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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Festas de fim de ano: porque vale a pena comemorar

Festas de fim de ano: porque vale a pena comemorar O final de ano chegou. Nos países cristãos duas grandes datas marcam esta época: o Natal e a Passagem de Ano. Nestas duas ocasiões muita gente participa de vários rituais comemorativos: no Natal a festa acontece principalmente entre familiares, existe a troca de presentes, na passagem do dia 24 para o dia 25 muitas famílias se reúnem para uma ceia e são trocados votos de um “Feliz Natal”. Na Passagem de Ano, a festa é mais pública e mais ruidosa. Os rituais incluem comer sementes de romã e lentilha, brindar a passagem com champanhe, vestir-se de branco, pular ondas, fazer oferendas para Iemanjá, assistir a missa do galo, etc. Vários países não cristãos também estão comemorando, cada vez mais, o Natal e a passagem de ano. No Japão, por exemplo, um país onde a grande maioria das pessoas é budista e xintoísta, o dia do Natal também tem sido comemorado, embora o seu conteúdo religioso seja amplamente substituído por um conteúdo romântico (por exemplo, os casais vão jantar fora nesta ocasião). O desconforto daqueles que não participam das comemorações É difícil ficar alheio a essas comemorações. É como trabalhar durante um jogo do Brasil na Copa do Mundo. Nesta ocasião é quase palpável a sensação de está acontecendo algo que faz muito sentido e que devemos assistir e torcer. Muitos daqueles que não assistem os jogos da Copa ficam com a sensação que estão perdendo algo muito importante e que, por isso, algo de errado pode estar acontecendo com eles. Essa abstenção de participação dessas grandes datas pode ser uma experiência muito dolorida, perturbadora e ameaçadora. Certas pessoas que voluntariamente não participam dessas comemorações tentam se afirmarem recorrendo a pensamentos do tipo: “Não acredito em nada disso”, “É tudo comercio e hipocrisia”. Essas pessoas procuram sentir que são superiores às demais por não participar “desse tipo de besteira”. No entanto, geralmente elas ficam muito aliviadas quando essas ocasiões comemorativas terminam e elas deixam de se sentir "peixes fora d'água". Essas pessoas ironizam o lado comercial dessas festas: “Servem mesmo é para promover o consumismo e para alimentar superstições”. Realmente, o consumismo e as superstições florescem nessas épocas. No entanto, “não convém jogar fora a criança junto com a água suja”, como afirma um sábio ditado norte americano. Vamos examinar agora algumas funções importantes desse tipo de comemoração. Ritos de passagem e ritos de aniversário Em todas as sociedades existem ritos que marcam datas importantes como, por exemplo, as celebrações do nascimento, o início da adolescência, o início da idade adulta, o casamento e a morte. Existem também muitos ritos menos generalizados, aqueles que não são comemorados em quase todas as sociedades, como o dia da formatura na escola, o “Dia da Mulher”, o “Dia do Trabalho”. Essas celebrações são conhecidas genericamente como “ritos de passagem” (esse nome foi popularizado no início do século passado pelo antropólogo alemão Arnold van Gennep). Existem vários tipos de ritos. Os três mais importantes são os seguintes: ritos iniciação, ritos de passagem e ritos comemorativos de aniversários. Devido as datas que se avizinham, vamos falar aqui principalmente desses dois últimos tipos de rito. Os ritos de passagem, como o próprio nome indica, marcam uma mudança de papéis. Na nossa sociedade, o primeiro ritual de passagem geralmente acontece quando a gravidez é confirmada: a passagem para a existência de um novo ser. Mais frequentemente ainda são as comemorações de nascimento. Esta comemoração marca o início da vida do indivíduo como um ser independente do corpo da mãe. O último ritual de passagem é o da morte. Os ritos de aniversário marcam a passagem de tempo transcorrido a partir de um acontecimento importante: comemorações de aniversários de nascimento, aniversários de casamento, aniversários da independência do país, aniversários da canonização ou nascimento de santos, etc. Os ritos de aniversário podem ser alegres e festivos quando o acontecimento que está sendo celebrado é positivo ou alegre (aniversários, datas nacionais, dias santos, etc.) ou tristes, quando o acontecimento relembrado é negativo ou triste (aniversario da morte de um ente querido, dia que ocorreu uma separação indesejada, etc.). Por que os ritos são importantes? Os ritos ajudam a dar sentido para a vida, dão uma sensação de pertencimento e união para aqueles que comemoram juntos, ajudam a mudança de papel social, etc. Funções dos rituais de passagem Algumas das principais funções dos rituais de passagem são as seguintes: - Facilitar a mudança de papéis sociais. Os ritos facilitam o abandono dos papéis anteriores e a adoção dos novos papéis. Estes rituais geralmente envolvem a estipulação de uma data para mudança de papel, a presença de pessoas que investirão tempo e recursos para estarem presentes e que testemunharão a passagem, uma cerimônia elaborada para marcar a passagem e a investidura do novo papel. Tudo isso contribui para que a mudança de papéis seja encarada mais seriamente do que o seria caso essa mudança ocorresse sem o rito como, por exemplo, através de uma passagem privada, sem pompa, emoções e testemunhas, - Fortalecer vínculos entre os participantes do evento. Por exemplo, participar de um ritual com outros convidados fortalece a sensação de pertencimento ao mesmo grupo que eles pertencem. - Proporcionar conteúdo e significado para a vida. As comemorações marcam a vida. Uma vida sem rituais é uma vida vazia e linear. A vida pode ser marcada e relembrada através de datas importantes. Essas datas ficam mais delineadas quando é necessário se preparar para elas, esperar por elas, participar delas, falar delas, pensar nelas e sentir fortes emoções nessas ocasiões. - Reforçar os status dos participantes Durante os rituais os participantes exibem e testam as suas importâncias sociais e os seus vínculos: centralidade em relação aos anfitriões, vestuários, cumprimentos, honrarias, etc. Rituais sob encomenda Fiquei sabendo de um antropólogo que oferece os seus serviços para ajudar a preparar ritos significativos para aqueles que desejam comemorar acontecimentos importantes, mas que, por algum motivo, não querem utilizar os ritos oficiais existentes para essas comemorações. Por exemplo, esse antropólogo ajuda a preparar um rito para comemorar e marcar uma união conjugal: ele ajuda a planejar uma cerimônia que tenha as funções de ritual de passagem. Por exemplo, ele planeja uma cerimônia onde os convidados sejam avisados formalmente e com bastante antecedência; os celebrantes do ritual comparecem devidamente paramentados: roupas especiais para os oficializadores da cerimônia e para os noivos; planejamento de uma cerimônia para oficializar a passagem que produza efeitos psicológicos e sociais marcantes e desejados (declarações de amor por parte dos noivos, fórmulas para assumir compromissos que são recitadas pelos noivos, músicas cerimoniais, discurso por parte de convidados especiais e troca de anéis, oferecimento de presentes para os noivos, etc.). Esse conjunto de acontecimentos ritualísticos provoca muita emoção e marca fortemente a passagem do status de solteiro para o de casado. Essa marca acontece tanto para os noivos como para a família e para os convidados. As atitudes e motivações daqueles que estão dispostos a passar por estes ritos também podem ser bem diferentes daqueles que não querem se submeter a eles. Por exemplo, quem está disposto a se casar, “com tudo que tem direito”, com uma determinada pessoa, pode estar mais disposto a assumi-la como cônjuge do que quem quer apenas ir morar junto com ela sem nenhum alarde ou comemoração. Por esse motivo, um determinado rito pode até não ser crível, mas participar dele pode ter muita importância e produzir muitos efeitos. Comemore as festas de fim de ano com gosto e com leveza! Feliz Natal e um excelente 2014 para você e todos os seus entes queridos!

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