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domingo, 29 de abril de 2012
Excluídos da psicoterapia
Excluídos da psicoterapia
Individualismo e inércia da sociedade permitem o desenvolvimento de futuras patologias num completo descaso com o amanhã
Carlos Messa é psicólogo, vice-presidente da Ação Ciência e Saúde Social. Veja mais em: www.psic.com.br e www.acaociendia.org.br
Há quase um século se discute o benefício da psicoterapia, com uma boa dose de exclusividade, para a elite econômica. A psicoterapia é um processo caro e, dentro dos padrões econômicos brasileiros, exclui a maior parte da população. Até há pouco não havia como contornar esse problema, mas hoje, com a evolução ocorrida nas últimas duas décadas, é possível a realização de um trabalho profilático que reduz a incidência de um grande número de disfunções psico-emocionais.
Diante disso, surge uma outra questão: a sociedade ainda não consegue agir agora visando a um benefício a médio e longo prazo. O aquecimento global é um bom exemplo disso. O fato é estarrecedor, impacta, mas não gera ações imediatas. Parece que a sociedade tem preferência pela frase "amanhã, ninguém sabe". Mas sabe, sim, e não age empregando o conhecimento já disponível para a formação de adultos saudáveis e construtivos.
O ser humano registra e pauta seu comportamento com algo semelhante ao imprinting dos animais irracionais. Imprinting é o que faz com que um patinho, chocado por uma galinha, siga-a como se fosse sua mãe. No cérebro do homem, que é mais complexo, esse imprinting se parece mais com o sistema operacional de um computador (OS). O antigo DOS, o Windows, Unix e Linux atuais são exemplos de OS. Eles definem como o computador efetua o processamento e oferece suporte básico para que os programas (editores de texto, gerenciadores de mensagens, navegadores etc.) funcionem, isto é, tenham os comandos do usuário processados (entendidos) pelo hardware.
Individualismo ou aridez afetiva são apontados como responsáveis pela perda de viço nas relações nas grandes metrópoles
"Pais e mães ainda amam seus filhos, dedicam a eles suas vidas, mas não os têm como foco da atenção imediata"
Um exemplo comum de "aplicativo" do OS é o idioma. A pessoa muda de país e se utiliza de um segundo idioma por décadas. Ela pode, depois de acordar de uma anestesia, se comunicar num primeiro momento e, sem se dar conta, em seu idioma materno e, por isso, não ser entendida. A primeira língua, nesse caso, está no que, na comparação entre homem e computador, chamamos de Sistema Operacional e, por isso, presente, como base estrutural do comportamento. O idioma materno é "restaurado" sempre que há uma pane no sistema.
O trabalho psicoterápico, com freqüência, consiste em efetuar correções no sistema operacional do cliente. Caso a modificação seja feita no programa e não no sistema operacional, retorna muitas vezes com uma nova "roupagem" - um outro sintoma. Quase todas as correntes da Psicologia lidam com o que é denominado aqui como sistema operacional, como Szondi (Lipot Szondi), ao trabalhar as tendências instintivas.
Um dos comandos mais importantes do sistema operacional humano é a matriz de relação. A matriz de relação determina como se dá toda e qualquer relação entre o eu e o externo. Isso acaba definindo a trajetória da vida e, por extensão, o destino. Se no sistema operacional foi definido que o "externo" ao indivíduo o rejeita, e um amigo o cumprimenta, "Tudo bem?", o sistema operacional buscará formas de interpretar esse cumprimento vinculando-o à rejeição:
O que será que o amigo quis dizer com "tudo bem"? Será que aparento não estar bem? Fiz algo de errado na última vez que o vi?
O sistema operacional, diante dessa estrutura, leva o programa a emitir uma recepção inadequada ao contato do colega e responder de forma pouco entusiástica ou até negativa. O que gera uma relação restrita ou, pior, de afastamento, o que confirmaria a suposta "rejeição" inscrita no OS. Dessa forma, um OS configurado dessa maneira faz com que o indivíduo tenha de lidar com uma suposta rejeição, até o momento em que promova alguma alteração nesse OS.
A matriz de relação é impressa no OS desde os primeiros registros dos órgãos sensoriais (2.º, 3.º mês de gestação) até o 2.º ano de vida, e os programas relativos às relações vão se desenvolvendo e se sofisticando até a maturidade, porém sempre sob a condução do desenho inicial do OS. A criança que percebe, dessa forma, seus primeiros contatos com o externo (ainda no útero) como ameaçadores e continua assim na primeira infância, tem uma matriz de relação que remete o externo como ameaçador e reage como se realmente o fosse. Desenvolve, por conta disso, relações permeadas por essas determinações com reações, na maioria das vezes, preventivas, o que acaba tornando real o sentimento de ameaça. Essa criança, na escola, se mostra reticente e evasiva, o que pode provocar o distanciamento do professor ou que ela se torne alvo de chacotas dos colegas; o que concretiza o sentimento de ameaça. Tratar essa matriz no processo psicoterapêutico é comum, porém a profilaxia - a preparação das famílias para desenvolver matrizes "saudáveis" - traria um benefício maior para a sociedade e com um custo muito menor.
A mídia tem divulgado estudos sociológicos que mostram o individualismo como traço preponderante na sociedade atual. Do ponto de vista sociológico, o que é tido como individualismo pode ser identificado, pela Psicologia, como aridez afetiva. No mínimo, uma relativa perda de viço dessa afetividade nas grandes metrópoles.
Documentário:
Políticas de Saúde no Brasil: Um século de luta pelo direito à saúde conta a história das políticas de saúde no País, sua articulação com a história política brasileira, com destaque para os mecanismos criados para sua implementação, desde as Caixas de Aposentadorias e Pensões até a implantação do SUS. O filme, de caráter formativo, tem distribuição gratuita. Para receber o filme: sgep.dema@ saude.gov.br
Com os pais ausentes, crianças e adolescentes ficam ansiosos e têm o desenvolvimento afetivo e auto-estima limitados
ARIDEZ AFETIVA
Naturalmente o individualismo é estimulado pela sociedade competitiva, mas a aridez afetiva tem outra origem e efeitos, entre eles, a violência e a depressão. Esta última, a doença do século. Uma grande massa de indivíduos surgiu, desde que a mulher deixou de se preparar e dedicar sua vida à tarefa de mãe (terceiro quartil do século XX). Não podemos pensar hoje na mulher com os únicos papéis de esposa e mãe. É preciso aceitar, no entanto, que essa condição social - se inadequada - teve um aspecto benéfico, por oferecer ao bebê um "adulto significativo" e uma estrutura familiar com papéis bem definidos, modelo inicial que se expande para a sociedade com o crescimento da criança. A criança registra em sua matriz de relação a qualidade dos contatos com o "adulto significativo" - a relação de "emoção para emoção", e esse contato é necessário não só como propulsor do desenvolvimento cognitivo, mas também como formador da matriz de relação do indivíduo.
Na família atual, a criança deixou de ser o foco de atenção dos pais (da mãe dentro do contexto citado). Pais e mães ainda amam seus filhos, "dedicam a eles suas vidas", mas não os têm como foco da atenção imediata. Aconteceu uma mudança radical no desenho da "família" a partir dos anos 1970. Deixou de existir um provedor da família, e esse papel foi dividido entre o casal. Tornou-se fácil desfazer um casamento. O foco de ambos, do pai e da mãe, voltou-se para o provimento de recursos materiais para a suposta "formação" dos filhos e o vínculo primordial, criador do OS, ficou em segundo (ou terceiro) plano.
A criança é levada de casa para o berçário, deixando uma relação na qual os pais podem estar com o foco da atenção no trabalho, nas contas, em prazos e agendas. Lá encontra outro adulto que poderia ser significativo, mas também tem outras ocupações e preocupações. Seu desenvolvimento afetivo e sua autoestima se tornam, por isso, limitados. Com o tempo, pode aparecer uma elevada ansiedade por contato que vai aparecer em comportamentos impulsivos ou na ingestão automática de alimentos (obesidade). Fica um sentimento de menos valia com diversas respostas sociais inadequadas e experiências negativas cumulativas que desembocam em patologias com similaridade das que ocorrem nos Estados Unidos, como no exemplo "Columbine".
A escola, com algumas exceções, não se adaptou a essa nova demanda social, continuando num empenho infrutífero de oferecer "conteúdos", apesar de compartilhar o afeto das crianças. O resultado é que os OSs das crianças, sem distinção de classe econômica, vêm sendo estruturados com disfunções e o índice de violência nas grandes cidades galgou patamares muito acima do que seria esperado se computássemos apenas o imponderável (patologias não identificadas, "calor" de paixões, tentativas de escapar de punição e assemelhados). O resultado é que, mesmo não tendo atiradores solitários como nos EUA, temos a versão tupiniquim daqueles e poderíamos evitar, com um trabalho profilático:
O comportamento anti-social em jovens da classe média, da qual se espera uma "boa" formação (queima e agressão de indigentes, assaltos, contratação da morte dos próprios pais, avós etc.);
Distúrbios variados como de atenção, aprendizagem, impulsividade (o diagnóstico de distúrbio bipolar cresceu mais de 40 vezes nos últimos dez anos nos EUA);
O uso de antidepresivos por menores de 18 anos (mais de 1,5 milhão de pessoas nos EUA);
O índice brasileiro de hiperatividade parecido com o dos EUA, 4% a 8%, elevadíssimo se comparado ao da Europa (0,1%).
Escola Columbine
A aridez afetiva pode desembocar em experiências negativas cumulativas que desembocam em patologias. O episódio dos dois estudantes, Eric Harris e Dylan Klebold que, entraram em sua escola, em Littleton, no Colorado, na manhã de 20 de abril de 1999, e atiraram em colegas e professores é um exemplo. O ataque foi planejado por mais de um ano e, com um estoque de explosivos, pretendiam destruir a escola inteira. Em apenas 16 minutos, eles atiraram e mataram 12 alunos e um professor, ferindo mais 21 pessoas. O ataque não foi vingativo, era uma questão de fama: queriam ser imortalizados por ter assassinado o maior número de pessoas nos Estados Unidos.
Toda experiência em relação ao externo serve de referência para toda e qualquer relação com o ambiente
"A escola, com algumas exceções, não se adaptou a nova demanda social e ainda oferece apenas conteúdo, apesap da partilha de afeto com as crianças"
REPRODUÇÃO DE DISFUNÇÃO
Quem tem uma matriz de relação disfuncional tende a ser reprodutor dessa disfunção, passando-a à prole. Apesar disso, as ações profiláticas óbvias poderiam ser tomadas, mas são ignoradas pelo poder público por serem consideradas dispendiosas (mas quanto custa um processo, um julgamento, o sistema de carceragem?). Como por exemplo:
O aproveitamento da estrutura já em funcionamento para exames médicos pré-natais, acrescendo-se orientação aos futuros pais (ambos!), sobre o desenvolvimento humano (e como evitar distorções nos OSs);
A inclusão de aulas sobre Desenvolvimento Humano no currículo do Ensino Médio não só sobre reprodução, mas também sobre relações afetivas e papéis sociais;
A preparação e a inserção de "avós", já que um grande contingente de casais fica longe dos pais, dessa troca "de mãe para filha", e muitos idosos demonstram interesse em contribuir nesse tipo de orientação.
Pais e mães não têm consciência das alterações ocorridas nesses papéis, nas últimas décadas. De um jeito instintivo, houve uma reação, e o resultado é visto numa queda drástica no índice de natalidade, que passou de 2,7, em 1992, para 1,8, em 2006. Esse número é menor do que nos Estados Unidos (2,2) e comparável ao de diversos países europeus, e estava sendo esperado no Brasil só em 2043. As pessoas, de certo modo, perceberam que "é quase impossível criar filhos", porém não há a psicoprofilaxia com os poucos filhos que temos.
Ocorre que os pais do século XXI continuam "criando" os filhos com as mesmas informações que tinham os pais do século passado, sem se dar conta de que não são mais os "adultos significativos" de seus filhos nem são os guias únicos na delicada passagem que os bebês fazem, das sensações para percepções e emoções e, finalmente, para a cognição. Não se dão conta de que partilham a formação emocional, moral e de caráter de seus filhos, com a escola, a empregada e a TV. Como no século passado, sabem que a natureza faz o cérebro, mas não sabem e já poderiam saber que são os pais (ou outro o adulto significativo) que fazem a mente.
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