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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Síndrome Tique-tique nervoso

SÍNDROME Tique-tique nervoso Desconhecimento acerca da síndrome de Tourette cria estigma e sofrimento em pacientes com o quadro e dificulta tratamento e a inclusão social desde a infância Desde os dois anos de idade, Roberto tinha atitudes que chamavam a atenção dos pais. Falava compulsivamente e gostava que lhe lessem histórias antes de dormir, mas sempre pedia que tomassem cuidado para que as páginas do livro fossem viradas de forma que uma folha não raspasse na outra. Quando entrou na escola, passou a repetir palavras obscenas, independentemente de hora ou local, sendo taxado por professores e colegas de "criança difícil" e "boca suja". Passados alguns anos, sua conduta se tornou mais estranha: freqüentemente, encolhia a barriga, dizia "ops" e apresentava pigarro e tosse inexplicáveis. Depois, começou a dar piscadas que culminavam em pulos, enquanto conversava, e giros, imitando helicóptero, quando estava alegre. O comportamento fez com que fosse zombado pelos colegas e deixou os pais angustiados por não conseguirem detectar as causas da conduta socialmente inadequada, mesmo com apoio psicológico e pediátrico. Ambos só descobriram o que havia de errado com o filho ao encontrarem descritos, em um site italiano, os sintomas da síndrome de Tourette. Diagnosticado pela primeira vez em 1985 pelo neurologista Gilles de la Tourette, o distúrbio é caracterizado por tiques: contrações musculares súbitas e manifestadas por espasmos, seja por movimentos, seja por expressões vocais. Tais ações podem ser simples, com um pequeno número de músculos (uma sacudidela de cabeça ou tosse, por exemplo), ou complexas, com padrões distintos e diferentes grupos musculares, como piscar os olhos fazendo caretas. De acordo com Henrique Ferraz, membro do Departamento de Distúrbios do Movimento da Academia Brasileira de Neurologia, outro traço dos tiques é o caráter semivoluntário. "A pessoa sente necessidade de executá-los. Pode até represá- los em um momento sob pressão, em que muitos a observam, porém fica ansiosa, desconfortável", explica. "Para receber o diagnóstico", diz o médico, "não basta apresentar tiques. É necessário que eles sejam repetidos por, pelo menos, um ano, ainda que com intensidade variada." Segundo Leonardo Fontenelle, professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a periodicidade dos tiques de Tourette os distinguirá dos tiques transitórios, comuns em crianças, que apresentam circuitos neuronais em desenvolvimento. O psiquiatra também aponta a sensação de desconforto que precede os tiques como outro traço que diferencia a síndrome de outras patologias, entre elas o transtorno obsessivo-compulsivo. "Naquela, os movimentos involuntários são repetidos, estereotipados e motivados por sensações desagradáveis; neste, os comportamentos disfuncionais (como verificar ou lavar) são desencadeados por pensamentos que geram ansiedade e são executados de acordo com regras rígidas", distingue. Além dos tiques, a síndrome de Tourette pode vir acompanhada de comorbidades: transtornos de ansiedade, de oposição desafiante e, especialmente, de déficit de atenção e hiperatividade. Existem ainda episódios de depressão, associados a fatores como severidade dos tiques, como mostra o estudo intitulado (em português) Locus de controle, estilo de paternidade percebido e sintomas de ansiedade e depressão em crianças com síndrome de Tourette, publicado na revista European Child & Adolescent Psychiatry, em fevereiro deste ano. A pesquisa foi feita com 53 meninos e 12 meninas, com idade entre 9 e 17 anos, que tiveram avaliados, por meio de questionários, depressão e sintomas de ansiedade, locus de controle (percepção da possibilidade de controlar o sintoma como interna ou externa) e história do parto. Segundo a pesquisa, "as taxas de sintomas de ansiedade e depressão em crianças com Tourette são acentuadamente influenciadas por fatores psicossociais, aumentando a influência do TDAH e de comportamentos obsessivo-compulsivos". "O aluno com Tourette tem pontos fortes para aprendizagem como qualquer outro e, por isso, não deve ser visto como paciente na sala de aula", defende Ediclea Mascarenhas. Para que crianças com o quadro aproveitem de forma plena a escola, a educadora diz ser necessária a realização, de forma discreta, de adaptações curriculares, para que elas não se sintam discriminadas. Veja algumas sugestões: Condutas - no caso de comportamentos obsessivos, o professor pode incentivar atitudes positivas, como deixar o aluno responsável por manter o mural organizado. Para lidar com a coprolalia (palavrões), pode-se motivar o estudante a buscar palavras exóticas e menos agressivas no dicionário. Didática - o conteúdo deve ter início, meio e fim. É aconselhável reservar um momento, ao final da exposição, para resumir os tópicos principais a fim de que o aluno reveja pontos não fixados. Uma forma de estimular a percepção do estudante é recorrer a apoio musical, dramático e visual, utilizando letras com caracteres ampliados e contrastes fortes entre figura e fundo, para reduzir a dispersão. "É necessário estimular e reforçar a participação dele com gestos e palavras, mas sem tornar isso uma exigência. O educador deve deixar que o educando apenas observe, se ele assim desejar", ressalta Ediclea. Material didático - no início da escolarização, os lápis devem ser mais grossos e os cadernos devem ter pautas largas para facilitar a coordenação e a escrita, respectivamente. As letras devem ser grandes e definidas; os exercícios, espaçados e os locais destinados a respostas das questões, bem demarcados. Computador, calculadora e gravador são suportes que minimizam problemas com a caligrafia e ajudam o educando a executar tarefas com mais agilidade. "Se o aluno estiver impossibilitado de escrever, um colega poderá auxiliá-lo, copiando a lição com uma folha de carbono para que ele possa recuperar um conteúdo perdido em casa", recomenda a psicóloga Avaliação - deve envolver diversas situações e contextos de ensino, permitindo ao aluno que expresse seu potencial e aprendizado de várias formas. Pode ser realizada oral e individualmente, com tempo expandido, para que o estudante se sinta mais seguro e a turma não se sinta prejudicada pelos tiques sonoros. Espaço - o aluno deve sentarse em local em que haja menos oportunidade para distração ou dispersão, bem iluminado e próximo do quadro e do professor. É também importante que possa se deslocar de forma confortável, caso necessite sair da sala para fazer uma "salva" de tiques. Debates - atividades que estimulem tolerância à diversidade humana - como debate sobre filmes ou livros - são bem-vindos. "Os objetivos afetivos são tão fundamentais quanto os cognitivos e motores. Desenvolver a autopercepção e o respeito ao semelhante contribuem para o aumento da auto-estima de todos os alunos", defende Ediclea CAUSAS BIOLOGICAS A etiologia da síndrome de Tourette não é exata. Para a maior parte dos especialistas, ela é desencadeada por fatores genéticos, mais precisamente disfunções nos chamados núcleos da base do cérebro. Estas estruturas estão interligadas por circuitos de neurônios, que se comunicam a partir de neurotransmissores, substâncias que desencadeiam uma série de reações químicas no neurônio seguinte para traduzir a informação a ser transmitida. A síndrome foi diagnosticada pela primeira vez por Gilles de la Tourette, em 1985 No caso de Tourette, pesquisas indicam aumento da atividade dos neurotransmissores serotonina, noradrenalina, e, principalmente, da dopamina, conta Ygor Arzeno Ferrão, médico psiquiatra do Hospital São Pedro, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e membro do Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (C-TOC). Segundo ele, também os fatores genéticos fazem a doença afetar principalmente os homens. "Entre as crianças em idade escolar, o total estimado é de cinco episódios para cada 10 mil indivíduos, com prevalência de 10 por 10 mil, para meninos, e um por 10 mil, para meninas. Entre adultos, o índice geral é de um para 10 mil, sendo 3 a 10 vezes mais freqüente no sexo masculino. Parece haver um fator de proteção para as mulheres, relacionado a hormônios", diz. Ferrão acrescenta que alguns estudos imunológicos recentes relacionam a doença a infecções de repetição, causadas por estreptococo. "Elas parecem desencadear uma disfunção do sistema imunológico de defesa do organismo, que passa a atacar alguns neurônios dos núcleos da base como se fossem corpos estranhos, tornando seu funcionamento inadequado", explica. AMBIENTE Na maioria dos casos, a síndrome de Tourette começa na infância e na adolescência, sendo crítico o período entre 10 e 12 anos de idade. No final da puberdade, os tiques costumam reduzir de intensidade e, em cerca de 30% dos casos, podem desaparecer, mesmo sem tratamento. De acordo com Ferrão, após esta fase, o aparecimento do transtorno é menos comum e costuma ocorrer por vulnerabilidade genética somada a fatores ambientais. "Este fato incomum estaria relacionado ao uso indevido ou abusivo de substâncias químicas lícitas (como álcool e medicamentos para emagrecer) ou ilícitas, sobretudo as que afetam o funcionamento dos neurônios dopaminérgicos, como maconha e cocaína. Devem ser investigados também fatores neuropsiquiátricos, como acidentes vasculares cerebrais, focos epiléticos e tumores", alerta o psiquiatra, que é sócio da Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivocompulsivo (Astoc). O psiquiatra Pedro Gomes de Alvarenga - pesquisador do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-compulsivo (Protoc) do Hospital das Clinicas de São Paulo - confirma a crença de que transtornos neuropsiquiátricos tardios dependem mais de causas ambientais, e destaca que estes fatores podem interferir em tiques diagnosticados na infância. "O diagnóstico se pauta na forma do sintoma. Já o conteúdo é extremamente variável, dependendo da cultura e das representações simbólicas do indivíduo. Sendo assim, o paciente pode realizar involuntariamente gestos obscenos (copropraxia) e dizer palavrões (coprolalia), porque tais manifestações estão imersas na cultura dele", diz. Publicado em janeiro de 2008 no Journal of Neural Transmission, o estudo O Aparecimento de Tourette é influenciado por eventos da vida? comenta a interferência dos fatores ambientais, com base em pesquisa realizada com 93 participantes de 7 a 18 anos: 41 com Tourette; 28 com comportamento obsessivo-compulsivo e 24 saudáveis. Todos tiveram a influência de eventos estressantes em suas atitudes verificadas por testes, entre eles o de análise de experiência de vida (LES). Curiosamente, o levantamento mostrou que o grupo saudável vivenciou mais eventos estressantes. Tendo isso em vista, os pesquisadores alegam que "o começo da síndrome de Tourette não é provavelmente dependente de fatores ambientais nãobiológicos, apesar de suas exacerbações e, em alguma medida, o desenvolvimento e diminuição da desordem o serem". Transtornos correlatos à síndrome de Tourette Doença de Wilson - distúrbio genético ligado ao gene ATP7B, que reduz a excreção hepática de cobre, fazendo com que a absorção do metal exceda as quantidades necessárias. Acomete principalmente fígado e sistema nervoso central. Os sintomas mais freqüentes são anormalidades motoras, como distonia, hipertonia e tremores. Doença de Huntington - transtorno hereditário em que os portadores têm espasmos ocasionais e perdem gradualmente células cerebrais, evoluindo para quadros como coréia, atetose e deterioração mental. Os sintomas aparecem entre os 35 e os 40 anos de forma sutil, dificultando diagnóstico precoce. Os pacientes podem tornar-se irritáveis e excitáveis; promíscuos; deprimidos; e perder a capacidade de pensar racionalmente. Coréia de Sydenham - manifestação neurológica da febre reumática de base auto-imune, geralmente em conseqüência de infecção por estreptococo. Ocorre na infância. O quadro clínico é marcado por movimentos involuntários, rápidos, irregulares e sem finalidade dos músculos dos membros, da face e do tronco; diminuição da força muscular; hipotonia muscular e instabilidade emocional. Doença de Hallervorden- Spatz - doença autossômica de caráter recessivo. Surge na infância ou adolescência com sinais motores piramidais e extrapiramidais. Após os 20 anos, pode manifestarse por parkinsonismo. O quadro clínico inclui bradicinesia (lentidão na execução de um movimento), espasticidade (rigidez e espasmos musculares), coreoatetose (associação de movimentos involuntários), ataxia (perda de coordenação dos movimentos musculares voluntários) e convulsões. Fonte: sites do Ministério da Saúde e do Manual Merck e o artigo " "Tourette: por dentro da síndrome", publicado na Revista de Psiquiatria Clínica em 2005. Hereditárias, genéticas, neurológicas: outras doenças também são desafio à Medicina TOC: ENTENDA A DIFERENCA A síndrome de Tourette e o transtorno obsessivo-compulsivo são distúrbios relacionados geneticamente e que podem se manifestar de forma conjunta, porém apresentam sintomas distintos. Segundo o DSM-IV, uma das principais referências adotadas pelos profissionais de saúde mental, os principais critérios utilizados para diagnosticar o segundo transtorno são "presença de obsessões ou compulsões; reconhecimento de que os sintomas são excessivos ou sem sentido; sintomas que causem sofrimento, consumam tempo (mais de uma hora por dia) ou interfiram no funcionamento". É menos comum a síndrome de Tourette surgir na fase adulta, sugerindo uma ligação ao uso indevido ou abusivo de drogas Para Ygor Ferrão, o primeiro passo para compreender o TOC e saber diferenciálo da síndrome de Tourette é entender os conceitos de obsessões e compulsões. No primeiro caso, existem idéias, pensamentos, impulsos ou imagens vivenciados de forma intrusiva, inadequada e que causam acentuada ansiedade ou sofrimento. Já o a compulsão é um ato mental ou um comportamento repetitivo feito para prevenir ou reduzir ansiedade ou sofrimento, em vez de oferecer prazer ou gratificação. É geralmente excessiva ou não tem conexão realista com aquilo a que visa neutralizar ou evitar. "Os conteúdos das obsessões podem ser dúvidas repetidas, necessidade de organização, impulsos agressivos ou horrorizantes e imagens sexuais, por exemplo. Já para compulsões é possível citar lavagem ou limpeza, verificação, contagem, colecionismo, entre outros", exemplifica Ferrão. Ferrão ainda destaca que no TOC não é verificada a presença de tiques, mas de compulsões facilmente confundidas com eles na prática clínica, chamadas de "ticlike": comportamentos semelhantes, porém realizados com o objetivo de diminuir a ansiedade, medo ou preocupação causados por uma obsessão. Eles estão presentes em 70% a 80% dos pacientes com TOC e Tourette, e em 20% a 40% dos pacientes com TOC associado a tiques. Tais números vêm do artigo As bases neurobiológicas do transtorno obsessivo-compulsivo e da síndrome de Tourette - publicado no Jornal de Pediatria, em 2004 - que discute a diferença entre os dois transtornos. De acordo com o texto, rituais são a expressão de uma organização neuronal e podem servir para "aliviar o sistema cerebral". Contudo, em algumas pessoas, tais ações sofrem um processo de descontrole e passam a ser repetitivas, sem nenhuma funcionalidade e com prejuízo da capacidade adaptativa - situação que se aplica tanto para TOC quanto para Tourette. Na opinião dos autores, o diagnóstico diferencial entre ambos é muitas vezes difícil, principalmente quando se leva em conta a semelhança entre compulsões e tiques complexos. "Um ponto a ser considerado é a sobreposição entre esses dois quadros. Um critério que tem sido utilizado é classificar o movimento repetitivo como tique complexo quando a criança apresenta outros tiques, mas nenhum sintoma de TOC. Da mesma forma, quando a criança apresenta outros sintomas obsessivos-compulsivos, mas nenhum tique, o comportamento repetitivo é considerado como uma compulsão", dizem. Ainda segundo o texto, existe uma diferença nas experiências subjetivas que precedem ou acompanham os comportamentos repetitivos. "Os episódios de TOC sem comorbidade com tiques apresentam, mais freqüentemente, pensamentos, idéias ou imagens (fenômenos cognitivos) e sintomas somáticos de ansiedade (fenômenos de ansiedade autonômica) precedendo seus comportamentos. Os casos de TOC associado a Tourette ou da síndrome isolada, no entanto, relatam sensações desconfortáveis, físicas e/ou mentais (fenômenos sensoriais), precedendo os comportamentos repetitivos", diferenciam os pesquisadores. "TOURETTE E TOC SÃO DISTÚRBIOS RELACIONADOS GENETICAMENTE QUE PODEM SE MANIFESTAR DE FORMA CONJUNTA, PORÉM APRESENTAM SINTOMAS DISTINTOS" Os rituais presentes no TOC seriam expressão de uma organização neuronal com fim de "aliviar o sistema cerebral" QUANDO SURGE O TDAH Quarenta por cento a 80% das crianças com Tourette apresentam transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), quadro caracterizado principalmente por desatenção e impulsividade. As razões para as duas doenças se manifestarem juntas não são claras e não apontam necessariamente para uma causa genética, afirma o estudo Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, tiques e síndrome de Tourette: relação e implicações do tratamento, publicado em 2006 pela European Child & Adolescent Psychiatry. O artigo aponta algumas justificativas para a relação entre os dois distúrbios. Uma das hipóteses é a de que possam existir dois tipos de indivíduos com Tourette e TDAH: aqueles nos quais os dois distúrbios se manifestam de forma independente e outros nos quais o TDAH é desdobramento da síndrome de Tourette. Cogita-se a existência do "TDAH puro", fenomenologicamente diferente da manifestação das duas doenças em conjunto. O texto ainda menciona que, quando TDAH e Tourette se manifestam conjuntamente, este é geralmente o motivo para buscar orientação em consultórios, seja para dificuldades na escola, seja nas relações interpessoais. "Há consistência nos achados em que crianças e indivíduos com tiques persistentes ou Tourette têm maior prevalência de TDAH, problemas comportamentais e/ou performance escolar prejudicada, com muitos casos a exigir educação especial. Deste modo, TDAH é uma comorbidade significativa, com relevância epidemiológica em cenários públicos", dizem os autores. "É PRECISO TER CAUTELA NO TDAH ASSOCIADO À TOURETTE, POIS ALGUNS MEDICAMENTOS MELHORAM O TDAH, MAS PIORAM OS TIQUES" Outro ponto relembrado pelo artigo é a necessidade de o clínico verificar quais sintomas são mais problemáticos em pacientes com Tourette para, então, tratá-los, tendo em vista que "os mais jovens ficam tão inquietos com os tiques que tentam suprimi-los, o que pode parecer pouca concentração". Todavia, este não é o único cuidado a ser tomado quando há suspeita de que as duas doenças se manifestam ao mesmo tempo. De acordo com o neurologista Henrique Ferraz, alguns medicamentos melhoram o TDAH, mas pioram os tiques. "Sendo assim, é necessário pensar sobre o que deve ser priorizado", alerta. Cirurgia questionável Os fatores que desencadeiam a síndrome de Tourette não são o único tópico em que não há um consenso entre os especialistas em saúde mental que estudam o transtorno. Impasse semelhante é percebido ao discutir a eficácia da estimulação cerebral profunda, cirurgia utilizada para tratar os casos extremos da doença e conhecida como "marca-passo cerebral". O neurologista Henrique Ferraz, por exemplo, é um dos que defendem a utilização do método em casos em que o paciente se encontra completamente afastado do convívio social e não obteve melhora com o tratamento medicamentoso adequado. "O procedimento é simples e seguro, guiado por aparelhos de estereotaxia. Prevê a destruição de uma pequena área hiperativa do cérebro, os núcleos de base, em gânglios", explica. Já a psiquiatra Ana Houne apresenta resistência à técnica. De acordo com ela, a estimulação cerebral profunda é desenvolvida desde os anos 70 e, desde então, obteve bons resultados em procedimentos com pessoas com doença de Parkinson e com depressão - todas elas selecionadas criteriosamente. Porém, sua eficácia para episódios de transtorno obsessivo-compulsivo e síndrome de Tourette permanece em fase de estudo. "Ainda não foi possível estabelecer qual a melhor forma de realizar esse tipo de intervenção. Pesquisadores da Universidade Brown, nos Estados Unidos, apontam que não há consenso sobre o melhor 'alvo' no cérebro a ser estimulado para a síndrome de Tourette", destaca. A pesquisadora do Protoc ressalta que a cirurgia possui barreiras de ordem tecnológica e financeira para ser implantada, considerando que o sistema de estimulação só funciona com baterias implantáveis, com vida útil limitada. "Nos casos de TOC, elas precisam ser trocadas seis a nove meses depois. Como a maioria dos pacientes utiliza dois aparelhos para estimular os dois lados do cérebro, a necessidade de troca periódica dos sistemas implica custos proibitivos para a maioria dos centros de pesquisa do Brasil - cerca de R$300 mil a 800 mil em cinco anos, só em aquisição do equipamento". Falta de consenso sobre a área a ser estimulada no cérebro ainda gera polêmica em torno da cirurgia TRATAMENTO COMBINADO Ainda não existe cura para a síndrome de Tourette, porém é possível conseguir significativa redução dos tiques por meio de três frentes de tratamento: a biológica, a psicológica e a social. No primeiro caso, é feita uma combinação de psicoterapia e medicamentos de três grupos. "Primeiramente, são utilizados anti-hipertensivos, usados para tratar pressão alta. Eles proporcionam melhora nos tiques em 60% dos casos. Quando não fazem efeito, recorremos a antipsicóticos de segunda geração, com eficácia de 80% ou 90%. Em último caso, são prescritos os de primeira geração. Têm eficácia em mais de 90%, mas provocam uma série de efeitos colaterais", diz a psiquiatra Ana Houne, participante do Protoc e do Comitê Científico da Astoc. Em estudos recentes, mencionam- se tratamentos alternativos, em que são utilizadas drogas como a nicotina, a tetrabenzina e a benzodiazepina. Todavia, alerta o psiquiatra Ygor Ferrão, tais substâncias "precisam de maior evidência científica de sua eficácia, e o mesmo ocorre com drogas como selegilina, guanfacina, cafeína, clonazepam, e com tratamentos não-farmacológicos, entre eles injeção botulínica, eletroconvulsoterapia, acupuntura, biofeedback, hipnose e neurocirurgias". A frente psicológica, por sua vez, abrange diversas linhas, como a psicoterapia comportamental - que ensina o paciente a identificar e controlar os tiques com o treinamento de reversão de hábito - e a psicanálise. "A síndrome de Tourette não é um diagnóstico psicanalítico. Neste sentido, o papel do psicanalista está atrelado à singularidade daquele que o procura. Ele será ouvido em suas queixas, angústias e desejos, a fim de que possa criar novas linhas de facilitação pela livre associação de pensamentos e idéias", explica a psicóloga Ana Maria Sabrosa, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, fazendo referência a Freud. Crianças com tiques persistentes têm maior prevalência de TDAH, problemas comportamentais e desempenho escolar prejudicado Um dos principais pontos a serem trabalhados pela análise será o contexto familiar de crianças com Tourette, diz Ana Maria. De acordo com a psicóloga, alguns pais acreditam que o comportamento dos filhos seja um "cacoete" fácil de eliminar ou que eles agem dessa forma "de propósito", só para chamar a atenção. "A orientação psicanalítica é fundamental para que sejam pensadas as representações psíquicas dos pais relacionadas ao filho. Ela irá colaborar para que as ansiedades que os pacientes sofrem sejam, aos poucos, elaboradas. Durante uma sessão de análise, não é pouco comum percebermos que um tique antes constante começa a espaçar e até mesmo a ser suprimido", afirma Ana Maria. Já o aspecto social do tratamento dos pacientes com Tourette e seus familiares se faz presente nas associações de portadores do transtorno, mais precisamente nos grupos de ajuda que aí existem. Sônia Borcato trabalha como psicóloga em um dos núcleos ligados à Astoc, sediado no Instituto de Psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo. Segundo ela, as reuniões surgiram da necessidade de aproximar pessoas com dificuldades para que não se sentissem sozinhas. "Juntos, os portadores discutem suas angústias e oferecem apoio mútuo. Nossa esperança é que ações de cunho sociais possam de fato remover essas barreiras", diz. Para Ricardo Pimentel, pai de Roberto - mencionado no início deste artigo -, além de contribuírem para a recuperação da autoestima dos que têm a síndrome, os grupos de ajuda são importantes para os pais dos portadores, na medida em que oferecem compreensão ao que se passa com filho, orientam a aceitá-lo e a lidar com os tiques. "Boa parte dos pais não admite que sua 'cria' tenha problemas, principalmente o pai. Se, para ele, o problema não existe, não há o que solucionar. Em outras palavras: temos de quebrar esta resistência para que a criança seja tratada. É necessário que compreendam que a criança é diferente em aspectos comportamentais para ajudá-la e lutar para que ela seja aceita", diz. Reversão de hábito O tratamento medicamentoso é, sem sombra de dúvida, a principal técnica utilizada por pacientes com síndrome de Tourette para controlar os tiques, porém não a única. No campo da Psicologia, tem tido destaque o treinamento de reversão de hábito. De acordo com o artigo Breve revisão sobre treinamento de reversão de hábito para síndrome de Tourette, publicado em 2006 no Journal Child of Neurology, o método é fundamentado em modelos comportamentais contemporâneos que reconhecem a origem biológica dos tiques mas defende que estes podem ser piorados, melhorados ou mantidos por fatores ambientais. "Neste caso, a redução do tique é possível se o indivíduo se torna mais ciente destes comportamentos e apresenta, fisicamente, uma resposta concorrente para prevenir ou interromper a ocorrência deles", diz o estudo. Ainda segundo o texto, o pacote completo desse tipo de tratamento requer diversas atividades terapêuticas, entre elas treinamento de consciência, automonitoramento dos tiques, treinamento de relaxamento e técnicas de motivação. Para alcançar consciência do tique, o paciente é ensinado a detectar sinais de alerta, como desejos premonitórios ou os movimentos iniciais envolvidos no tique. Por meio de demonstrações de modelos e suporte terapêutico, ele aprende a identificar pistas que sinalizam que um tique é iminente. Em seguida, aprende exercícios de relaxamento e uma resposta concorrente - comportamento físico que evita que o tique se realize. Na opinião de Sônia Borcato, a principal contribuição dos treinos é fazer com que o paciente tenha apresentação socialmente mais adequada e com menor repercussão. Para a psicóloga, a participação da família e pessoas próximas no tratamento tenderá a torná-lo mais eficaz. "É uma forma de garantir que esses procedimentos sejam feitos por mais tempo durante o dia e em outros ambientes, para que ocorra a generalização e o indivíduo se sinta mais seguro em relação ao seu desempenho. Isto facilitará também o controle de tiques em ambientes desconhecidos ou incômodos, onde a ansiedade tende a ser maior", diz. O tratamento psicológico da Tourette engloba treinamento de consciência, automonitoramento dos tiques, relaxamento e técnicas de motivação INCLUSAO Estimulado pela experiência com o filho - hoje com 12 anos - o engenheiro Ricardo Pimentel fundou em 2005 a Associação Santista de Síndrome de Tourette e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (Sitoc), instituição que preside, no momento. Hoje, a entidade tem mais de 500 portadores dos transtornos cadastrados e já conseguiu, segundo Pimentel, algumas conquistas, como a ampliação da lista de medicamentos oferecidos pela rede municipal de Santos a pacientes com síndrome de Tourette, TOC, TDAH e depressão. "Precisamos nos unir para combater o desconhecimento. Só assim conseguiremos o tratamento dos portadores e dos familiares e a compreensão da sociedade acerca da importância da inclusão social destes cidadãos", ressalta Pimentel. É fundamental que os educadores trabalhem com a família para que crianças e adolescentes com Tourette possam aproveitar a escola Para tornar mais conhecida a síndrome de Tourette, a entidade disponibiliza uma coleção de vídeos relacionados à patologia em um site da internet (www. youtube.com/sitoctube) e promove palestras em escolas, "um dos locais em que é mais complicado incluir crianças e adolescentes com Tourette", de acordo com Pimentel. Ele esclarece que os professores costumam ser receptivos, mas "sentem falta de instrumentalização para lidar com os alunos. Procuramos mostrar que o discurso da inclusão não existe só para contruir rampas para cadeirantes nas escolas, colocar pessoas com deficiência visual na fileira da frente, ou lidar de forma especial com quem tem síndrome de Down, como mostram as telenovelas. Vai bem além disso, e a escola é o lugar ideal para tratar as diferenças percebidas na vida real. Ela não deve ser um ambiente artificial, onde se espera que todos sejam iguais, porque se assim for deixará de formar cidadãos para virar mera transmissora de conhecimentos científicos". Ediclea Mascarenhas, professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ratifica a opinião do pai de Roberto. Na opinião da psicóloga e psicopedagoga, é fundamental que os educadores "trabalhem com a família" para que crianças e adolescentes com Tourette possam aproveitar a escola de forma plena. "Devemos perguntar às famílias o que elas gostariam que seus filhos aprendessem. Geralmente, a escola volta-se para objetivos pontuais do currículo, e às vezes a família deseja que o filho aprenda competências sociais básicas, como reduzir comportamentos estereotipados em ambientes novos ou ter paciência para andar de ônibus ou para esperar que o sinal de trânsito fique livre para atravessar a rua", diz ela, que é responsável também pelo Setor de Psicologia do Hospital Infantil Ismélia da Silveira. A pedagoga alerta os educadores para a tendência de infantilizar o aluno - "o que lhe causará dificuldades secundárias" - e recomenda incluir competências e habilidades sociais nos objetivos curriculares para alunos com Tourette, além de promover atividades que trabalhem o respeito às diferenças. "A inclusão não deve se restringir ao debate. Deve ser vivência, experiência. Não adianta o aluno escrever um belo texto sobre preconceito e praticar intolerância com seu colega no dia-a-dia. O professor deve possibilitar aos alunos esta percepção", ressalta. "É NECESSÁRIO QUE OS PAIS COMPREENDAM QUE A CRIANÇA É DIFERENTE EM ASPECTOS COMPORTAMENTAIS PARA AJUDÁ-LA E LUTAR PARA QUE ELA SEJA ACEITA"

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