ORIENTAÇÃO E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO ON LINE
domingo, 29 de abril de 2012
Filhos do coração
Filhos do coração
A adoção trouxe sempre um debate paradoxal e polêmico, sendo que a Psicanálise esteve presente em diversas reflexões sobre o assunto. Este dossiê pretende debater algumas práticas de filiação de crianças adotivas a partir do surgimento da família moderna e de novos conceitos bastante comentados pela mídia
Por Sergio Eduardo Nick
"DESCOBRIU-SE A IMPORTÂNCIA DE MANTER CARACTERÍSTICAS DA ORIGEM DE CRIANÇAS ADOTADAS COMO RETRATOS DE SUA CULTURA"
Adoção sempre foi assunto, mas a questão vem sendo trazida à tona pela mídia com frequência, principalmente quando se trata de Adoção Transracial. Um modelo seguido a partir de exemplos de astros da mídia internacional, que tem realizado adoções de bebês e crianças de países onde a miséria, as guerras, e as dificuldades econômicas tornaram o cuidado à prole um desafio de enormes proporções. Porém, para os que trabalham nessa área, especialmente no Brasil, o problema já é muito antigo, uma vez que nos países de variedade étnica, como o nosso, a Adoção muitas vezes ocorre dentro desta perspectiva. O mesmo acontece dentro de adoções internacionais, em que a diferença de etnias e culturas impõe um enorme trabalho de adaptação aos pais adotivos, bem como às equipes que vão lidar com essas crianças.
AUTORES CLÁSSICOS
O olhar da Psica nálise sobre crianças e bebês adotados já vem de longa data, tendo alcançado um grande desenvolvimento a partir de trabalhos de autores como Melanie Klein, Esther Bick, John Bowlby, Françoise Dolto, dentre muitos outros. Em prosseguimento a esses autores, vários psicanalistas têm desenvolvido um estudo mais acurado sobre crianças e bebês adotados por pais de etnia e cultura diferentes.
Uma das primeiras descobertas foi de que esses bebês, mesmo adotados em momentos muito precoces de sua vida pós-natal, apresentavam uma série de dificuldades adaptativas à cultura, à língua e aos hábitos de vida dos pais adotivos. Urgia, portanto, que fossem apresentadas medidas preventivas e terapêuticas para minimizar os danos e as patologias psíquicas decorrentes desse tipo de adoção; por exemplo, descobriu-se a importância de se manter algumas características da origem dessas crianças, tais como: retratos e objetos alusivos ao seu país e à sua cultura; colocar o bebê para dormir ao som de músicas e histórias de seu meio cultural; e manter, dentro do possível, contato da criança com o seu país de origem ou com conterrâneos seus. Descobriu-se que medidas simples como essas diminuíam sensivelmente as reações de stress, facilitando sua adaptação ao novo meio cultural em que fora inserido.
Na novela
Recentemente, na novela Viver a Vida, a personagem da atriz Paloma Bernardi, chamada Mia, é filha adotada do casal Marcos, vivido por José Mayer e Tereza, personagem da Lilian Cabral. Nota-se que ela possui um temperamento dócil, sempre disposta a ajudar os demais personagens. Isso enaltece que as crianças adotadas, com um suporte adequado (não somente financeiro), têm totais possibilidades de se desenvolver emocionalmente de maneira positiva.
EXPERIÊNCIA CLÍNICA
Ao mesmo tempo, crianças e bebês adotivos foram sendo atendidos por psicanalistas do mundo inteiro, criando com o tempo uma experiência clínica que vem sendo discutida em simpósios, grupos de estudos, congressos, etc. O congresso Internacional de Psicanálise de Chicago, realizado em julho de 2009, abriu espaço em sua agenda para que colegas dos vários continentes debatessem mais aprofundadamente essa questão; a revista psique Ciência & Vida traz para seus leitores uma amostra dos trabalhos e discussões ali apresentados, com o que há de mais atualizado na realidade clínica da Adoção. Esperamos com isso dar ao leitor o conhecimento de modernas teorias e práticas que vem sendo utilizadas na compreensão psicodinâmica dessas crianças, ajudando assim na divulgação de intervenções técnicas que ajudam no cuidado a esse particular grupo de adoções.
Sergio Eduardo Nick é Psiquiatra e Psicanalista, Secretário Geral da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) e Chair do Comitê de Informação Pública da International Psychoanalytical Association (IPA)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário