são gerados para evacuálas, evitando-se, assim, os impactos emocionais. As estratégias são as mais diversas: a produção de doenças psicossomáticas; comportamentos obsessivos; fobias; anorexias; síndromes do pânico – patologias tão frequentes no mundo atual. Estas pessoas certamente enfrentarão dificuldades nas demandas da vida adulta. Num mundo globalizado, dominado pela velocidade das informações, ficam borrados os limites entre a subjetividade e a objetividade, entre o privado e o público, entre o ser e o ter, exigindo ainda mais da imprescindível capacidade de discriminação Evitar as emoções torna-se uma atividade constante da mente, ocasionando sintomas e patologias A substituição do Princípio do Prazer pelo Princípio da Realidade, com todas as consequências psíquicas que dela resultam, ocorre de forma gradativa, e não implica a destituição do primeiro, mas, sim, a garantia de sua continuidade. Sob o domínio do Princípio da Realidade, o indivíduo tende a postergar a ação, operando mais pela observação e pela reflexão, o que lhe possibilita um exame mais acurado e, por conseguinte, uma escolha mais favorável. Assim, um prazer momentâneo, mas incerto, quanto às suas consequências, só é abandonado para assegurar que mais tarde, por novos meios, se obtenha a satisfação. Este é o caminho que leva ao desenvolvimento e à aquisição de uma vida adulta funcionante, na medida em que o acesso à realidade tornará possível a obtenção do prazer. Estas premissas de Freud derivam de suas primeiras tentativas de examinar as hipóteses teóricas implícitas em suas descobertas clínicas. Ele continuou a desenvolver estas questões até o fim de sua vida, em artigos como O ego e o id (1923), A negativa (1925), Fetichismo (1927) e em Esboço de Psicanálise (1938; 1940). Quando o indivíduo decide enfrentar e reconhecer a realidade, passa a elaborar a renúncia das ilusões narcísicas Futuro Quando o clima emocional da mente materna é propício, a angústia do bebê pode se transformar em medos e ansiedades A maneira com que o ser humano será capaz de lidar com os limites inerentes à vida adulta está diretamente relacionada à sua capacidade de lidar com as emoções, ou no dizer de Ferro (2011), com sua capacidade de “viver as emoções” (termo que se refere aqui à vivência de âmbito individual, desorganizadora da ordem estabelecida). Isto demanda um intenso trabalho prévio e pressupõe a integridade de alguns aparatos que tornem possíveis a assimilação, a administração e a contenção das emoções. Quando estes aparatos não podem se desenvolver, evitar as emoções tornase uma atividade constante da mente, ocasionando sintomas e patologias, as mais diversas. O desenvolvimento da capacidade de “viver as emoções” depende da passagem através da mente do outro e de seus cuidados primários, uma vez que toda mente, ao nascer, necessita de outra mente para poder se desenvolver. Esse encontro inicial entre mentes se dá por meio de projeções de angústias primitivas do bebê na mente materna (ou sua substituta) capaz de acolhêlas, transformá-las e devolvê-las “processadas” com a função, ou o método para realizar essa transformação. Quando este processo acontece de forma suficientemente normal, o que vai depender da disponibilidade mental da mãe, esta função torna-se, progressivamente, cada vez mais operante na mente da criança. Uma aparelhagem apta a processar as emoções favorece o enfrentamento e o reconhecimento da realidadeFruto da relação, essa função introjetada é o que permitirá uma contínua transformação das turbulências – angústias sem nome – em emoções pensáveis. É pelo contato com este clima emocional propício da mente materna que a angústia do bebê, antes inexprimível, pode se transformar em medos e ansiedades que começam a se tornar pensáveis (Ferro, 2005). Aquilo que ainda não foi pensado nem é pensável ainda. Pela troca e pelo acolhimento de protoemoções e protossensações, começa a urgir para encontrar uma transformação e assim se tornar um relato compartilhável, pelo qual é possível dar um nome ao que antes não era representável. Assim, nasce o “afeto”: termo usado para indicar o fenômeno relacional e transitivo de duas mentes em contato. “Das emoções para os afetos há um percurso de mudanças consecutivas, acompanhadas pela constituição de significado”. (Ferro, 2011). • Pretérito mais que perfeito • Na Psicanálise de Freud, o princípio do prazer enfatiza do desejo da gratificação imediata e da busca do prazer. A constante fuga da dor também é uma característica desta teoria. O que contrapõe o processo de amadurecimento normal do indivíduo em que se faz necessária a ação de suportar a dor da existência. No filme Meia Noite em Paris, escrito e dirigido por Woody Allen, é possível analisar a teoria por meio da ficção que enreda o longa. O protagonista Gil, que muitos críticos dizem ser o alterego do diretor, é um escritor bem-sucedido, porém frustrado. O sonhador, e de cerca forma infantil, vive concretamente sua fantasia ao voltar para um passado desejável e utópico. Aqui encontramos o Princípio do Prazer versus Princípio da Realidade. Afinal, Gil retornou ao um paraíso perdido, no qual, paradoxalmente, ele jamais esteve. Inicia-se, então, o processo de assimilação mental, transformando a totalidade da experiência em uma forma adequada para seu armazenamento na mente. Esse processo leva tempo e, nesse tempo, repetições dessas experiências de sintonia afetiva e comunicativa entre as mentes promoverão transformações criativas contínuas que culminarão no senso de identidade individual da criança e, por conseguinte, do adulto (Faria, 2009). Para se defender do desamparo, a onipotência e a onisciência podem entrar em cena, substituindo a aprendizagem REFERÊNCIAS FARIA, R. (2009). “Repetição: Pulsão de morte ou esperança de integração?” XXII Congresso da Febrapsi, Rio de Janeiro. FERRO, A. Evitar as emoções, viver as emoções. Porto Alegre: Artmed Editora S.A., 2011. _________ Fatores de doença, fatores de cura. Rio de Janeiro: Imago, 2005. FREUD, S. (1911). “Formulações sobre os Dois Princípios do Acontecer Psíquico”. Obras Psicológicas de Sigmund Freud, V. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2004. VASSIMON, S. (2010). “Ceias das Cinzas: Bion, Borges e o Infinito”. Reunião Científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto. Rosangela de Oliveira Faria é membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP)

Nenhum comentário:

Postar um comentário