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sábado, 20 de outubro de 2012
Comportamento compulsivo
Comportamento compulsivo
Se no TOC o objetivo é aliviar a tensão e se desfazer da ansiedade, no TCI a ação obedece ao princípio do prazer: a pessoa reconhece os impulsos como seus e se lança a realizar o ato porque vai sentir prazer
Roberte Metring
O impulso é uma percepção psíquica súbita de um desejo que impele o indivíduo à realização não planejada, de um ato que resulta no alívio da tensão ou uma satisfação prazerosa
Por acaso já se pegou puxando cabelos brancos do braço ou da cabeça para não delatar a idade? Já ruminou uma música por um tempo considerável, até que ela se tornasse chata em sua mente? Já voltou para ver se tinha mesmo fechado a porta da sua casa ou desligado a chama do fogão? Já brincou de colocar fogo em coisas quando era criança? Já apostou num inocente jogo de cartas de baralho com alguém? Já tentou se livrar de um pensamento que não o abandona? Já se viu praticando alguma mania como arrumar os óculos ou os cabelos várias vezes, mesmo sabendo que não era necessário, mas porque simplesmente parecia impossível controlar a vontade?
É bem possível que você tenha respondido sim a várias dessas perguntas. Calma! Isso não significa que você sofre de comportamento compulsivo ou transtorno de controle do impulso (TCI).
● Oneomania ●
(comprador compulsivo): do grego onéo, que significa comprar, a pessoa apresenta um excesso de preocupações e desejos relacionados com uma necessidade incontrolável de comprar e gasta mais do que pode, e/ou com coisas desnecessárias, ou seja, uma mania de comprar ou de gerar ônus. Essas preocupações perturbam o cotidiano do sujeito, pois consomem tempo significante e interferem no funcionamento social e laboral, resultando quase sempre em maiores problemas financeiros. Prevalência alta em mulheres (80% a 95% versus 5% a 20% em homens), sem distinção de escolaridade ou classe social.
A princípio, e de forma geral, um comportamento compulsivo (ou TCI) é classificado como uma falha da pessoa no controle de seus impulsos. Por isso, mesmo que você tenha respondido com vários sins às questões acima, se isso está totalmente controlado, você sabe o que está fazendo, não lhe causa problemas sociais, profissionais, relacionais, matrimoniais, financeiros etc., você não está sob efeito da compulsividade.
Atente ao fato de todo comportamento normal poder deslizar para um comportamento compulsivo, porém nenhum comportamento compulsivo é normal, a não ser entre aqueles que estão no mesmo contexto, no mesmo tipo de comportamento, que devem achar pouco normal viver uma vida sem muitos problemas de compulsividade.Pesquisas indicam que o comportamento compulsivo, de forma geral, se apresenta associado a transtornos de humor e de ansiedade. Também existem pesquisas que indicam o TCI como uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), embora não haja concordância plena sobre isso, já que no TOC os sintomas costumam provocar a ansiedade, gerando algum tipo de sofrimento para o indivíduo na execução do ato, que normalmente ele desejaria evitar mas que não consegue por ser a única forma encontrada para aliviar a tensão, a angústia e a ansiedade. Esse comportamento realizado no TOC é gerado por uma questão obsessiva, intrusiva, que é perfeitamente questionável pela pessoa, embora não controlável, portanto, considerado egodistônico - aquilo que não é dela, que vem de fora.
Um comportamento compulsivo (ou TCI) é classificado como falha da pessoa no controle de seus impulsos
Se no TOC o objetivo é aliviar a tensão e se desfazer da ansiedade, no TCI a ação obedece a outro princípio, o princípio do prazer. A pessoa não questiona se os impulsos são seus, ela os reconhece como seus - uma questão egosintônica - e se lança a realizar o ato porque vai sentir prazer naquilo e portanto para essa pessoa é fácil criar explicações para seus pensamentos ou comportamentos, mesmo que eles sejam nada adaptativos ao meio ou à sua posição. Essa pessoa não deseja neutralizar nada, deseja é sentir prazer realizando aquele ato.
PARA SABER MAIS
Sintomas do TCI
Segundo o DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 4ª edição),a característica mais evidente do TCI é o fracasso da pessoa em resistir à tentação de praticar algum ato, seja de forma premeditada/planejada ou não.
Nos momentos anteriores ao ato há uma crescente sensação de tensão ou excitação e, durante a realização dele, uma experiência de prazer, gratificação ou alívio.
Após a realização do ato não é raro que sobrevenha o arrependimento, a autorrecriminação ou a culpa, porém não é condição imperiosa que esses sentimentos ocorram, podendo mesmo não ocorrer, e se ocorrem não impedem a pessoa de realizar tudo novamente, pelo prazer que sente com o comportamento.
Impulso, obsessão, compulsão
Por impulso, nos referimos à percepção psíquica súbita de um desejo que se energiza impelindo o indivíduo à realização urgente e experimental, não planejada, de um ato ou comportamento que deve ter, como resultado, o alívio da tensão ou uma satisfação prazerosa. Em condições normais é isso o que ocorre, e o aparelho psíquico, agora aliviado da tensão, de uma forma ajustada, está pronto para a geração de outro ato ou comportamento de acordo com as necessidades e circunstâncias de vida do indivíduo.
Pesquisas indicam que o comportamento compulsivo, de forma geral, se apresenta associado a transtornos do humor e de ansiedade
Porém, nem sempre é assim que as coisas acontecem. Por vezes, o processo foge do controle e os impulsos começam a se tornar irrefreados como se ganhassem vida própria. Inicia-se uma sequência descontrolada e desenfreada do par impulso-ação que se retroalimenta sem um fim em si mesmo, conduzindo ao que passamos a chamar de comportamento compulsivo.
Se no TOC o objetivo é aliviar a tensão e se desfazer da ansiedade, no TCI a ação obedece a outro princípio, o princípio do prazer
Na compulsão, o indivíduo é levado a praticar um ato por um impulso interno muito poderoso. A não realização do ato traz sentimento de angústia e aumento da pressão psíquica, que podem se tornar intoleráveis e desestruturantes do próprio psiquismo
● Automutilação ●
A agressão ao próprio corpo é intencional, sem no entanto desejar conscientemente chegar ao suicídio, com o uso de técnicas de baixa letalidade: cortar a pele (70%), bater em si mesmo (40%) e queimar-se de alguma forma (entre 15% e 35%). Estudos identificaram que pessoas abusadas emocional, física ou sexualmente na infância, que sofreram bulling na adolescência, que apresentam sintomas depressivos, ansiedade, impulsividade e baixa autoestima, que já tenham apresentado ideação ou tentativa de suicídio estão entre os que desenvolvem esse comportamento compulsivo.
Mas pode também ocorrer o contrário.
Essa sequência impulso-ação, por motivos vários, pode começar a interagir com mecanismos psíquicos de controle - os mecanismos de defesa do Ego. Esses mecanismos têm o objetivo de proteger o aparelho psíquico do sofrimento, da aflição ou da descompensação. Essa nova associação não consegue impedir a geração do impulso, já que o desejo emerge de camadas menos conscientes do aparelho psíquico, mas consegue impedir que seja gerado o ato ou o comportamento que aliviaria a tensão. Nesse caso não teremos como resultado um comportamento compulsivo, como no anterior, mas sim outros quadros neuróticos, como por exemplo as fobias, que delatam ao mesmo tempo o desejo e o medo de realizar alguma coisa, portanto para não cometer o proibido é melhor se afastar do lugar, da situação, das pessoas que possam eliciar esse ato.Obsessões referem-se a ideias, imagens, impulsos ou pensamentos intrusivos e repetitivos, indesejados e exagerados, que produzem ansiedade e desconforto para o indivíduo. A obsessão tem caráter egodistônico, e apesar de reconhecida como indesejável, a pessoa não consegue exercer controle sobre sua presença. A única forma de controle é gerar um comportamento que alivie a tensão, porém o próprio comportamento acaba por gerar ainda mais angústia e ansiedade, já que a pessoa reconhece que não deveria estar fazendo aquilo, que não é do seu desejo, ativando um circuito de retroalimentação que se torna, então, incontrolável pela pessoa, a não ser que se submeta a tratamento, normalmente psicológico e psiquiátrico. A obsessão é característica do TOC, tem classificação própria para diagnóstico, então não é estudada como um TCI.
A obsessão tem caráter egodistônico, e apesar de reconhecida como indesejável, a pessoa não consegue exercer controle sobre sua presença
O compulsivo, após a realização do ato, pode ficar ou não arrependido, mas, independentemente disso, nenhum sentimento o impedirá de realizar tudo novamente, pelo prazer que sente com o comportamento
Compulsão, etimologicamente, tem origem latina - compulsione, compellere - que significa compelir, constranger, forçar, obrigar. No vocabulário freudiano, compulsão refere-se a uma força interna que impera no indivíduo, compelindo-o a realizar frequentemente uma ação, produzir um pensamento, ou mesmo gerar uma operação defensiva, ou tudo isso junto. Clinicamente, compulsão refere-se a uma conduta - um ato, uma ação, um comportamento ou um pensamento - que o indivíduo é levado a praticar por um impulso interno muito poderoso, ou uma obsessão, dos quais perde o controle, já que a não realização do ato traz sentimento de angústia e aumento da pressão psíquica, que podem se tornar intoleráveis e desestruturantes do próprio psiquismo.
Quando o indivíduo cede à compulsão surge o comportamento compulsivo, uma forma de aliviar tensões psíquicas, que se torna viciada e descontrolada. Lembremo-nos que a diferença entre o TOC e o TCI se constitui basicamente no fato de o comportamento compulsivo no TOC ter origem egodistônica, ser ritualizado, visar a redução da ansiedade do sofrimento. No TCI, a origem é egosintônica e normalmente gera sensação de prazer ou satisfação na sua realização.
São exemplos de comportamento compulsivo, classificados no DSM-IV e na CID-10 (Classi cação Internacional de Doenças): transtorno explosivo intermitente, cleptomania, piromania, jogo patológico, tricotilomania (arrancar os de cabelo ou pelos do corpo), dermatotilexomania (causar lesões na própria pele), oneomania (comprar compulsivo), compulsão sexual, compulsão pela internet, amor patológico, entre outros.
PARA SABER MAIS
Comportamento sexual compulsivo
Também já classificado no passado como Ninfomania, nas mulheres, e Don Juanismo, nos homens, refere-se ao aumento da sexualidade (desejos e fantasias) com comportamentos sexuais impróprios, exagerados para além do socialmente habitual, na maioria das vezes envolvendo uma sucessão de parceiros que são sentidos pelo indivíduo como coisas a serem usadas para o seu prazer, simplesmente. A maioria das pessoas com esse comportamento apresenta também critérios definidores de abuso de substâncias psicoativas (associadas à desinibição e intensificação do prazer). Não deve, no entanto, ser confundido com parafilia - fantasia sexual excitante envolvendo objetos não humanos e que tem classificação própria como distúrbio da conduta sexual e não como compulsividade. Prejuízos sócio-ocupacionais estão presentes nesse comportamento, como gastos financeiros, traições, perda de amigos e problemas no trabalho. Pode haver associação com outras doenças psiquiátricas cujo diagnóstico deve ser afastado. Estima-se que 5% da população apresenta esse comportamento, com leve preponderância do sexo masculino (dado questionável em função dos limites sociais e morais). Nas fases da adolescência e adulto jovem, o impulso apresenta-se como egosintônico, chegando mesmo a aumentar a autoestima (característica de TCI). Em fases mais tardias, se permanece o comportamento, o impulso se apresenta como egodistônico, com o ato acompanhado de arrependimento pela conduta praticada (característica do TOC). Os estudos sobre a classificação ideal para esse comportamento compulsivo ainda não são conclusivos.
PARA SABER MAIS
Pedofilia é o mesmo que comportamento sexual compulsivo?
Pedofilia não é o mesmo que comportamento sexual compulsivo. A pedofilia é um distúrbio de conduta sexual onde o indivíduo adulto sente desejo por crianças ou pré-adolescentes. O pedófilo(a) pode ter qualquer opção sexual (homo, hetero ou bissexual), pode ser homem ou mulher, porém é maior o número de homens pedófilos, na sua maioria casados, heterossexuais e sexualmente insatisfeitos com sua companheira por conta de algum distúrbio emocional associado e que acabam procurando afirmação e controle nas relações com crianças. Muitos ficam somente no campo da fantasia e do desejo pedófilo, não transgredindo nem se tornando abusador. Quando se rompe a barreira da imaginação e se vai aos atos, então, além da pedofilia temos associado o abuso sexual, que pode se efetivar por meio de carícias feitas por ou em crianças, cópula com crianças ou, ainda, pela manifestação de comportamento exibicionista, sodomia e incesto. São transtornos diferentes: não é por ser compulsivo que alguém é pedófilo, nem por ser pedófilo alguém é, automaticamente, compulsivo.
Formas de tratamento
Há duas formas de tratamento possíveis para os casos de comportamento compulsivo: acompanhamento psicoterapêutico e acompanhamento psiquiátrico.
Compulsão tem origem latina - compulsione, compellere - que significa compelir, constranger, forçar, obrigar
A pessoa que apresenta um excesso de preocupações e desejos relacionados com necessidade incontrolável de comprar e gasta mais do que pode e/ou com coisas desnecessárias também sofre de um comportamento compulsivo
O acompanhamento psicoterapêutico vai trabalhar com a revisão e clarificação dos conteúdos subjetivos presentes nas manifestações compulsivas do comportamento. O psicólogo é o profissional que vai conduzir um processo, com base científica comprovada, para levar o paciente a compreender as causas do seu comportamento ou sofrimento, ajudando a encontrar formas de superá-los. Existem várias linhas de trabalho psicoterapêutico, entre elas as psicoterapias de insight, que permitem o clareamento das motivações até então inconscientes; as psicoterapias comportamentais, que irão trabalhar com a remodelagem dos comportamentos não adaptativos gerados pela compulsividade através de reforçadores específicos e outras técnicas; e as psicoterapias cognitivas, que trabalham com as crenças e ideias disfuncionais que possam estar atuando como pano de fundo para o transtorno. Essas duas últimas costumam ser aplicadas conjuntamente. Existem outras, cada uma com suas técnicas e seus objetivos.
Todas as linhas psicoterapêuticas produzem resultados, mais efetivos e rápidos quando há empatia entre paciente e terapeuta, quando o paciente sinte-se à vontade para trabalhar suas questões utilizando os métodos e técnicas da linha escolhida. O paciente pode optar por atendimento individual ou em grupo.
Todas as linhas psicoterapêuticas produzem resultados, mais efetivos e rápidos na medida em que há empatia entre paciente e terapeuta
Os comportamentos compulsivos normalmente acabam acompanhados de ansiedade e/ou angústia e de outros sintomas típicos. O acompanhamento psiquiátrico é fundamental. Psiquiatra é um médico com especialização em transtornos psíquicos e do comportamento. Sua visão é organicista, ou seja, como o organismo afeta e é afetado pelos processos mentais. Conhece os melhores medicamentos para cada caso e os receita. Quando necessário, é o psiquiatra que encaminha o paciente para uma avaliação neurológica.
PARA SABER MAIS
Comportamento cleptomaníaco
A pessoa fracassa em resistir ao impulso de furtar algum objeto, que normalmente não lhe é útil para nenhum fim, nem por seu valor monetário, pois quase sempre poderia comprá-lo, mas não o faz. Quando surge o impulso, que não é planejado, vem acompanhado de um estado de tensão e excitação que é substituído pela sensação de prazer, satisfação e alívio com a realização do ato. Normalmente, após o furto presenteia alguém com o objeto, ou o joga fora. Os objetos mais comumente furtados são utensílios de higiene pessoal, roupas, alimentos, joias, cosméticos ou dinheiro. Havendo condição adversa, como um guarda, uma câmera ou uma pessoa olhando, o furto dificilmente ocorrerá. Das pessoas que cometem algum tipo de furto, apenas 5% sofrem de cleptomania. A incidência é maior entre mulheres, na proporção de 4 mulheres para cada homem (4:1).
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Referência rápida aos critérios diagnósticos do DSM-IV-TR, 4ª Edição revisada. Porto Alegre: Artmed, 2003.
FALCÃO, L. F. R. (Org.). Manual de psiquiatria. São Paulo: Roca, 2011, 467 p.
KAPLAN, H. I.; SADOCK, B. J. Manual de psiquiatria clínica. Porto Alegre: Artmed, 1998, 444 p.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
PANDOLFO, A. T. Algumas considerações sobre transtornos do controle dos impulsos. Porto Alegre: Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre - UFCSPA, 2009, 35 p. Monografia (Especialização). Centro de Estudos José Barros Falcão - Curso de Especialização em Psiquiatria Forense, Saúde Mental e Lei
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