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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Violência Psicológica Conjugal

Violência psicológica conjugal Uma maneira tão brutal quanto comum de atingir o autoconceito, a autoimagem e a autoestima do outro, que mina a ética, o diálogo e o respeito do convívio familiar Por Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel A violência psicológica é tão preocupante que requer a abordagem da suposta "naturalização" social cuja incidência pode minar a autonomia, a iniciativa, a coragem, a segurança de crianças e jovens em pleno desenvolvimento emocional e social que precisa de referências éticas de adultos - familiares (pais, e/ ou cuidadores) para estabelecer parâmetros de interações não predatórias e de consumo. O descaso com o outro e a prática de "brincadeiras" que rompem a fronteira do lúdico e instalam uma particular ou generalizada sensação de incompetência pessoal a quem escuta apelidos, chacotas, "tiradas de sarro", bem como pressionar alguém (crianças, adolescentes, mulheres, gays, homens) a deslocar a sua emoção saudável para canais inadequados, por exemplo, comer ou beber demais, usar drogas, vivenciar sexo compulsivo (instala transtornos alimentares ou outras formas de compulsão), são consequências da "naturalização" da violência psicológica. Crianças e idosos são os sujeitos mais frágeis e submetidos à voracidade das ações violentas praticadas por adultos, gangues de adolescentes e babás Para responder ao cenário difícil que vivemos, a Psicologia Clínica ampliada de base gestáltica não oferece receitas ou fórmulas. Trabalhamos com pesquisas e preparação de famílias (encontros em grupo de homens/pais, atendimentos a casais; reflexões de textos, orientações sobre organização social e aquisição de documentos, etc.)1 para encontrar tempo (uma exigência diária que o casal requer praticar se quiser manter a convivência) visando examinar profundamente a dinâmica das interações entre os integrantes e contribuir para que cada um entre em contato com os próprios sentimentos. Consideramos que a coragem e ação formam uma polaridade que contribui preventivamente para reduzir a violência psicológica conjugal e familiar... As formas de violência psicológica privadas aqui tematizada ocorrem no domínio das casas, praticadas entre casais, ou por familiares contra crianças e idosos e por outros atores não consanguíneos. São problemas sociais e de saúde que afetam todos os segmentos da sociedade, independente de sexo, idade, grau de instrução, classe social ou religião, e estão presentes em todas as culturas. A violência é deliberada como uma relação de força qualificada que aponta a atitude de quem detém o domínio de anular o outro na sua condição de sujeito Incidem em diversas esferas econômicas. Sendo assim, o entendimento em sua complexidade requer abordagem interdisciplinar e transversal, o que possibilita ampliar a compreensão e criar estratégias de prevenção e intervenção. Exige, ainda, ato do Estado² na elaboração e concretização de políticas públicas para educação: socializar, fomentar o conhecimento para que todos usufruam dos bens culturais e científicos da humanidade; políticas públicas para a saúde aplicando impostos na construção de postos e unidades básicas de atendimento e na manutenção das já existentes; e políticas públicas para trabalho criando postos e capacitação. Em síntese, a ação do Estado no campo das políticas para educação, saúde e trabalho é preventiva para evitar que as famílias reeditem a instalação das violências privadas. O casamento ou a vida conjugal contemporânea são atravessados pela intolerância, e por vários fatores que podem induzir à ação violenta Em casais, geralmente o marido exerce o domínio pela opressão física da mulher. Já no caso da esposa, a dominação feminina pode ser praticada pela desqualificação das competências sexual e profissional do homem No entendimento da filósofa Marilena Chaui, a violência é deliberada como uma relação de força qualificada em um polo pela dominação e no outro pela coisificação, que aponta a atitude de quem detém o domínio de anular o outro na sua condição de sujeito, ao (querer³) submetê-lo a sua vontade. Em casais, a dominação masculina pode ser exercida pela opressão física da mulher; e a dominação feminina pode ser praticada pela desqualificação das competências sexual e profissional do homem. Assim, a violência conjugal, também, sucede em todos os níveis socioeconômicos, porém é exacerbada no segmento de baixa renda, na medida em que as dificuldades financeiras, a miséria e as desestruturações familiares favorecem alterações psicológicas, por exemplo: instabilidade no humor, comportamentos agressivos nos indivíduos, espancamento, brigas, etc. O casamento ou a vida conjugal contemporânea são atravessados pela intolerância, e por vários fatores que podem induzir à ação violenta, por exemplo, falta de respeito, mentira, manipulação, fadiga, irritação mesquinha com qualquer coisa à nossa volta, sobretudo com o outro, e iminência da violência. A incomunicabilidade e o cultivo de sentimentos negativos podem também deflagrar tanto manifestações de violência física quanto psicológica ou ambas, por exemplo, um cônjuge intimidar o outro dando um soco na parede ou no móvel, gritando: "Me deixa em paz". Ou dar uma facada, um tiro; ou xingar: "Sua/ seu cretina(o)". 1 É importante esclarecer que a Psicologia Clínica ampliada tem uma base na fundamentação históricocrítica. Não é possível entender o psiquismo e os processos de subjetivação descontextualizados, portanto nossa compreensão de saúde transcende a perspectiva de sintomas e nosografias para abarcar a premissa da humanização e saúde positiva (WHO, 1978). 2 Federal, estadual e municipal. 3 Não podemos esquecer que, por maior que seja a opressão vivenciada por um sujeito e mais rígidos os instrumentos de dominação, a liberdade é existencial e os pensamentos não podem ser outorgados, portanto nunca haverá uma sujeição linear. PARA SABER MAIS Direitos iguais No ano de 2007 foi realizada a Convenção de Belém do Pará cujo objetivo foi prevenir, punir e erradicar toda forma de violência contra a mulher, no âmbito da Organização dos Estados Americanos. Este documento integra as políticas públicas para atendimento à mulher que vivencia violências privadas. Além dele, outros marcos legais, congressos, convenções internacionais e nacionais, por exemplo, a importante Lei Maria da Penha têm contribuído para eliminar a violência conjugal. Entretanto, uma lacuna que as políticas públicas da área contêm é a exclusão do homem do campo concreto da realização das detImportantes mudanças Para superar tais atitudes violentas, uma ação possível é a vivência do princípio da compaixão recomendado pelo filósofo Leonardo Boff (2009), uma virtude humana que nos desperta a capacidade de simpatia, de empatia, de dedicação e de cuidado com o companheiro ou a companheira. Por sua vez, o Estado, em algumas situações, é chamado a interferir na mediação e repressão dos conflitos violentos. No Brasil, para contribuir na contenção da violência privada foi promulgada a Lei n.º 11.340/06, a Lei Maria da Penha, em setembro de 2006. (.) A lei tipifica a violência doméstica e familiar; estabelece as formas de violência doméstica contra a mulher como física, psicológica, sexual, patrimonial e moral (BRASIL, 2008, p. 9). A organização das mulheres em grupos, novas condições socioeconômicas e históricas têm contribuído para o desenvolvimento de novas identidades e espaços de inserção pública. Por sua vez o homem também é "forçado" a repensar papéis e posturas na relação matrimonial. Na modernidade, a instituição "casamento" apresenta-se com novas formas de união. De acordo com Terezinha Féres-Carneiro (1998), o casal traz para a união duas histórias de vida, duas percepções e duas identidades individuais que na relação amorosa convivem com tranquilidade ou de modo violento. O homem é "forçado" a repensar papéis e posturas na relação matrimonial. Na modernidade, o casamento apresenta-se com novas formas de união No que diz respeito à família, observamos que a instituição tem novas formas e vem sendo alvo de intensas reflexões acerca das interações estabelecidas. Em Adelma Pimentel (2008), apontei que a deterioração das funções familiares acompanha a transformação do capital financeiro, cuja estratégia de revitalização pautase na venda, no comércio e na substituição imediata das mercadorias. É importante considerar que a vida a dois bem como os relacionamentos em geral têm aspectos de satisfação e conflito, o que é inerente à condição humana. A forma de cada um lidar com as diferenças do outro depende da história de vida deles, visto que as possibilidades de vivenciar essa experiência pode ser uma escolha saudável ou não saudável. Porém, vale verificar como o casal vivencia esses conflitos, observando se surgem questões relacionadas à psicossomática. Apesar de a violência conjugal acontecer em todos os níveis socioeconômicos, ela é mais exacerbada no segmento de baixa renda. Miséria e desestruturações familiares podem favorecer alterações psicológicas ● Prática familiar ● Algumas soluções que praticamos e disseminamos em nossos grupos de estudos, pesquisas e intervenções são a prática da ética do bem comum, do diálogo, do respeito, e a elaboração por cada cônjuge de um projeto individual e que o casal também articule um projeto de ambos, em comum acordo, para cooperação e produção conjunta. Quando essas práticas se sucedem, há vínculo e responsabilização como um casal e a identificação das escolhas próprias, portanto da capacidade singular de construir. Doente de amor A violência psicológica que se estabelece no relacionamento conjugal contribui para a instalação do adoecimento. O processo de adoecer não se manifesta apenas por meio de sintomas físicos ou orgânicos. Engloba a existência como um todo (PIMENTEL; BANDEIRA; VALLE, 2010). O empobrecimento dos vínculos impede a elaboração das perdas e separações; provoca um vazio psíquico e gera uma desarticulação psicossomática (WINTER, 1997). Entender a complexa teia das relações conjugais violentas requer permanente reflexão de parâmetros orientadores que ultrapassem e atualizem a fantasia do conceito de amor romântico, amor à primeira vista elaborada no século XVII; 2) a premissa do amor confluente proposta em Anthony Giddens (1993); 3) a apreciação na sociologia de Zygmunt Bauman (1998) do amor líquido em que as fronteiras e o compromisso humano desaparecem (RUIZ e MATTIOLI, 2004). A compreensão da intricada teia das relações conjugais violentas também exige a elaboração das políticas públicas efetivas voltadas para o enfrentamento da violência privada. Há diferentes formas de masculinidade e feminilidade. Há homens que se mantêm no lugar de poder e dominação e continuam desfrutando dos privilégios da sociedade patriarcal, enquanto outros, ao lado das mulheres, lutam para mudar essa ordem e construir relações mais democráticas e igualitárias. Ver um homem reconhecer a fragilidade, admitindo ser agredido e dominado pela mulher e tornar isso público, por meio de uma denúncia policial, é algo novo, impensável há alguns anos (MACHADO e ARAÚJO, 2004, p. 48). Ver uma mulher refutando os padrões manipulativos para dominar seu companheiro é algo desejável, bem como eliminar o medo. Quando o casal não realiza mais o diálogo, o desinteresse e o desamor se instalaram, a mulher passa a ser considerada desagradável e um incômodo. O homem não tem vontade de retornar para casa, voltando do trabalho cada dia mais tarde. E se as cobranças se transformam em conflito a vontade em matar pode se instalar. A violência psicológica que se estabelece no relacionamento conjugal contribui para a instalação do adoecimento, que não se manifesta apenas por meio de sintomas físicos ou orgânicos erminações contidas nos textos legais. Assim, na prática, algumas políticas e ações mantêm-se ancoradas na lógica binária dos estudos de gêneros. O homem não pode ficar à margem da reconstrução das identidades de gênero, muito menos se manter em uma posição omissa, como de alguém que pensa "não é comigo", alienando-se das mudanças mundiais em todos os campos da vida social e psíquica.Desnutrição psicológica A violência psicológica é uma forma de brutalidade que atinge o autoconceito, a autoimagem e a autoestima de alguém. É gerada em diversos contextos em que há desnutrição psicológica (PIMENTEL, 2005; 2008). A desnutrição psicológica é um processo urdido na casa em que o casal viveu a infância e cresceu; ou nos abrigos4 em que foram viver (pelo menos um dos componentes) devido às rupturas dos vínculos familiares ou no domicílio de parentes até alcançar o espaço de instalação da própria unidade conjugal. Na conjugalidade violenta o casal investe sua ira ou sua dor contra o cônjuge e/ou filhas e filhos. O homem e\ou a mulher, alcoolizados ou não, drogados ou não, batem nas crianças ou as negligenciam, se embriagam lentamente ou se descuidam de si mesmos. A falta de cuidados consigo mesmo, com a casa e os filhos pode instalar: alteração na percepção do autoconceito e um processo crônico de afastamento das necessidades do eu, culminando em neuroses de contato ou rupturas psicóticas com a realidade. Um homem reconhecer a fragilidade, admitir ser agredido e dominado pela mulher e tornar isso público, por meio de uma denúncia policial, é algo novo, impensável há alguns anos ● No trabalho ● O assédio moral é uma forma extrema da violência psicológica no trabalho. Tem como característica o comportamento repetitivo de humilhações com a intenção de prejudicar e excluir o indivíduo do ambiente corporativo. O assédio moral implica em prejuízos à saúde e à vida social do trabalhador. A violência psicológica corporativa está relacionada à pressão exagerada para cumprir metas, uso de estratégias de exposição constrangedora de resultados, comparação entre membros do mesmo grupo, competitividade para além da ética, ameaça de demissão constante, entre outras. A agressão destrutiva é uma característica básica da violência5 psicológica. Abarcam verbalizações desqualificadoras, isolamento social, falta de atenção a necessidades afetivas e materiais, etc. Tanto no casamento formal quanto nos arranjos conjugais estáveis as interações carinhosas e os sentimentos de amor resultam empobrecidos quando, mutuamente, entre o casal há afastamento afetivo; o peso do cotidiano se afirma e estabelece o desinteresse; a despreocupação em manter-se amoroso, comunicativo, criativo6 e vinculado de modo a não favorecer a explosão da violência psicológica. O saldo do empobrecimento amoroso, entre homem e mulher7, é o potencial de atos de violência psicológica. Embora em grandeza mais reduzida, não perdemos de vista que a violência corporal ocorre com os homens que são agredidos fisicamente por suas companheiras/esposas. Superar a violência psicológica conjugal privada exige das famílias e do casal a adoção da concepção de cuidado na dimensão ontológica8, aquela que inclui todos os sujeitos. Portanto, afirmamos, não é uma tarefa da mulher (BOFF, 2007; PIMENTEL, 2008). Requer, além disso, mudar a educação primária de meninos e homens e de meninas e mulheres em que há tendências de empregar estratégias diferentes de raciocínio e de aplicar temas e conceitos morais distintos na formulação e resolução de problemas éticos (ZOBOLI, 2004, p. 25). Tanto no casamento formal quanto nos arranjos conjugais estáveis as interações carinhosas e os sentimentos de amor resultam empobrecidos quando há o afastamento afetivo Há diferentes formas de masculinidade e feminilidade. Há homens que se mantêm no lugar de poder e dominação, assim como há aqueles que favorecem relações mais democráticas e igualitárias Nos vários arranjos familiares, as relações intrapessoais e interpessoais se apresentam em múltiplas formas: amigáveis, conflituosas, distantes, calorosas, etc. Do mesmo modo, são atravancadas pela impaciência e intolerância que a convivência evoca consumo automático de sexo associado ao uso de drogas lícitas e ilícitas; substituição de grilhões nos papéis sociais dos gêneros; pelo sexo mediado pelo pseudoprazer, desconhecimento do desejo e da própria sexualidade, etc. Em síntese, pela busca incessante do prazer ou hedonismo, intolerância, uso de pessoas e ausência de um projeto do casal e um projeto para cada cônjuge. O fortalecimento das emoções promotoras das violências, a ruptura ou a destruição dos vínculos amorosos que favoreceram a união do casal em torno da vivência em um cotidiano comum é uma das consequências do conjunto de fatores que atravancam. As pesquisas nas áreas das ciências humanas em Psicologia, Sociologia e Antropologia demonstram que homens e mulheres vivenciam, e podem vir a ser vítima e algoz da violência privada "legitimada" e acobertada pela sociedade patriarcal e corporativista. Esta situação demanda políticas públicas voltada para ambos; e a nós pesquisadores cabe criar estratégias interventivas grupais que proporcionem uma ação coletiva para o rompimento dos vários ciclos de violências. 4 Mantidos pelo estado e pelo município. 5 E de todas as outras formas de violência. 6 Na vivência do casal difere de bizarro e refere-se à capacidade inventiva para renovar o cotidiano. 7 Embora nosso grupo estude relações homoafetivas, esta temática não se faz presente nessas reflexões. 8 Ontologia refere-se a um princípio que orienta as interações e as relações interpessoais, transcende as práticas escolares e morais e precede a vida ética coletiva. Adelma do Socorro Gonçalves Pimentel é PhD em Psicologia e Psicopatologia do Desenvolvimento, doutora em Psicologia Clínica, diretora da Faculdade de Psicologia da UFPA e especialista em Desenvolvimento Infantil pela Universidade do Estado do Pará. Membro da Sociedade Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento. adelmapi@ufpa.br Referências BRASIL, 2008. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem: princípios e diretrizes. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Bauman, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Boff, L. Princípio de compaixão e cuidado: encontro entre Ocidente e Oriente. Petrópolis: Vozes, 2009. Chaui, M. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Moderna, 2006. Giddens, A. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora Unesp, 1993. Machado, D. A.; Araújo, M. F. Violência doméstica: quando o homem é a vítima. In: Araújo, Maria de Fátima; Attioli, Olga C. (Orgs.) Gênero e violência. São Paulo: Arte e Ciência, 2004. Perls, F. S. Yo, hambre y agresión: los comienzos de la terapia gestaltista. México: Fondo de Cultura Económica (Ángel S. S. trad.), 1975. TORRES, D. M. de S. Violência doméstica e familiar: relato de experiência de atenção social a detentos da Delegacia da Mulher de Belém do Pará - DEAM, Revista do NUFEN, vol. 1, n.º 2 (1), 2009 Winter, T. R. O enigma da doença: uma conversa à luz da psicossomática contemporânea. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

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