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sábado, 17 de agosto de 2013
Rancor na vida a dois
Rancor na vida a dois
Regina Navarro Lins
A questão da semana é o caso do casal que briga muito e na frente de outras pessoas. O marido pede ajuda para mudar essa situação, uma vez que não deseja se separar.
Uma das coisas mais desagradáveis que existem é conviver com um casal que briga, mas, juntos há muito tempo, não percebem o absurdo de se viver dessa forma. Quando saem com um grupo de amigos e praticamente não precisam se comunicar, ainda passa.
Mas quando só há mais uma ou duas pessoas e todos conversam juntos…Muitas vezes, na maioria dos casos, eles aproveitam justamente a presença dos outros para se agredirem, criando uma situação constrangedora. Mesmo que os ataques sejam sutis e disfarçados;
“Não conheço rancor pior que o matrimonial. A maior parte dos casamentos, durante a maior parte do tempo, são de precários a péssimos. A cara das pessoas nessa situação fica de uma feiúra moral que assusta. O clima em torno dos dois é literalmente irrespirável, sobretudo por acreditarem ambos que têm razão.” afirma o psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa.
Para ele, o rancor matrimonial, acima de tudo amarra, pega você de qualquer jeito, te imobiliza, como se você tivesse caído numa teia de aranha. Quanto mais você se mexe, mais se amargura e raiva sente. Raiva — que faz brigar; mágoa — que faz chorar. A mistura das duas é o rancor, um ficar balançando muito e muito tempo entre o homicídio e o suicídio. E cometendo ambos ao mesmo tempo.
A primeira pergunta que nos vem à mente é: por que não se separam? Não se separam porque dependem um do outro emocionalmente, precisam do parceiro para não se sentirem sozinhos e, principalmente, para que seja o depositário de suas limitações, fracassos, frustrações e também para responsabilizá-lo pela vida tediosa e sem graça que levam. Quanto maior a defasagem entre a expectativa que tinham do casamento e a impossibilidade de concretizá-la, piores são as brigas.
Aquela ideia de que, ao casar, se tornariam um só, com todas as necessidades satisfeitas, já foi abandonada há muito tempo. O que restou foi um profundo rancor matrimonial, exercitado no dia-a-dia. Virginia Sapir, uma terapeuta de família conhecida no mundo todo, afirma que o sentimento mais comum entre os casais é o desprezo recíproco. Quanto a isso penso não haver dúvida. Parece que se despreza o outro por ter falhado na sua principal função: tornar a vida do parceiro plena e interessante.
O longo tempo de convívio pode transformar os dois ou então tornar cada um mais preso a seu próprio jeito e hábitos. Isso para se defender das cobranças, vindas do outro, para que se modifique. A consequência é um deles se tornar mais rígido, impedido de se desenvolver.
Gaiarsa, com sua prática clínica de mais de 50 anos, acrescenta: “Esse rancor matrimonial é a coisa mais peçonhenta, amarga, azeda e torturante de que tenho notícia ou experiência. Sim, experiência — terrível. Quem não a tem vez por outra? Mas quando ela dura muitos meses — até muitos anos — é, na certa, o pior veneno que se pode imaginar”.
Para solucionar essa questão crônica de muitos casamentos, só vejo duas saídas: ou as pessoas desistem de ter relações estáveis e duradouras, ou descobrem uma forma de se tornar inteiras e poder se relacionar com o outro pelo prazer de estar perto, não atribuindo a ele o que não lhe diz respeito.
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