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sábado, 28 de abril de 2012
A eterna busca da felicidade
A eterna busca da FELICIDADE
As contribuições da Psicologia Positiva para a compreensão do que auxilia as pessoas a serem ou não felizes e a evolução conceitual de que o que procuramos nada mais é do que nosso bem-estar subjetivo
Por Juliana Teixeira Fiquer e Emma Otto
Na Filosofia, na Literatura e nas ar- tes em geral, há uma longa tradi- ção de conceber a vida como uma tragédia. Sófocles, na tragédia Oe- dipus at Colonus, disse: "Not to be born is, past all prizing, best".1 Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas, escreveu: "Não tive fi- lhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". O cineasta americano Woody Allen classificou a vida em dois tipos: aquela que é horrível e aquela que é apenas miserável.
A Psicologia durante muito tempo também deu mais ênfase a questões relacionadas à do- ença do que à saúde. Você já deve ter notado que os psicólogos são mais comumente chama- dos a analisar situações em que as populações sobrevivem e resistem a adversidades do que a discutir o desenvolvimento de pessoas saudá- veis em condições benignas. Entretanto, após a Segunda Guerra Mundial, o conceito de feli- cidade passou a servir como objeto de estudos quantitativos sistemáticos no campo de estudo da Psicologia, mais especificamente na área da Psicologia Positiva. O pós-guerra revelou que algumas pessoas bem-sucedidas e autoconfian- tes tornaram-se incapazes e desanimadas - uma vez que a guerra removera todos os seus suportes sociais -, enquanto outras pessoas mantiveram sua integridade e capacidade de li- dar com o caos circundante. Diante de tal dis- crepância, aumentou o interesse por pesquisas voltadas à investigação de recursos/fatores que fossem responsáveis pelo bem-estar, felicidade e pela qualidade de vida.
◆"Felicidade", proveniente do latim felicitas, vem de felix: algo ditoso, afortunado. Num sentido amplo, é a ausência de todo o mal e a vivência plena do bem.
Pesquisas realizadas desde então têm mos- trado que as pessoas têm uma visão muito mais otimista da vida do que supunham os filósofos, escritores e artistas. Por exemplo, numa pesquisa realizada nos Estados Unidos, participantes solicitados a indicar a pessoa que consideravam mais feliz responderam: Oprah Winfrey (23%), Bill Gates (7%), o Papa (12%), Chelsea Clinton (3%), você mesmo (49%) e não sei (6%). No Brasil, uma pesquisa recente realizada com habitantes das cidades de João Pessoa-PB, Salvador-BA, São Paulo-SP e Socorro-SP, revelou que, enquan- to 87% das pessoas escolheram fisionomias esquemáticas que expressavam alegria para re- presentar seu sentimento em relação à própria vida, apenas 9,4% dos participantes escolhe- ram fisionomias neutras e 3,6% escolheram as que representavam tristeza.
(1) "Não nascer é melhor, apesar de todos os prazeres."
TEORIAS PSICOLÓGICAS
Contas a pagar, congestionamentos freqüentes, necessidade de fazer dietas, obrigação de acordar cedo para trabalhar... As evidências destacadas por pesquisas de que a maioria das pessoas tende a se sentir bem e satisfeita com a própria vida parece demonstrar que, mesmo diante dessas dificuldades do dia-a-dia, emoções e sentimentos positivos sobrevivem e permeiam a vida das pessoas. Algumas teorias psicológicas buscam auxiliar a compreensão do que resultaria em felicidade para os indivíduos. Nas concepções das teorias télicas, o sentimento de felicidade resulta da satisfação de necessidades, enquanto a infelicidade resulta da insatisfação persistente delas. Para alguns pesquisadores, tais necessidades seriam universais, enquanto para outros elas seriam diferentes entre os indivíduos.
"FELICIDADE" APRESENTHEDONISMO VERSUS EUDAIMONISMO
Os estudos voltados ao bem-estar humano, que buscam elucidar quais elementos estão presentes na constituição de uma boa vida, foram desenvolvidos com base em duas perspectivas filosóficas distintas. A primeira perspectiva, chamada de hedonismo, iguala o bem-estar à sensação de prazer ou de felicidade. Concebe que o bem-estar/felicidade de uma pessoa compreende as mais diversas experiências de prazer e desprazer (como prazer corporal, prazer emocional, desprazer corporal, desprazer emocional), além de julgamentos subjetivos a respeito de bons e maus elementos da vida. A segunda perspectiva, denominada eudaimonismo, concebe que o bem-estar é mais do que a felicidade em si, é algo que envolve a atualização de potenciais humanos. Segundo essa concepção, nem toda a realização de desejo resulta em bem-estar, visto que, mesmo que haja a produção de prazer, muitas conseqüências podem não ser benéficas para as pessoas e, portanto, não promovem bem-estar. Para os eudaimonistas, o bem-estar ocorre quando as atitudes e atividades da vida das pessoas estão em congruência com valores morais. As evidências científicas mais recentes, entretanto, denotam que o bem-estar é provavelmente mais bem conceituado como um fenômeno multidimensional que inclui aspectos tanto da concepção hedonista como da eudaimonista.
Para as teorias de prazer e dor, tais sensações estão intimamente relacionadas e regulam o bem-estar das pessoas. O indivíduo só tem objetivos ou necessidades a serem satisfeitos na medida em que algo falta em sua vida. Assim, um estado de carência ou privação (estado de dor/falta) é um precursor da felicidade e, quanto maior é a carência, maior é a alegria ao se atingir o objetivo.
Já nas teorias de atividade, a felicidade é considerada um subproduto da atividade humana. O importante é o movimento da pessoa em direção a objetivos e a luta para atingi-los, mais do que a real obtenção dos objetivos buscados. Dessa maneira, as pessoas deveriam concentrar-se em atividades importantes, e a felicidade decorreria como um subproduto não pretendido. Essa concepção está de acordo com a crença popular de que concentrar-se em obter felicidade pode ter efeito contrário ao desejado. Todavia, as atividades, para serem prazerosas, necessitam estar ajustadas ao nível de habilidade do indivíduo: se a atividade for fácil demais, ocorre tédio, mesmo quando o objetivo é alcançado. Por outro lado, se for difícil demais, cria-se ansiedade. Assim, uma experiência prazerosa surgirá quando a pessoa está envolvida numa atividade que demanda concentração, em que suas habilidades e o desafio da tarefa são aproximadamente correspondentes.
Segundo as teorias de "cima para baixo" (top-down), existe uma tendência geral para vivenciar as coisas de forma positiva, e essa tendência influencia as interações momentâneas do indivíduo com o mundo, ou seja, uma pessoa experimenta prazeres porque é alegre e não vice-versa. Nessa visão, a felicidade não depende apenas de fortuna ou de contingências externas, mas também, e em maior grau, da maneira de pensar do indivíduo, destacando a idéia de que o importante não é aquilo que se tem, mas como se reage àquilo que se possui.
Ao contrário das teorias de "cima para baixo", as teorias de "baixo para cima" (bottom-up) consideram a felicidade simplesmente a soma de muitos pequenos prazeres. Seria a qualidade boa ou má de níveis simples e elementares da experiência do in- divíduo (o tipo de interação momentânea com o mundo) que influenciaria seu estado emocional.
Nas teorias associacionistas, a relação en- tre felicidade e memória/cognição é enfatizada. Considerando que as pessoas costumam se lem- brar de acontecimentos que são afetivamente congruentes com seu estado emocional atual, indivíduos alegres poderiam ser aqueles que desenvolveram uma rica rede de associação de lembranças positivas e uma rede mais limitada e isolada de associação de lembranças negativas. Nesses indivíduos, mais eventos ou idéias dis- parariam lembranças e afetos alegres, resultan- do num estado de ânimo positivo. Assim, uma pessoa que tem uma rede de boas lembranças bem desenvolvida estaria predisposta a reagir a um maior número de eventos de forma positi- va. Ainda que redes de memória funcionem sem intervenção consciente explícita, essa abordagem está de acordo com a idéia de que a tentativa para reduzir pensamentos negativos pode aumentar o estado de ânimo positivo das pessoas.
A felicidade resultaria de uma comparação entre algum padrão e as condições atuais da vida de uma pessoa. É no que se baseiam as teorias de julgamento. Se as condições atuais excederem o padrão, resultará em felicidade. Como padrão para comparação, por exemplo, um indivíduo pode utilizar outras pessoas: se ele estiver melhor que outras pessoas, estará satisfeito ou feliz. Da mesma forma, a vida passada do próprio indivíduo pode ser usada para estabelecer o padrão: se sua vida atual exceder esse padrão, ele provavelmente estará feliz.
MEDINDO A FELICIDADE
Bem-estar subjetivo (BES) é um termo psicológico amplamente empregado na lite- ratura como sinônimo de felicidade. Muitos autores recomendam sua utilização no lu- gar do termo felicidade, pela diversidade de conotações associadas a este último e pelo fato de o BES salientar a avaliação feita pelo próprio indivíduo sobre sua vida, e não uma avaliação feita por especialistas. Grande parte dos estudos que vêm sendo realizados para avaliação de estados emocionais positivos tem feito uso desse conceito.
A UMA DIVERSIDADE DE CONOTAÇÕES ASSOCIADAS, LOGO O USO DE "BEM-ESTAR SUBJETIVO" É MAIS INDICADOO bem-estar subjetivo compreende tanto avaliações cognitivas das pessoas a respeito de suas vidas (que incluem julgamentos re- lacionados à satisfação com a vida) quanto avaliações afetivas (relacionadas ao humor e às emoções), como sentimentos positivos e negativos. Pessoas relatam BES elevado quando estão satisfeitas com sua condição de vida, sentem freqüentemente emoções posi- tivas e experimentam com reduzida freqüên- cia emoções negativas. Ao contrário, pessoas que relatam BES baixo se apresentam insatisfeitas com a vida, experimentam pouca alegria e freqüentemente têm emoções desagradáveis, como tristeza ou raiva.
Na teoria de "cima para baixo" a pessoa é feliz não pelo que tem, mas pela forma como reage àquilo que possui As teorias de julgamento se baseiam na comparação entre algum padrão e as condições atuais da vida; se ele estiver pior que os outros, estará infeliz
Dentre os afetos positivos avaliados pelo BES pode-se discriminar elação, contentamento, afeição, orgulho, alegria e êxtase, e, dentre os negativos, culpa, vergonha, tristeza, ansiedade, irritação, temor, estresse, depressão e inveja. A satisfação com a vida pode se referir à satisfação da pessoa com sua vida atual, sua satisfação com o passado e com o futuro. Os domínios da satisfação são compostos por trabalho, família, lazer, saúde, finanças, o próprio Self e o grupo social no qual o indivíduo está inserido.
Além de a felicidade de uma pessoa depender de diversos fatores subjetivos (por exemplo: a sensação de ser valorizado, estimado, a percepção de que se é capaz de receber e dar suporte social), algumas pesquisas têm apontado que indicadores sociodemográficos específicos, como idade, gênero, renda e diversidade cultural, podem também influenciar o sentimento de bem-estar e a qualidade de vida das pessoas. A seguir, destacamos algumas dessas possíveis influências.
IDADE VERSUS BEM-ESTAR
Você já imaginou que o ápice da sensação de felicidade das pessoas poderia estar concentrado em faixas etárias específicas de suas vidas, como dos 14 aos 20 anos, ou dos 40 aos 60 anos? Diferentes teorias têm se dedicado exatamente a fazer previsões sobre essa possível relação entre bem-estar e idade. Previsões bastante diversas sobre a associação entre idade e felicidade podem ser observadas entre as teorias do set-point, de indicadores sociais e da seletividade socioemocional.
Segundo a teoria do set-point, a idade tem um efeito irrelevante sobre o bem-estar das pessoas. A felicidade vivenciada por uma pessoa dependeria de diferenças individuais hereditárias quanto à tendência para sentir afetos positivos e afetos negativos. O que conta, portanto, é a personalidade do indivíduo e não os anos de sua vida que passaram.
Na perspectiva de indicadores sociais, o bem-estar diminui com a idade. Além da idade, outras variáveis sociodemográficas, como status marital e renda, também são apontadas como responsáveis pelas diferenças existentes entre as pessoas quanto ao seu nível de bem-estar. Por exemplo, as pessoas mais jovens (e/ou com maior poder aquisitivo e/ou casadas) seriam mais felizes que as mais velhas (e/ou com menor poder aquisitivo e/ou solteiras, viúvas, divorciadas), pela maior disponibilidade de recursos físicos, psicológicos e materiais. A idéia de que há um declínio da felicidade durante o envelhecimento ganha respaldo de dados relacionados ao fato de que, com o aumento da idade, as pessoas sofrem diminuição da prática de atividades agradáveis, apresentam aumento no aparecimento de doenças, além de terem quedas na satisfação com a vida sexual e na atratividade física após a idade adulta.
HABILIDADE SOCIAL PARA A VELHICE BEM-SUCEDIDA
Um dos fatores psicológicos mais importantes para uma velhice bem-sucedida é a habilidade social desenvolvida pela pessoa. Indivíduos socialmente habilidosos são capazes de desempenhar menos tarefas indesejáveis, além de desenvolver e manter relacionamentos mutuamente benéficos e sustentadores. Contando com suportes sociais, as pessoas idosas se sentem mais amadas e seguras para lidar com problemas de saúde e de auto-estima, resultando num maior bem-estar psicológico e social e até mesmo num possível aumento do tempo de vida. Ao mesmo tempo que o indivíduo recebe suporte em suas relações sociais, ele também pode atuar ativamente oferecendo suporte, o que também traz benefícios psicológicos, já que aumenta o sentimento de utilidade, controle pessoal e autovalorização do idoso.
Idosos sentem-se mais amados e seguros para lidar com problemas de saúde e auto-estima quando há o devido suporte social
Numa vertente oposta à da perspectiva de indicadores sociais, a teoria da seletividade socioemocional prevê que o bem-estar aumenta com a idade. Achados de diversas pesquisas têm estado em concordância com essa previsão. Num estudo realizado por Carol Ryff, professora de Psicologia da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, pessoas de meia-idade e idosos mostraram-se mais felizes do que jovens. Similarmente, em um estudo recente realizado por nosso grupo de pesquisa do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), pessoas idosas relataram mais afetos positivos e menos afetos negativos quando comparadas com indivíduos mais jovens (adultos e adolescentes).
Conflito maternidade versus emprego: há indícios de que as mulheres apresentam menor satisfação com a vida e menor bem-estar subjetivo
A FELICIDADE VIVENCIADA POR UMA PESSOA DEPENDERIA DE DIFERENÇAS INDIVIDUAIS HEREDITÁRIAS QUANTO À TENDÊNCIA PARA SENTIR AFETOS POSITIVOS E AFETOS NEGATIVOS
O aumento do bem-estar com o passar do tempo se daria em função de uma melhor regulação das emoções: as pessoas mais velhas tenderiam a maximizar os afetos positivos e a minimizar os negativos, o que se daria pela adaptação aos eventos da vida e às alterações vivenciadas em contextos sociais. Alguns estudiosos têm destacado que, ainda que na velhice as pessoas encontrem mais dificuldades para o desempenho de atividades diárias, elas podem fazer uso de mecanismos de compensação eficazes no enfrentamento de perdas em funcionalidade (por exemplo, por meio de recursos tecnológicos, apoio social e psicológico). Tais mecanismos atuariam como estratégias compensatórias de natureza emocional, permitindo manutenção do equilíbrio afetivo e da qualidade de vida na terceira idade.
GÊNERO VERSUS BEM-ESTAR
Pense rapidamente nos homens e mulheres que você conhece. Você seria capaz de dizer se eles são mais felizes do que elas? Ou seriam elas mais felizes do que eles? As pesquisas relacionadas ao tema de bem-estar e gênero ainda não encontraram resultados muito consistentes. Se, por um lado, diversos estudos indicam inexistência de efeito de gênero sobre a sensação de satisfação com a vida e felicidade, por outro, algumas pesquisas têm encontrado indícios de que as mulheres apresentam menor satisfação com a vida e menor bem-estar quando comparadas com homens de mesma idade. Por que isso aconteceria?
Alguns estudos associam os relatos de esta- do de ânimo mais negativo das mulheres com o fato de elas apresentarem mais sintomas re- lacionados à depressão do que os homens. A maior freqüência desses sintomas entre elas tem sido entendida por alguns autores como sendo uma conseqüência de a vida feminina ser mais estressante que a masculina. As mu- lheres poderiam estar mais expostas a fatores relacionados a desemprego e baixos salários em comparação com os homens. O conflito maternidade versus emprego também pode- ria ser um fator de estresse importante na vida feminina, já que, quando as mulheres se tornam donas-de-casa, às vezes acabam se isolando e ficando insatisfeitas; e, quando saem de casa para trabalhar, sofrem freqüen- temente o conflito entre as demandas do emprego e as da casa.
Entretanto, a prevalência de sintomas de- pressivos entre mulheres e a possibilidade de elas apresentarem menor bem-estar deve ser considerada com cautela. Existem indícios de que parte dessa diferença encontrada entre os sexos se dá pelo fato de as mu- lheres reconhecerem mais rapi- damente que têm um problema psiquiátrico ou emocional e, por conseguinte, procurarem mais prontamente ajuda diante de sinais tênues de depressão ou perda de bem- estar. Essa diferença na prontidão de reconhe- cimento de sintomas e busca de ajuda foi en- fatizada por alguns autores como um resultado de pressões sociais: sintomas de doença men- tal, como ansiedade e depressão, costumam ser mais aceitos socialmente em mulheres.
AMBIENTE VERSUS BEM-ESTAR
Pesquisas realizadas por sociólogos, eco- nomistas e psicólogos têm demonstrado que relatos de bem-estar e de satisfação com a vida podem variar entre habitantes de diferentes países. Parte dessa variação tem sido asso- ciada ao grau de riqueza dos países. Alguns estudos encontraram que pessoas de nações de PIB (Produto Interno Bruto) elevado ten- dem a relatar maior bem-estar do que aquelas provenientes de países mais pobres.
Economistas associaram essa relação maior PIB-maior bem-estar às oportunidades que habitantes de países desenvolvidos podem ter de criar uma vida desejável. A produção abundante de mercadorias e serviços permiti- ria que as pessoas selecionassem aqueles bens de que mais necessitam e querem, resultando em maior satisfação. Além de maior acesso a serviços e produtos, nas sociedades de países desenvolvidos há também uma distribuição mais equilibrada de renda/recursos, o que ocasiona a manutenção de bons indicadores sociais, como: baixos índices de criminalida- de, maior expectativa de vida para a popula- ção, maior preservação de direitos humanos, mais médicos por número de habitantes e maior escolarização, indicadores esses que se relacionam positivamente com a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.
Os pesquisadores Eunkook Suh, da Uni- versidade da Califórnia, e Ed Diener, da Uni- versidade de Illinois, especialistas no estudo do bem-estar subjetivo, observaram que o desen- volvimento econômico dos países pode ter efei- tos que vão além da maior qualidade de vida material de seus habitantes. Em suas pesqui- sas, notaram que pessoas provenientes de na- ções ricas apresentam-se mais satisfeitas com a vida doméstica e trabalho, assim como relatam maior satisfação com seus amigos e com a liberdade que têm, em comparação com respondentes de nações menos desenvolvidas. Os pesquisadores destacaram duas explicações alternativas diante desses achados: 1) a satisfação com a vida material se estende de tal maneira que torna as pessoas satisfeitas também com outras áreas de suas vidas (como os relacionamentos interpessoais); 2) as características adicionais observadas em nações desenvolvidas, como maior igualdade entre as pessoas, levam a maior satisfação em áreas não materiais.
O BRASIL É EXCEÇÃO
Existem, entretanto, países que apresentam índices inesperadamente altos ou baixos de satisfação com a vida em relação a seu poder aquisitivo. Você consegue imaginar quais são eles? Em um levantamento mundial, realizado pelo Word Values Study Group, respondentes de diferentes nações tiveram sua satisfação com a vida avaliada pela seguinte questão: "Quão satisfeito você está com sua vida, como um todo, nos dias atuais?" As opções de resposta variavam de 1 (insatisfeito) a 10 (satisfeito) e a Paridade do Poder Aquisitivo (PPA)2 poderia variar de 0 a 100. Países como Brasil, Chile e Argentina foram exemplos de nações que apresentaram escores maiores de satisfação com a vida do que aqueles previstos em função da renda per capita que possuem. Em contrapartida, países do Leste Europeu apresentaram índices inferiores do que era previsto.
Países como Japão, China, Índia e Nigéria também apresentaram índices de satisfação com a vida contrários ao que seria esperado pela renda que possuem: enquanto o Japão apresentou alta renda e bem-estar relativamente baixo, China, Índia e Nigéria não apresentaram escores de bem-estar extremamente baixos, como seria esperado pelo PIB que possuem.
Essas exceções observadas na relação entre maior bem-estar da população e tamanho do PIB do país podem ser justificadas pelo fato de a satisfação com a vida de uma população depender também de outros fatores além da renda, como aspectos políticos, aspectos culturais, além de aspectos relacionados a expectativas/metas de vida dos indivíduos. Por exemplo: os baixos índices de satisfação com a vida vistos no Japão, assim como os altos indicadores de suicídio e alcoolismo apresentados pelo país, têm sido interpretados como uma possível conseqüência da configuração da sociedade japonesa. A sociedade japonesa, além de ser extremamente regrada e ter fortes pressões para resignação/harmonia, apresenta metas de vida muito altas entre seus membros. Já os índices elevados de bem-estar entre habitantes da China, Índia e Nigéria podem ser uma decorrência do aumento de renda que essas nações vêm apresentando somado a expectativas mais baixas das pessoas em relação àquilo de que necessitam para ter uma boa vida.
(2) Paridade do Poder Aquisitivo remete ao poder de compra de um país. Avalia quanto uma determinada moeda pode comprar em cada país, visto que bens e serviços têm valores diferentes entre nações.
Um outro argumento que serve para explicar as diferenças encontradas na satisfação com a vida relatada por populações de diferentes países é o fato de as pessoas diferirem nas sociedades ao escolherem fatores que consideram relevantes para a avaliação de seu bem-estar. Existe uma dimensão cultural bastante ampla denominada "individualismo-coletivismo" que descreve os estilos de cultura e a possível influência deles sobre as avaliações de bem-estar.
"MULHERES RELATAM ESTADO DE ÂNIMO MAIS NEGATIVO DO QUE OS HOMENS; ESTUDOS ASSOCIAM O FATO POR ELAS EXIBIREM MAIS SINTOMAS LIGADOS À DEPRESSÃO"
Sociedades ou culturas individualistas, como os Estados Unidos, são aquelas que destacam a independência dos indivíduos e de seus pensamentos, escolhas e sentimentos. Em contraste, em sociedades ou culturas coletivistas, como a Índia, a ênfase está na interdependência do indivíduo com outras pessoas, os indivíduos são mais inclinados a sacrificar seus desejos em função das vontades e necessidades do grupo. A tendência individualista parece ser uma resposta adaptativa a comunidades urbanas grandes e anônimas e a uma economia comercial, enquanto a tendência coletivista parece ser uma resposta adaptativa a pequenas comunidades face a face e a uma economia mais voltada à subsistência.
Em sociedades individualistas, sentimentos agradáveis particulares, como a sensação de liberdade, são preditores fortes de satisfação com a vida, enquanto, entre os coletivistas, o seguimento de normas sociais, respeito e harmonia interpessoal são aspectos mais valorizados para avaliação de uma vida satisfatória. Essa influência do estilo cultural pode se estender até mesmo na confiança em que o indivíduo deposita nos próprios sentimentos para julgar sua satisfação com a vida. Se pessoas de nações individualistas acham natural consultar seus afetos quando estão decidindo quão satisfeitos são, visto que avaliam as sensações de emoções agradáveis como indicadores razoáveis de satisfação e bem-estar, indivíduos
Japão: apesar da alta renda, apresenta baixos índices de satisfação com a vida, altos indicadores de alcoolismo e taxas elevadas de suicídio
Alguns pesquisadores destacam que tais diferenças culturais repercutem também nos níveis de suporte social que os indivíduos obtêm dentro de suas comunidades. Extensas famílias de sociedades coletivistas são mais propensas a interferir na vida das pessoas, mas também podem providenciar grande suporte social em períodos conturbados. Da mesma maneira, poucas pessoas em sociedades coletivistas realizam ou buscam seus próprios desejos, mas também são poucos os que necessitam cuidar de si sozinhos, sem nenhum tipo de apoio. Já em sociedades individualistas, os indivíduos têm maior possibilidade de tomar iniciativas independentemente dos outros, incrementando o sentimento de autonomia/ liberdade ao mesmo tempo que podem estar mais predispostos ao egoísmo, a relações superficiais e à solidão. É exatamente em função desses custos e benefícios de cada estilo cultural que o bem-estar psicológico ótimo de uma população tem sido associado com o equilíbrio entre a orientação maciçamente voltada ao Self e aquela maciçamente voltada aos outros.
E NO FINAL DAS CONTAS...
Como vimos, variáveis objetivas como idade, gênero e ambiente podem exercer alguma influência sobre o bem-estar dos indivíduos. Entretanto, nota-se que a influência dessas variáveis não se dá de uma maneira única, direta e simples, que nos permite escrever uma receita sobre como ter felicidade.
Se você retomar os resultados das pesquisas destacadas neste artigo, perceberá que as variáveis objetivas parecem associar-se a variáveis particulares dos indivíduos (variáveis subjetivas) para exercer efeito sobre o bem-estar. Por exemplo, o aumento da idade associa-se com maior bem-estar quando variáveis subjetivas, como a capacidade de estabelecer relações positivas com os outros e o sentimento de autonomia, também estão presentes. Portanto, não é simplesmente uma idade particular, um gênero específico ou um local em que se mora que determinarão quão feliz uma pessoa será.
Os aspectos subjetivos são de importância fundamental para a compreensão do que pode tornar a vida de uma pessoa mais satisfatória. A manutenção de uma atitude positiva consigo mesmo, a capacidade de manter vínculos sociais baseados na confiança e empatia, o sentimento de autonomia, a manutenção de um propósito na vida e o sentimento de crescimento e desenvolvimento contínuos são exemplos de aspectos subjetivos que parecem acompanhar experiências de vida prazerosas entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias e de diferentes países.
Coletivismo versus individualismo: a diferença cultural também tem influência sobre o bem-estar da população; o equilíbrio é a chave
"A FELICIDADE INCLUI HABILIDADES SUBJETIVAS NATURAIS QUE NOS PERMITEM SENTIR PRAZER MESMO QUANDO NÃO GANHAMOS NA LOTERIA"
A felicidade humana, portanto, mostra ir além do bem-estar físico, da comodidade material e da ausência de afetos negativos. Ela compreende também habilidades subjetivas naturais que nos permitem ter experiências prazerosas mesmo quando não ganhamos na loteria, não viramos astros de cinema nem recebemos aplausos por aquilo que fazemos. É o convite a estudar tais habilidades que a Psicologia Positiva faz aos profissionais da área de saúde. E por que não valorizar as experiências positivas e aprender com elas o que faz você individualmente feliz?
Juliana Teixeira Fiquer é psicóloga, mestre em Bem-estar subjetivo pelo Departamento de Psicologia Experimental da USP e doutoranda em Avaliação de bem-estar e melhora clínica de pacientes depressivos submetidos a tratamentos farmacológicos e de estimulação cerebral pelo mesmo departamento.
Emma Otta é professora titular do Departamento de Psicologia Experimental da USP.
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