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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Padecer no paraíso

Padecer no paraíso Conheça alguns Transtornos Psíquicos na Gestação e no Pós-Parto que comumente acometem as mulheres, como amenizar o sofrimento e até evitá-los Renata Demarque, Juliana Pire s Cavalsan, Mara Rocha Crisóstomo A gestação é um momento muito especial e peculiar na vida da mulher e de toda a sua família. É um período de mudanças, tanto físicas quanto psíquicas, com o propósito de gerar uma vida. Essas modificações e novidades criam uma grande expectativa e, infelizmente, neste período em que muitos imaginam que seja apenas de felicidade e tranquilidade, por vezes, pode servir como palco para o surgimento ou agravamento de diversos transtornos psíquicos. Sabe-se que a saúde mental materna é fundamental não só para o bem-estar da própria mãe, mas também do bebê e da sua família, além de ser um dos fatores determinantes para uma gestação e puerpério sem intercorrências. Na última década, tem-se dado cada vez mais importância ao tema pelos profissionais da área da saúde e pela mídia. A disseminação dos conceitos de transtornos psíquicos perinatais reduz o estigma e permite que as mulheres reconheçam que estão doentes e procurem ajuda. "A depressão perinatal é definida como a presença de um episódio de depressão maior que ocorre durante a gestação ou até 12 meses após o parto." Estima-se que a prevalência de depressão perinatal seja em torno de 12%¹ na população geral, mas esses valores podem chegar a 43% em mulheres com transtorno depressivo prévio e a alcançar 68% em mulheres que optaram por descontinuar o tratamento de manutenção com psicofármacos.² Similarmente, altas taxas de transtornos ansiosos, incluindo transtorno de pânico, transtorno obsessivo- compulsivo e transtorno do estresse pós-traumático também são encontradas³. O medo de que o bebê morra no berço pode ser patológico, assim como a aversão associada a trabalhos de parto prévios dolorosos e à recorrência de tensão, pesadelos e memórias negativas que se mantêm até o próximo trabalho de parto. Como identificar um transtorno psíquico? Sintomas ansiosos, humor mais instável, cansaço e insônia são comuns durante a gestação, principalmente no último trimestre e nas primeiras semanas após parto.¹ Perante isso, muitas vezes um transtorno do humor acaba não sendo devidamente diagnosticado pelos profissionais da saúde, sendo os estados de "exaustão" considerados "normais". A disforia puerperal ou blues pode ser identificado em até 80 % das puérperas. Caracteriza-se por sintomas depressivos leves, transitórios e insuficientes para causar prejuízo funcional para a paciente, se iniciam nos primeiros dias após o nascimento do bebê, atingem seu pico ao redor do 5º dia e remitem de forma espontânea, com duração de até 2 semanas1. Entretanto, se persistirem ou forem mais graves, deve- -se suspeitar de depressão. A depressão pós-parto acomete 10 a 15% das mulheres, e os sintomas depressivos puerperais se assemelham aos transtornos depressivos vivenciados em outros períodos de vida, mas são únicos quanto ao aspecto do momento de sua ocorrência e por afetarem a relação mãe-filho ou mesmo toda a estrutura familiar. Os sintomas incluem humor deprimido com perda do prazer em cuidar do bebê e falta de interesse da mãe por tudo o que ocorre no ambiente circundante4. Não há dúvidas de que os primeiros 6 meses ou mais, após o parto, podem ser exaustivos, com ansiedade elevada e insegurança das mães com a nova responsabilidade. Além disso, parece haver um claro aspecto hormonal envolvido. Há, em menor número, casos de psicose puerperal, que geralmente se iniciam nos primeiros dias até 2 a 3 semanas após o parto. Embora seja raro, trata-se de um quadro clínico grave, com prejuízo funcional significativo, provocando riscos de suicídio e infanticídio que podem se prolongar por vários meses4. O estresse durante a gestação também está associado com o nascimento de crianças menores, com o aumento do risco de parto prematuro, de comprometimento no comportamento e na cogniçāo do bebê. Pacientes que estão acima do peso ou que possuem algum tipo de transtorno alimentar, também têm risco aumentado para desenvolver depressão pós-parto.² O grande dilema entre tratá-las ou não reside na preocupação em que os efeitos adversos das medicações podem causar ao feto. Principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos perinatais² ou agravamento de sintomas psíquicos pré-existentes BIOLÓGICOS PSICOSSOCIAIS História de transtorno do humor ou ansiedade História de depressão pós-parto História de transtorno disfórico prémenstrual História de sensibilidade ao uso de anticoncepcionais Personalidade vulnerável Doença psiquiátrica na família Doenças crônicas Abusos e negligências na infância Adolescente primigesta Ter que abandonar estudos Gravidez não planejada Gravidez não desejada ou não aceita Esperar um bebê do sexo oposto ao desejado Mães solteiras, divórcio, viuvez Ter muitos filhos Reduzido suporte social Violência doméstica/conflitos Eventos estressantes enfrentados nos últimos 12 meses Baixo nível de escolaridade Dificuldades econômicas Abuso de substâncias A cautela é uma característica materna, mas o medo de que o bebê morra no berço pode ser patológico No entanto, a presença desses sintomas no período perinatal também pode trazer muitos prejuízos e comprometimentos tanto para a mãe quanto para a criança. Por isso, recomenda-se antes de iniciar qualquer tipo de tratamento medicamentoso, ter em mente uma questão fundamental: "Os riscos de não tratar os sintomas são menores do que os riscos que as medicações oferecem?" Em caso negativo, deve- -se prescrever a medicação, buscando um agente efetivo e na dose terapêutica. O uso de agentes menos efetivos ou em doses subterapêuticas provoca a associação dos riscos dos sintomas não tratados e dos efeitos colaterais das substâncias. Além disso, é fundamental reconhecer o efeito teratogênico das medicações e usar as aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA). Avaliar a gravidade dos sintomas e buscar outras formas de tratamentos, como as psicoterapias, são ferramentas valiosas tanto para o tratamento quanto para a prevenção dos sintomas. Mudanças positivas A terapia interpessoal enfatiza as relações interpessoais problemáticas e a transição para o papel de mãe, além de ajudar as mulheres a buscarem recursos para lidarem com todas essas mudanças ocasionadas pela gestação. É uma das terapias recomendadas pela American Psychiatric Association (APA) para o tratamento da depressão perinatal. Na terapia cognitivo-comportamental, o terapeuta e o paciente trabalham juntos para monitorar e modificar pensamentos, educar comportamentos e implementar estratégias para produzir mudanças positivas. É tão eficaz quanto a medicação em casos leves a moderados de depressão. Também é muito efetiva no tratamento de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos de pânico.¹,² Não há dúvidas de que os primeiros 6 meses ou mais, após o parto, podem ser exaustivos, com ansiedade elevada e insegurança das mães com a nova responsabilidade A prevenção é o ideal, principalmente nos casos em que a mulher já teve alguma patologia psiquiátrica durante outra gestação ou tem fator de risco para desenvolver ou agravar sintomas psíquicos. É preciso encaminhar ao psiquiatra antes mesmo de engravidar, para o cuidadoso planejamento e a devida avaliação da probabilidade de recorrência de sintomas perinatais em mulheres vulneráveis, recomendando e instituindo medidas preventivas para protegê-las. Renata Demarque é médica psiquiatra colaboradora do Pró-Mulher - Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP - Juliana Pires Cavalsan é médica psiquiatra colaboradora do Pró-Mulher - Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP - Mara Rocha Crisóstomo é médica residente de Psiquiatria do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP REFERÊNCIAS 1 Meltzer-Brody S. New insghts into perinatal depression: pathogenesis and treatment during pregnancy and postpartum. Dialogues in Clinical Neuroscience. 2011; 13(1). 2 Avni-Barron O, Hoagland K, Ford C, Miller LJ. Preconception planning to reduce the risk of perinatal depression and anxiety disorders. Expert Rev of Obstet Gynecol. 2010;5(4):421-435. 3 Gold KJ, Marcus SM. Effect of maternal mental illness on pregnancy outcomes. Expert Rev of Obstet Gynecol. 2008; 3(3):391-401. 4 Lousa Neto MR e Elkis H. Psiquiatria Básica. Atmed, 2ª Ed. 418-428, 2007.

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