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domingo, 29 de abril de 2012
Memória: o fascínio da evolução biológica
Memória: o fascínio da evolução biológica
Responsável pela aquisição, manutenção, gerenciamento e evocação de informações, a memória é muito mais do que simples lembrança, é uma mudança de comportamento. Conheça quais fatores envolvem o assunto e como se dá essa mudança
Por André Frazão Helene
Memória é certamente um dos produtos mais fascinantes da evolução biológica e, também, extremamente sofisticada e envolvida em uma enorme gama de processos fisiológicos. O que torna uma definição precisa do que é memória difícil de ser apresentada. De maneira bastante sintética, aceita-se que memória seja responsável pela mudança de um comportamento a partir de uma experiência anterior. Memória tem a ver com mudança e entendê-la envolve saber como se dão tais mudanças.
É importante ressaltar que os sistemas e processos chamados de memória são aqueles responsáveis pela aquisição, manutenção, gerenciamento e evocação de informações. A partir disso, o conceito de memória deve ser expandido para muito mais do que se costuma chamar de lembrar, ligado à evocação de fatos e eventos vividos.
É sempre delicado transpor termos e conhecimentos acadêmicos para um formato mais abrangente: há uma perda de informação e precisão nesse processo, uma contaminação do significado científico, de termos mais ou menos precisos, pelo significado que as palavras têm normalmente no uso diário que fazemos delas. Isso também ocorre com o termo memória.
Apesar disso, esse esforço é obrigatório para qualquer um que queira transformar o conhecimento obtido em laboratório em algo que possa estar presente na vida das pessoas.
ONDE ESTÁ A MEMÓRIA NO CÉREBRO?
O funcionamento da memória está diretamente ligado à atividade eletroquímica das células neuronais. Wilder Penfield exemplificou, na década de 1930, com estímulos elétricos na superfície do córtex de pessoas acordadas. Eram relatadas recordações de fatos que há muito tempo não lembravam, assim como variadas experiências alucinatórias. O resultado dessa experiência mostra que a memória está expressa no conjunto específico e, ao mesmo tempo, na forma como as células neuronais - que compõem nosso sistema nervoso - serão excitadas.
Cada um desses neurônios envia projeções para milhares de outros neurônios que, por sua vez, recebem projeções de outros milhares de neurônios. Formam, assim, redes específicas ligadas a memória, também específicas, e uma enorme variedade de processos e elementos químicos ligados a esse processo. É nas sinapses (região de contato entre dois neurônios) que acontece o controle de qual ação que um neurônio terá sobre o próximo nessas redes.
Pode-se dizer, de maneira simplificada, que essas sinapses efetuam o controle da atividade do próximo neurônio da rede através da quantidade, forma e tipo de neurotransmissor liberado. Essas variações modulam a atividade do próximo neurônio, e assim por diante, representando um fato, uma ação ou uma sensação. Esses processos químicos são fundamentais para a memória e fazem parte de um conjunto grande de fatores que fazem com que certas redes sejam mais facilmente percorridas por esses disparos elétricos que outras, estabelecendo a existência de memórias.
Isto não quer dizer que todos os neurônios do sistema nervoso estejam associados a todas as memórias. Suas diferentes áreas estão ligadas a diferentes funções. Assim, segundo o exemplo de Penfield, se fossem estimuladas as áreas corticais mais posteriores, seriam relatadas experiências, inclusive memórias visuais. Isto ocorre porque a região mais posterior do córtex recebe estimulações originadas da atividade das células da retina e está ligada tanto à interpretação quanto ao arquivamento de informações visuais.
Atividades da memória
H. Ebbinghaus (1885) foi o fundador da pesquisa experimental da mem ória e definiu suas principais atividades: 1) o reconhecimento; 2) a recordação de percepções na forma de representações. O reconhecimento é posto à prova pela escolha de elementos apresentados antes de uma coleção de elementos antigos e novos.
A recorda ção, pela reprodução na chamada livre recordação ou após associação aos pares, em que se deve mencionar (mais raro mostrar) o segundo membro após a apresentação do primeiro. Em 1922, Kroh, entre outros, relatou desempenhos extraordinários de memória (de um assim chamado artífice de cálculo).
Dicionário de Psicologia Dorsch (Vozes, 2008)
Essas memórias, expressas nas regiões perceptuais, se alastram na forma de atividade elétrica dos neurônios, ativam áreas chamadas associativas e recebem estimulação de diferentes áreas perceptuais (visual, olfativa, auditiva etc.). Nessas regiões, da mesma forma, também ocorrem processos de formação de memórias, mas agora multimodais. O exemplo mostra claramente que, apesar de haver uma especialização das diferentes áreas, em última instância todas as regiões do sistema nervoso estão ligadas à formação de memória, de diferentes formas. Mais do que procurar por sítios de memória hoje se tenta entender os processos de formação de memórias, em quaisquer regiões que eles ocorram.
OS TIPOS DE MEMÓRIA
Do ponto de vista evolutivo, ser capaz de antecipar quais as conseqüências de certos atos ou experiências pode ser uma característica muito vantajosa e selecionada evolutivamente. Nesse sentido, integrar o conceito de evolução à psicologia cognitiva permite visualizar requerimentos específicos para um ganho na solução de problemas.
Inúmeros pesquisadores, por pensarem dessa forma, foram levados a propor a existência de conjuntos de habilidades, inclusive de memória, que poderiam ser identificadas como produto de uma seleção natural, chamados módulos de memória.
Parece haver, na história, uma convergência na aceitação de que tais módulos se expressam nas relações temporais do arquivamento de memória e no grau de consciência em que se tem acesso dessas memórias. É possível pensar que haja um "módulo" de memória associado a curtos períodos de tempo e, outro, a longos períodos de tempo de retenção, um tipo de memória de acesso consciente (dita explícita) e outra inconsciente (implícita). Apesar dessa descrição, excessivamente esquemática, não é um erro afirmar que estas relações revelam parte do quO conceito de modularidade caminhou para o estabelecimento de dois grandes módulos qualitativos diferentes de memória (ditos operacional e de longa duração - esse segundo, por sua vez, dividido em dois sistemas). Um conceito hipotético de memória operacional se refere ao arquivamento temporário da informação, mas não se restringe apenas à retenção por curto período de tempo. Envolve a manipulação de informações para a formação de estratégias e para o desempenho de uma diversidade de tarefas cognitivas.
Em paralelo, descreve-se que há um sistema de memória de longa duração responsável pela retenção de informações por um longo período de tempo e que pode ser subdividido em dois subsistemas: de memória declarativa (um saber quê) e de memória procedimental (saber como).
Apesar de essa proposta taxonômica, hoje em dia, ser muito criticada, é aceitável que sua origem seja bastante robusta, vinda da observação de uma grande variedade de pacientes neurológicos com perda de um tipo específico, sem prejuízo de outro. É bem provável que seja apenas um passo no caminho do entendimento de como funciona a memória.
O conceito de evolução integrado à psicologia cognitiva permite um ganho maior na solução de problemas
A IMPORTÂNCIA DE CADA COISA
Para entender melhor o tempo das coisas impressas na memória, talvez seja necessário perguntar para que serve a memória, ou seja, para que serve lembrar de algo? A memória proporciona a vantagem adaptativa da experiência prévia para a solução de uma diversidade de problemas que a sobrevivência impõe. Essa vantagem não se restringe a funções como o desempenho habilidoso de uma tarefa, gerada pelo registro de contingências espaciais e temporais entre estímulos, e desses com suas respostas.
Tampouco se restringe à lembrança de estímulos familiares ou de locais específicos do ambiente. Mais do que apenas isso, memórias permitem gerar previsões (probabilísticas) sobre eventos ambientais com base na identificação de regularidades passadas, possibilitam antecipar eventos e selecionar, entre inúmeras informações disponíveis no ambiente, as que receberão processamento preferencial. Assim, experiências ligadas a situações de importância à sobrevivência do indivíduo e, à indução de respostas emocionais, são melhores lembradas.
Um exemplo seria uma pessoa que sempre passa por uma esquina e não registra esse evento na memória. Mas, se uma única vez, quando virar a esquina, quase tropeçar em um cadáver, aí, sim, vai guardar na memória para o resto da vida e, talvez, nunca mais seja capaz de passar no mesmo lugar sem reviver a desagradável lembrança. Vale ressaltar que, a partir do exemplo, seria cabível perguntar o que aconteceria se uma pessoa, cada vez que virasse uma esquina, encontrasse um cadáver? Seria esperado que esse cadáver perdesse seu valor indicador de risco e essa pessoa passaria a não lembrar mais desses eventos como alguma coisa especial.
Para entender melhor o tempo das coisas talvez seja necessário perguntar para que serve a memória
As redes de neurônios, ligados por sinapses - além das sinapses químicas, há também sinapses elétricas -, parecem ser o engrama (marca definitiva e permanente que expressa a essência de seu funcionamento) da memória em nosso sistema nervoso central. Assim, é fácil imaginar que, se estas ligações sinápticas fossem rompidas, haveria um prejuízo para a atividade adequada da rede neuronal e, conseqüentemente, para a recordação de informações que dependessem desta. Da mesma forma, sinapses também podem sofrer processos que fortaleçam suas ligações; tais sinapses serão, então, muito mais estáveis e perenes. Esse processo pode ser descrito como consolidação de uma memória já adquirida, e memórias consolidadas são memórias muito mais duradouras. O impacto de informações adquiridas há muito tempo pode se basear nesse tipo de evidência, ou seja, fatos há muito guardados em nosso encéfalo serão memórias mais bem estruturadas que informações recentes, mesmo que menos "importantes". O tempo agiria na consolidação dessas memórias.
GINÁSTICA PARA LEMBRAR
Sem dúvida, ter uma vida saudável é uma das formas mais eficientes e simples de manter uma boa capacidade de memória. Condições como o consumo excessivo de álcool, fumo, a falta de sono ou o estresse são causas diretas de uma enorme gama de problemas de memória. Da mesma forma, evitar atividades que incorram em pancadas na cabeça e realizar atividade física moderada regularmente também são formas de se manter a memória em boas condições. Por mais que pareçam óbvias, essas questões estão ligadas a uma enorme gama de problemas fundamentais para a manutenção da pressão em níveis adequados, assim como para uma boa oxigenação, acesso a nutrientes etc.
Manter a atividade intelectual constante também é uma das melhores formas de obter um ganho adicional. A extensão dos ganhos de se manter atividade intelectual constante parece ser bastante grande. Por exemplo, pessoas com atividade intelectual constante apresentam menores prejuízos após um acidente vascular cerebral, assim como apresentam uma recuperação mais rápida. Da mesma forma, parecem ter menores prejuízos ligados ao envelhecimento normal.
Manter atividades de leitura, passatempos de problema de lógica e se expor a situações de aprendizado de novos conhecimentos são atividades que devem ser mantidas por toda a vida e que certamente trarão ganhos de memória além de outras funções cognitivas.
EXPERIÊNCIAS LIGADAS A SITUAÇÕES IMPORTANTES PARA A SOBREVIVÊNCIA DO INDIVÍDUO E À INDUÇÃO DE RESPOSTAS EMOCIONAIS SÃO MELHORES LEMBRADAS
Por outro lado, inúmeros são os livros com soluções para melhorar a memória, os mais variados possíveis, o que impossibilita uma generalização. Existem técnicas para facilitar a recordação de mais informações. Se, por exemplo, for apresentada a uma pessoa uma lista de 50 nomes de animais, dificilmente ela se lembrará mais do que alguns. No entanto, se essa pessoa, em vez de simplesmente lembrar de todos os nomes, classificar os animais em categorias (como "animais da fazenda", "animais domésticos", "aves") e, ao fim da apresentação, tentar lembrar primeiro das categorias (talvez sete ou oito) e somente então dos animais da lista, certamente ela terá um desempenho muito melhor.
A dificuldade de manipular simultaneamente mais do que oito ou nove informações independentes é fato. Mas, se a organização for em categorias, fica muito mais fácil e rápido recordar cada uma dessas informações. Isso significa, na verdade, melhorar o desempenho e não a memória.
Outra dica comum é fazer uma marca no objeto de interesse, como colocar um papel celofane de determinada cor sobre a página de um livro. Esse método também facilita a recordação, mas só se o papel não estiver sobre todas as páginas ou se todos os livros forem amarelos, afinal a cor em nada importa. O resultado é o mesmo de uma caneta marca-texto: chamar a atenção.
Algumas dessas técnicas são sofisticadíssimas, como a de um enredo complexo padronizado e muito bem conhecido pela pessoa, tal como uma rua com várias casas, cada qual com seu portão, cada portão com seus detalhes, e por aí vai. Depois de muito bem treinado, você pode encaixar as informações que deseja lembrar nesse enredo criando uma história. Na época em que era difícil gravar o texto em papel, era comum, para facilitar a recordação, os documentos serem escritos em versos. Sem dúvida, o desempenho será excelente em recordação de listas e pode ser usado como um bom passatempo intelectual, mas são apenas técnicas isoladas - assim como pintar uma folha de amarelo não é algo que se possa utilizar o tempo inteiro para tudo.
ENVELHECIMENTO, ESTRESSE E MUNDO MODERNO
O envelhecimento e o forte estresse podem ser causadores de falhas da memória, mas é importante ressaltar alguns aspectos. Quanto ao estresse, as conseqüências podem ser muito variadas, dependendo da duração desse tempo o qual a pessoa se sujeita. O estresse pode até ser saudável em alguns casos, mas pessoas que vivem em condições constantes de estresse podem desenvolver uma grande quantidade de distúrbios, entre eles, o que é conhecido como distúrbios de ansiedade (transtorno do pânico e transtorno obsessivo-compulsivo, além de problemas de memória).
Isso ocorre porque o organismo está preparado a responder a condições extremas como aquelas quando a pessoa se encontra sob grande pressão; mas não se engane: há um custo envolvido nesse processo. Alguns trabalhos mostram, por exemplo, que ficar sob estresse prolongado induz a liberação de cortisol, que age sobre duas estruturas do sistema nervoso central: o hipocampo e a amígdala. A ação crônica do cortisol sobre a amígdala (uma estrutura crítica envolvida em respostas emocionais) pode levá-la a uma hiperatividade, induzindo respostas ao medo exacerbadas. Já a ação crônica do cortisol sobre o hipocampo (estrutura diretamente ligada à formação e consolidação de memórias) induz à disfunção e, posteriormente, à morte de neurônios, trazendo problemas sérios de memória.
TER UMA VIDA SAUDÁVEL É UMA DAS FORMAS MAIS EFICIENTES
E SIMPLES DE MANTER UMA BOA MEMÓRIA
Quando se discute envelhecimento e funções de memória, devem-se diferenciar dois padrões. O envelhecimento sadio deve ser entendido não como prejuízo, mas uma mudança do padrão. Apesar de durante o envelhecimento haver um decréscimo no desempenho em tarefas que envolvem a retenção de informações, assim como em tarefas cognitivas variadas, observam-se também melhores desempenhos em tarefas que envolvem vocabulário lexical, por exemplo. Por outro lado, é comum o desenvolvimento de patologias neurais em pessoas idosas, e estas, sim, estão associadas a um enorme prejuízo de memória, os mais variados possíveis.
Às vezes pode acontecer, durante algum tempo ou se tornar freqüente, de esquecer coisas rotineiras, como não lembrar onde estacionou o carro no shopping. É preciso ter muito cuidado com que chamamos de coisas e qual, de fato, é o tempo envolvido nesse esquecimento. Em relação ao exemplo de estacionar um carro no shopping, vale ressaltar que essa talvez tenha sido uma informação que a pessoa nunca possuiu e não uma informação que foi esquecida. Estacionamentos podem ser gigantescos e possuem basicamente carros e colunas, ou seja, se alguém simplesmente tentar utilizar como referências informações como a cor do carro ao lado do qual estacionou ou a distância de uma coluna, não se pode dizer que esqueceu. Em um caso como esse ela nunca soube onde deixou o carro. É muito comum, quando se muda de emprego, ir a um lugar novo ou muito difícil de se localizar (como são os shoppings) onde ocorram esses lapsos, absolutamente normais.
Quanto à freqüência, depende muito. Uma pessoa que presta pouca atenção ao ambiente em sua volta certamente viverá com muito mais freqüência a perda do carro, e não por um motivo de falta de memória. Apesar de se saber que a maior parte dos casos com diagnóstico positivo para problemas patológicos de memória chega ao consultório médico através de uma desconfiança do próprio paciente, essa sensação - de falta de memória - certamente acompanha todas as pessoas, saudáveis ou não. Sendo assim, uma boa forma de avaliar se há de fato o prejuízo de memória é a indicação de outras pessoas que convivam com àquela que desconfia sofrer do problema.
Danos cerebrais
Perturbações da memória, danos no desempenho em decorrência de lesões centrais (do cérebro), derrames, efeitos de envenenamento ou processos de degeneração. A correlação entre determinadas localizações anatômicas das lesões e determinadas quedas no desempenho da memória é o principal argumento em favor das teorias da localização.
Dicionário de Psicologia Dorsch (Vozes, 2008)
As facilidades da tecnologia, como a memória de celulares e o uso de computadores com softwares de correção automática de texto, podem fazer com que lembremos uma menor quantidade de números de telefone. A existência de certas tecnologias faz com que seja comum não lembrarmos do número de telefone de amigos ou até da grafia certa de algumas palavras. No entanto, não diria que isso seja um problema de memória. Há desafios muito mais sérios trazidos pelo uso dessas mesmas tecnologias. Vivemos em cidades com milhares de quilômetros quadrados de área, onde devemos ser capazes de nos localizar com precisão. Esquecemos o número do telefone, mas somos capazes de lembrar o conjunto de 20 ações necessárias para gravá-lo no celular.
Ter uma boa memória não é tão complicado assim: vida saudável, atividade intelectual constante e a não exposição ao estresse crônico é do que todos precisam. Mesmo que seja impossível levar uma vida assim, a tentativa de melhorar alguns aspectos ajuda e muito. Ler livros, revistas e jornais e assistir menos televisão, ter o hábito de uma prática esportiva e ter mais atenção à alimentação parecem ser formas de contribuir para a saúde de sua memória.
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