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domingo, 29 de abril de 2012

Transcender é preciso

Transcender é preciso A Psicologia Transpessoal busca soluções e perspectivas para o mundo atual e integra razão, emoção, sensação e intuição Por Vera Saldanha Colaborou Mônica Serrano Desde que a Psicologia tornou-se uma disciplina separada da Filosofia e adquiriu o status de Ciência no final do século XIX, buscou estabelecer um conjunto de princípios que compreendesse o ser humano e pudesse favorecer seu processo de desenvolvimento, cura e aprendizagem. Foram criadas distintas escolas e de acordo com sua visão antropológica e visão de mundo, desenvolveram diferentes recursos de atuação na área clínica e na educação. Na década de cinqüenta, Abraham Harold Maslow, psicólogo já então catedrático, pesquisador e docente em universidades dos Estados Unidos, Canadá e México, ampliou o horizonte da Psicologia trazendo questionamentos a respeito de quão pouco a Psicologia de sua época havia contribuído para questões tão dolorosas da guerra e do sofrimento humano. Declarou que até então Freud havia feito um excelente trabalho sobre o lado doente do ser humano, mas que deveríamos também conhecer quem é o ser humano saudável, sua natureza, seu desenvolvimento, para que realmente pudéssemos contribuir para uma sociedade melhor. Denunciava sua inquietação em relação à cisão entre ciências e valores, por exemplo, sobre as perspectivas eufóricas que eram anunciadas para o ano 2000, enfatizando somente o avanço tecnológico. Lembrava que recursos mais poderosos nas mãos de pessoas estúpidas iriam gerar um mal maior e uma destruição ainda pior. Afirmava que a Ciência sem valores não é amoral, mas imoral. Suas apreensões refletem o momento atual em que precisamos de seres humano melhores, precisamos de uma sociedade melhor, ou corremos o risco de viver constantemente sob tensão, angústia, com ameaça de extinção da própria espécie e do planeta Terra. Vidas Passadas A chamada Terapia de Vida Passada, em sua grande maioria, não considera aspectos psicológicos do desenvolvimento da personalidade. Tem um modelo para- digmático mais me- canicista, de causa e efeito diretos: um individuo é inseguro porque certa vez alguém lhe disse que ele era totalmente incompetente; se ele tem uma cefaléia, é porque em uma suposta vida passada foi guilhotinado. São relações de causa e efeito. ignoram-se os aspectos sistêmicos, as interações múltiplas entre o sujeito e os objetos, bem como as inúmeras possibilidades e situações em que o sintoma foi se estruturando e as situações temáticas repetitivas na vida do individuo. Em muitos casos, o paciente continua apresentando os mesmos sintomas, mas agora ele “justifica” “o porquê” de ter tal comportamento, sem contribuir para a libertação e evolução do individuo. Apenas o torna prisioneiro de seus sintomas e neuroses. Ampliando o legado dos mecanismos de defesa freudiano, acrescentou a dessacralização, a perda do sentido do sagrado, a banalização do cotidiano, da sexualidade e da própria violência. Outro mecanismo de defesa identificado por ele foi o complexo de Jonas, a recusa a ouvir a própria voz interior, nossa essência mais genuína; a perda da própria subjetividade, a perda de si mesmo por medo do ostracismo, gerando uma Normose coletiva, ou seja, atitudes totalmente doentias, insanas, mas que pela alta incidência generalizam-se como sendo normais. Seus estudos no contexto antropológico, psíquico e social levaram-no também a pesquisar sobre o que denominou de experiências culminantes e experiências platô, enfatizando que tais experiências remetem-nos a estados mais elevados da consciência, promovendo o autoconhecimento com maior profundidade, bem como a emergência de valores positivos e de uma ética natural saudável. Simbolicamente, o ser inicia seu desenvolvimento na morte intra-uterina Atribuía à transcendência os aspectos mais elevados do ser, os quais se dão na relação intrapessoal, interpessoal e mais além. São dimensões inclusivas na natureza humana, representam o processo de individuação e da cognição do ser e não de auto-aniquilação da individualidade ou de separação entre psique e espiritualidade. Deixava claro que a dimensão espiritual é parte de nossa biologia subjetiva, que corpo sem espírito é cadáver e espírito sem corpo pode ser anjo, fantasma ou qualquer outra atribuição que se queira dar. O ser plenamente humano necessariamente envolve corpo e espírito. Para ele, sem a dimen- são espiritual o ser humano torna-se violento, niilista, apático ou vazio de esperança. Neste sentido, criticava tanto a Ciência positivista quanto as religiões, pois estas haviam descarac- terizado esta unidade (corpo-espírito), a Ciên- cia focando só a matéria, a religião, só o espírito. Trouxe à Psicologia uma nova visão que reconhece a espiritClaro que no âmbito psico-espiritual há vi- vências patológicas, mas o próprio tratamento deve contemplar o ser na sua inteireza para real- mente ajudá-lo a recuperar sua sanidade. Como reconhecimento por seu traba- lho foi eleito presidente da APA, American Psychology Association, no biênio 68-69, quando oficializou a Psicologia Transpessoal, com Viktor Frankl, Stanislav Grof, Antony Sutich e James Fadiman. Inserindo uma nova linguagem conceitual na Psicologia, a qual in- tegra espiritualidade e transcendência como inerentes ao ser humano saudável, sem a qual este adoece física, mental ou socialmente. Ir além pela Regressão A terapia de regressão de memória pode ser amplamente utilizada. Podemos associá-la a um processo psicoterapêutico, como forma de ampliar o conhecimento da origem de traumas e pós-traumas emocionais, por exemplo. Se considerarmos que muitos sintomas que dão origem às doenças físicas estão relacionados com desequilíbrios ou desordens emocionais, como já validam a psiconeuroimunologia, a psicossomática, entre outras ciências; podemos dizer que uma terapia regressiva pode beneficiar não só a investigação, mas também servir como auxiliar no alívio e remissão de muitos sintomas, tais como: ansiedade, depressão, síndrome do pânico, fobias em geral, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, entre outros. Pode ser também utilizada para acessar boas memórias como forma de ressignificar um padrão de comportamento de baixa auto-estima, levando o paciente a reconhecer momentos nos quais se viu realizado, feliz, capaz e usar desses registros para ampliar suas potencialidades no momento atual de sua vida. Ao submeter uma pessoa à regressão de memória deve-se ter muita cautela. Primeiramente não é aconselhável que se aplique uma técnica isolada sem um contexto psicoterapêutico. A regressão de memória é mais um recurso valioso, mas deve ser contextualizada no processo como um todo, e o profissional deve estar muito seguro de que o paciente tem recursos e maturidade emocionais suficientes para poder acessar possíveis conteúdos traumáticos, quase sempre carregados de emoção, e poder elaborá-los e integrá-los auxiliando- o em seu desenvolvimento; caso contrário é o mesmo que abrir uma “caixa” e não saber o que fazer com o que tem dentro dela. O importante é saber auxiliar o paciente na integração e elaboração dos conteúdos que emergirem de seu inconsciente, levando-o a compreender sua dinâmica psíquica, ampliando assim seu autoconhecimento. Dentro do enfoque Transpessoal acredita-se que os conteúdos que se manifestam por meio da regressão de memória não devem ser relacionados com vidas passadas. Relevante é compreender que os conteúdos inconscientes que podem emergir a partir de uma técnica regressiva são uma expressão rica em simbolismos psíquicos (lembrando que o inconsciente é atemporal), e, portanto, devem ser explorados e ampliados, com a única finalidade de auxílio ao processo psicoterapêutico e da evolução e crescimento do paciente. Em função disto, muitos profissionais têm adotado o termo Terapia de Vivências Passadas. Por Leyde Christina Righetti Rino Resende – psicóloga pela PUC Campinas, terapeuta de orientação Transpessoal pela Alubrat formada em Biopsicologia pelo Instituto Visão Futuro e em Emotologia pela Cidade do Cérebro, diretora do Humanitatis – Instituto de Formação Transpessoal em Campinas – SP. Esta visão de ser humano na Psicologia não foi um movimento isolado. Desde seus primórdios, o médico William James, considerado um dos maiores pensadores norte- americanos, evidenciou que existem estados mais elevados de consciência além da vigília e que deveriam ser estudados pela Psicologia. Jacob Levi Moreno, em 1916, declarava- se pioneiro na inserção da espiritualidade na saúde, pois sem ela, afirmava, tira-se do indi- víduo sua possibilidade de cura. Neste mesmo ano, Carl Gustav Jung usou pela primeira vez o termo transpessoal. Além deles, Viktor Frankl postulava a existência do inconsciente espiritual; Roberto Assagioli declarava em seu livro O Ser Transpessoal que considerava seu método, a psicossíntese, como parte desta nova abordagem emergente erigida por Maslow, a Psicologia Transpessoal. Em 1975, Antony Sutich propôs deno- minar de psicoterapias de orientação trans- pessoal aos enfoques que tinham como base os preceitos de Maslow, mas metodologias diferentes para aplicação; assim hoje temos referenciais de distintos autores, tais como Stanislav Grof, Pierre Weil, Ken Wilber, Jean Yves Leloup, David Lukof, entre outros. UM OUTRO OLHAR Todos os diferentes enfoques em Psicolo- gia Transpessoal evidenciam um corpo teórico fundamental constituído por cinco elemen- tos: conceito de unidade, conceito de Ego, conceito de vida, estados de consciência e car- tografias da consciência, que se articulam di- namicamente no eixo evolutivo e experiencial, demonstrados pela Abordagem Integrativa Transpessoal, objeto da tese de meu doutora- do na Unicamp (2006). Esta investigação científica traz as bases epistemológicas sobre as quais se assentam os postulados da Psicologia Transpessoal, além de apresentar as conclusões da pesquisa de cam- po que mostra os resultados efetivos no plano profissional e pessoal da utilização e aplicação dos recursos transpessoais. É um trabalho que está sendo publicado e lançado pela editora UNIJUI, com o titulo Psicologia Transpessoal: uma abordagem emergente da consciência. Como disse anteriormente, o aspecto estru- tural da Psicologia Transpessoal é constituído por cinco elementos. O conceito de unidade representa a unidade fundamental do Ser ou da sua não-fragmentação, é o pressuposto básico em Psicologia Transpessoal, do que partem ou para onde convergem todos os recursos nessa abordagem. É o que Maslow relacionava com as experiências culminantes ou peak experience, em seu mais alto grau, denominado também de estado transpessoal. ualidade e a necessidade de transcendência, legitimando experiências que até então eram deixadas de lado, ou pior, às ve- zes consideradas patológicas ou superstição.Posteriormente, ampliou esse conceito para “consciência de unidade”, esclarecendo que, embora esse tipo de consciência tenha certos elementos em comum com as experiências culminantes, dela se difere por ser mais constante e por não produzir clímax, constituindo-se como um platô elevado. A vivência da unidade traz sentimentos de paz, de confiança e de entrega e resulta em desapego, serenidade e harmonia. A não-identificação com sentimentos, situações ou atitudes circunstanciais, possibilita uma percepção mais ampla e adequada da realidade. De certa forma, todo o processo do trabalho em Psicologia Transpessoal contribui para resgatar essa Unidade fundamental. O conceito de vida tem sua caracterização básica como conceito transpessoal pela dimensão atemporal. Tudo é vida, energia, formas diversas de existência, algo que não é definido exatamente quando começou ou quando terminará. Vida é um pulsar contínuo no qual nascer, morrer e renascer fazem parte de um processo. A morte, sob o enfoque transpessoal, é uma transição. É a passagem de uma forma para outra, acrescendo elementos de maior alcance na escala universal e mantendo a essência indivisível do elemento anterior, que consiste na vida em si própria. Simbolicamente, o desenvolvimento do ser humano é galgado por meio de mortes e de renascimentos. Começa na morte da vida intra-uterina para ganhar mais luz, mais espaço e novas experiências. Continua pela morte do aleitamento materno, para renascer com novos sabores, outros alimentos, seguida pela morte da dependência simbiótica com a figura materna para conquistar um mundo novo por meio da locomoção (engatinhar, andar), da comunicação (falar e relacionar-se com outras pessoas) e assim por diante . Os estados de consciência e a percepção da realidade O eletroencefalograma registra ondas alfa e beta do cérebro e define o estado de consciência do indivíduo Estado de consciência de vigília – nesse estado se obterá o registro eletroencefalográfico (EEG) do cérebro emitindo ondas beta de 14 a 26 ciclos por segundo, em média. Predominam as funções do Ego, a relação do indivíduo com o ambiente, a mente, as emoções e os cinco sentidos num mundo tridimensional. Ocorre a separação nítida entre o eu e o mundo exterior. O indivíduo está acordado, trabalhando ou planejando. Estado de consciência de devaneio – no EEG registram-se ondas alfa de 9 a 13 ciclos por segundo. Pode-se alcançá-lo por meio do relaxamento. Esse estado de consciência traz imagens e idéias desconexas ou criativas (literárias, artísticas, científicas etc.). A atenção é difusa e há total receptividade e disponibilidade para o momento presente. Propicia a associação livre de idéias, que precisam ser anotadas imediatamente, pois tendem a desaparecer por completo no estado de consciência de vigília. Estado de consciência de sonho – Freud foi o pioneiro nos estudos sobre sonhos. Seu trabalho sobre elaboração onírica tornou-se obra de destaque na época e suas afirmações vieram a ser confirmadas, na década de 50, pelos estudos em neurologia realizados por Kleitman e seu discípulo, Aserinsky. Com base em observações no movimento dos olhos em bebês, constatou-se o que passou a ser chamado Rapid Eyes Movement, sono REM. Verificou-se que todos sonham, em média, quatro vezes por noite. Para Freud, todo conteúdo manifesto trazido ao consciente pelo sonhador é gerado pelo conteúdo latente, constituído por impulsos, pulsões, motivações e desejos do inconsciente autobiográfico. A abordagem transpessoal considera o conteúdo latente e inclui, além do inconsciente individual, acontecimentos ontogenéticos, filogênicos, o inconsciente coletivo, arquetípico e a dimen- são superior da consciência. Em outras palavras, abrange os processos primá- rio, secundário e o transcendente ou terciário. O conteúdo manifesto pode ser, portanto, a expressão das pulsões de vida, de morte e de transcendência. Estado de consciência de sono profundo – no senso comum corresponde à inconsciência total, quando um véu separa o indivíduo do mundo externo. No registro do EEG, nesse estado de consciência o cérebro emite ondas delta em média de 1 a 4 ciclos por segundo. As pesquisas nessa área sugerem que, às vezes, pode haver um nível de superconsciência durante esse estado; o ego desaparece totalmente, a consciência retorna a si mes- ma e o indivíduo é revitalizado. Estado de consciência de despertar – esse estado situa-se entre a consciência individual e a consciência cósmica. É a saída do torpor, do estado de automatismo. O indivíduo desenvolve, gradualmente, um nível de reflexão, de consciência e de percepção mais ampla de sua própria existência. Equi- vale a despertar um observador de si próprio. Ocorre a percepção da essência, a desidentificação de partes, emo- ções, mente, papéis, corpo. Promove a expansão do campo da consciência. O indivíduo mantém a atenção sustentada e direciona, conscientemente, seus pensamentos e motivações. Estado de consciência cós- mica ou plena consciência – as experiências são descritas como inefáveis e paradoxais; desaparece a dimensão tempo-espaço, há uma não-projeção da mente sobre os objetos, superação da dualidade, iluminação interior, vivência da vacuidade plena, vivência de amor indescritível, sentimento de viver a realidade como ela é e desapa- recimento do medo da morte. É acompanhado pelo fim do sofrimento psicológico, pelo despertar da verdadeira sabedoria, indissociável do amor, e pela capacidade ilimitada - ou limitada apenas pelo corpo físico – em aliviar o sofrimento dos outros, apro- ximando-os da alegria de viver. Essas mudanças são acompanhadas de alterações fisiológicas mensuráveis pelo EEG, mudanças circulatórias, respiratórias e eletrocutâneas, entre outras. É a ocorrência do retorno consciente ao estado de sono profundo. A vida brota de outra forma, vem e invade o ser a cada instante. Quando se vence as vicissitudes e apegos, o Ego ilusório é vivenciado então em toda a plenitude, ressurgindo a vida por detrás da morte. Essa é a vida plena e abundante, que se nutre a cada instante. É uma força que está além das aparências, além dos fatos circunstanciais, algo que simplesmente é, com presença, força e poder inerente a todo processo de aprendizagem. A morte testemunha o caráter impermanente e efêmero da existência humana ao mesmo tempo em que nos leva a buscar o que não está submetido ao nascimento e a morte. A vivência da unidade traz sentimentos de paz, confiança e de entrega e resulta em desapego e harmonia Na Psicologia Transpessoal, o conceito de Ego caracteriza-se como uma construção mental, ilusória, que tem tendência a solidificar a energia mental em uma barreira que separa o espaço em duas partes: eu e o outro. É necessário para operacionalizar a vida no cotidiano: instrumentaliza a realidade da psique (tal como mostra a psicanálise) e é responsável pelo processo secundário ou princípio da realidade. No entanto, a percepção do Ego não representa a totalidade das experiências humanas. Essa instância psíquica precisa dissolver-se circunstancialmente, a fim de que o indivíduo torne-se uno com tudo o que existe, sentindo seu Ser essencial, sua natureza de sabedoria e luz. O Eu, na Psicologia Transpessoal, é uma consciência em evolução que pode manifestar-se além dos elementos circunstanciais, biopsíquicos e sociais que caracterizam a personalidade, integrando níveis evolutivos superiores, elementos perenes, espirituais, universais e cósmicos, constituintes da individualidade e do Ser integral, plenamente humano. Existe um aparente paradoxo: eu e o outro somos diferentes em muitos aspectos, mas também somos iguais sob certo sentido, porque ambos fazemos parte do mesmo todo. A morte do Ego é vivenciada como uma mudança de nível de consciência, de densidade energética, quando há um processo diferenciado regido pelo princípio da transcendência, favorecendo a emergência de um estado de despertar, no qual há conexão com o nosso Ser essencial. As funções do Ego passam a ter uma importância relativa e seu aspecto interior adquire maior valor. Gradativamente o indivíduo torna-se mais saudável, vive mais plenamente a totalidade de seu ser. Quando os processos do Ego adquirem supremacia e controlam a psique, há perda de si mesmo, de sua natureza essencial. O estado mental que an- tecede a criação do Ego é um espaço amplo, livre, luminoso, ligado a uma inteligência primordial. Na verdadeira natureza a unidade está presente, mas é preciso despertar a consciência para percebê-la. Os Estados ou níveis de consciência simbolizam, no corpo teórico, o caminhar por meio das diferentes dimensões da consciência. São passos que norteiam o processo, ampliam e favorecem a percepção de diferentes níveis de realidade. É um dos elementos diferenciadores de outras abordagens. Para a Psicologia Transpessoal, os estados de expansão da consciência são ampliações qualitativas no padrão comum da atividade mental, em que o experienciador constata que sua consciência está radicalmente diferente do seu funcionamento an- terior. Esse estado não é definido por um conteúdo particular de consciência, de comportamento ou de modificação fisiológica, mas por um padrão total. Para Assagioli, a expansão da consciência pode dar-se em três direções: para baixo, horizontalmente e para cima. Para baixo, a tendência é explorar o inconsciente inferior ou a deixá-lo aflorar no campo da consciência. Exemplos desta expansão podem ocorrer durante sessões psicanalíticas; outra situação é o fascínio por filmes ou literatura que focalizam a violência, a morbidez e o terror. A direção horizontal consiste na parti- cipação e na identificação do indivíduo com outros seres, com a natureza e com as coisas, quando emerge a consciência coletiva. A terceira direção é ascendente, onde estão os níveis do supraconsciente e transpessoais; há uma ordem mental superior com valores éticos, amor incondicional e senso de coletividade. Há inúmeras graduações nos distintos estados de consciência, porém os mais demarcatórios são: consciência de vigília, de sonho, de sono profundo, de devaneio, de despertar e a plena consciência (veja quadro Os estados de consciência e a percepção da realidade). DIMENSÕES DA MENTE A Cartografia da consciência indica e nomeia a experiência vivenciada para um melhor entendimento do psicoterapeuta, do educador, do socioterapeuta ou da própria pessoa em relação aos passos que estão sendo dados e revelados pelo inconsciente. Com terminologia distinta, os autores apontam, de forma geral, três níveis ou dimensões da mente: o primeiro nível refere-se a conteúdos autobiográficos desde o nascimento até o momento atual da existência do indivíduo. O segundo nível diz respeito a conteúdos que abrangem as vivências intra-uterinas, inclusive o nascimento. O terceiro nível antecede o nível intra-uterino e vai além da existência biológica. A maioria as pessoas encontra-se no estado de consciência de vigília, formada pelo pensamento analítico e casual Podemos observar que, na cartografia freudiana, como mostra a figura 1 no quadro Cartografias da consciência em Freud, Jung e na Psicologia Transpessoal os conteúdos acessados pela psique davam-se a partir do nascimento. Jung incorporou aspectos que chamou de inconsciente coletivo, além do inconsciente pessoal (figura 2). Na Psicologia Transpessoal, a cartografia da consciência vista de cima resultaria na figura 3, lembrando que as linhas não são fronteiras demarcatórias, mas representações meramente didáticas, pois os distintos conteú- dos interpenetram-se mutuamente. Consciência de vigília é formada por conteú- dos usuais do cotidiano presentes na consciência, geralmente regidos pelo tempo linear passado, presente, futuro lógico, pensamento analítico e causal. A maioria das pessoas mantém-se no estado de vigília a maior parte do tempo. Pré-consciente são conteúdos facilmente aces- sados a partir de uma simples evocação direta e estão parcialmente ligados à vigília. Inconsciente psicodinâmico corresponde ao inconsciente freudiano. São conteúdos ligados a experiências, sentimentos, pulsões, desde o nascimento até o momento da vida atual. Difíceis de serem acessados, podem vir à tona sob a forma de sintomas. Inconsciente ontogenético são as vivências intra-uterinas, representando uma zona de transição do nível pessoal para o transpessoal, incluindo as experiências de morte/nascimento. Inconsciente transindividual envolve experiências ancestrais, palingenéticas, coletivas, raciais e arquetípicas. Inconsciente filogenético envolve experiências além das formas humanas, da própria seqüência evolutiva do planeta Terra, tanto orgânicas como inorgânicas. Podem ser acompanhadas por mudanças nos reflexos neurológicos e por fenômenos motores anormais que parecem relacionados à ativação das redes nervosas arcaicas. Inconsciente extraterreno domínio da consciência que se estende para além do nosso planeta: experiência de estar fora do corpo, narrações de encontros com entidades espirituais e com os chamados guias. Nesse nível, podem ocorrer também relatos de fenômeno de percepção extra-sensorial PK (psicocinesia em objetos) e PES (percepção extra-sensorial), como telepatia e clarividência, fenômenos mediúnicos, como escrita automática, e possessão por espíritos. Supraconsciente ou Superconsciente ocorre profundo êxtase existencial. Há uma percepção ampla da realidade, sentimentos de compaixão e de equanimidade. É um nível diferenciado da consciência; o indivíduo tem uma apreensão intuitiva do fenômeno da unidade cosmológica. É um nível sempre disponível, mas somente é acessado se estivermos receptivos a ele. Assagioli afirma que precisamos educar nossa consciência de vigília, eliminar os pensamentos desnecessários e esvaziar o lixo mental para que esse nível superior possa se manifestar. Para ele, é a região onde os impulsos criativos originam-se (inspirações superiores, artísticas, filosóficas ou cientificas). Nas experiências deste nível há um sentido de profundidade, interiorização, elevação e despertar. Vácuo é o estado além de qualquer conteúdo, corresponde ao nirvana na filosofia budista. É um estado de puro ser. A consciência funde-se à Mente Universal e não há palavras que possam expressar esse momento. Na prática não existe uma delimitação tão rígida entre esses diferentes níveis de consciência. Muitas vezes, interpenetram-se ou são experienciados em frações de segundos, demonstrando que o consciente e o inconsciente são dimensões de uma mesma e única realidade. Regressão Indicações: Dentro do contexto terapêutico, no qual o paciente delineia o mapa de sua psique junto com o terapeuta e vai explorando seu território, identificando seus alcances e limites e constata neste percurso um ponto de maior resistência, é extremamente útil a utilização deste recurso. Os resultados são significativos, como na síndrome de pânico, medos, dificuldade de falar em público, neurose de angústia, distúrbio bipolar e, em alguns casos, dificuldade de relacionamento. Contra- indicações: por exemplo, para gestantes, e pacientes com psicopatologias graves, como psicose e psicopatia. Um aspecto importante é que se deve observar o momento adequado para a utilização deste recurso. Jamais se utiliza, por exemplo, quando o paciente apresenta um rebaixamento de humor, depressão ou quando ele está debilitado fisicamente com baixa resistência imunológica ou com algum tipo de processo físico descompensado, por exemplo, diabetes ou pressão arterial. Pierre Wiel é referência na área, criador da Fundação Cidade da Paz, presidente da UNIPAZ – Universidade Holística Internacional de Brasília A Psicologia Transpessoal diferencia-se das escolas que a antecederam por integrar esses níveis no contexto clínico e educacional, como pertinentes ao processo do desenvolvimento natural do ser humano. Na Abordagem Integrativa Transpessoal valores construtivos vêm à tona, a antropologia fundamental do ser revela sua espiritualidade inerente e traz o sentido evolutivo da existência, que se constrói passo a passo, a cada instante, mostrando sua base teórica e prática. Desdobram-se em cascata os benefícios descritos da aplicação da Psicologia Transpessoal na educação, na clínica, na instituição e no processo do autoconhecimento. A Abordagem Transpessoal na Psicologia facilita a percepção da estrutura do desenvolvimento humano mais pleno por meio do eixo evolutivo e experiencial em sete etapas: Reconhecimento; Identificação; Desidentificação; Transmutação; Transformação; Elaboração; Integração, em um processo de ampliação da consciência gerador do equilíbrio e de integração pessoal, social, cultural e espiritual. A Abordagem Integrativa Transpessoal traz em si um convite para um caminho real na abordagem espiritual dentro da Psicologia neste novo milênio. Abre novos conhecimentos e perspectivas sobre a Consciência e o seu pleno despertar em diversas áreas, engrandecendo a humanidade da qual todos somos parte, promovendo o Ser e o Estar no mundo de forma mais plena e humana. A Abordagem Integrativa Transpessoal traz em si um convite para um caminho real na abordagem espiritual dentro da psicologia neste novo milênio Certamente por ser ainda um território novo e complexo, embora distinto de dogmas e religiões, estuda também os fenômenos humanos vivenciados em estado de expansão da consciência, inclusive os religiosos. Talvez por isso muitas vezes seja confundido e inadequadamente citado de forma tendenciosa, irresponsável e incorreta. Xamanismo, budismo, espiritismo, catolicismo, e também práticas alternativas, independente de traze- rem ou não benefícios, não são práticas da Psicologia Transpessoal. Hoje não é mais pos- sível excluir da Psicologia contemporânea vivências que abarcam outros níveis de consciência além da vi- gília, seja por um a deman- da legítima dos clientes que chegam ao consultó- rio, sejam pelos benefícios que, por exemplo, evi- denciam-se na educação, na promoção dos valores construtivos, na otimiza- ção da aprendizagem e também na emergência de valores na vida cotidiana, sejam nas relações familiares, pessoais ou profissionais. É um movimento que surgiu nos Estados Unidos, mas já conta hoje com mais de 35 associações na Europa, reunidas na Associação Européia de Transpessoal (EUROTAS) presi- dida por Victor Rodrigues, também presidente da ALUBRAT – Associação Luso Brasileira de Transpessoal – com sedes no Brasil e Portugal, que desenvolve investigações científicas nesta área, com pós-graduação lato sensu no Brasil. No curso de graduação a disciplina de Psicologia Transpessoal existe em poucas universidades, mas existe como pesquisa no mestrado e doutora- do em Educação, Psicologia, Antropologia, Medicina, En- fermagem e Neurociências na Universidade de Campi- nas (UNICAMP), e outras universidades de São Paulo, Araraquara, Fortaleza e Porto Alegre. É uma abordagem que vem crescendo com a organização de congressos internacionais, a criação de associações independentes e de trabalhos científicos. O CRP informa que não é da competência dos conselhos a legitimação das abordagens psicológicas e, sim, das universidades, da comunidade científica No nível do inconsciente extraterreno, podem ocorrer relatos de fenômeno de percepção extra-sensorial PK e telepatia, clarividência, fenômenos mediúnicos Há, ainda, o receio que alguns profissionais têm da rejeição de seus pares e, so- bretudo, do oportunismo sensacionalista e superficialidade com que são divulgadas práticas quaisquer com o nome de Psicologia Transpessoal. Este fato foi bem conhe- cido pelo movimento psicodramático nos anos 70 no Brasil, assim como em outras linhas da Psicologia, que apresentam bons e maus profissionais, independente da formação que tiveram. Questiona-se o reconhecimento da abor- dagem pelos conselhos regionais e Federal, no entanto, informação do CRP 06 é de que não é da competência dos conselhos a legitimação das abordagens psicológicas e, sim, das universidades, da comunidade cientifica. Há inúmeras dissertações e teses em Psicologia Transpessoal no Brasil, Europa e EUA; palestras já foram ministradas em universidades e em conselhos regionais de Psicologia. Sua legitimação já é um fato desde a década de 60. A Psicologia Transpessoal entra no século XXI não como um modismo passageiro ou referencial alternativo, mas sim como uma linha de atuação que apresenta uma base teórica consistente no âmbito da Psicologia e resultados promissores nas áreas de educação e clínica, com solicitações cada vez maiores nas organizações. É uma abordagem da Psicologia contemporânea que apresenta perspectivas positivas para um mundo que necessita de valores mais humanos. Vera Saldanha é doutora em Psicologia Transpessoal (UNICAMP), coordenadora da pós-graduação em Psicologia Transpessoal (ALUBRAT), Presidente da Alubrat – Brasil. Autora de diversas publicações, entre elas Psicologia Transpessoal: abordagem integrativa: um conhecimento emergente em Psicologia da consciência. Editora Unijui – 2007. Contato: verasaldanha@alubrat.org.br - 19 3255-1850 Mônica Serrano é jornalista e escreve para esta publicação.

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